17.10.08

Livro: Os Judeus de José Vilhena

"Estando eu, um dia, às seis horas da tarde, sentado na minha biblioteca a pensar escrever um desses livros que tanta fama me dão, vi descer do céu um anjo que me disse: «José, porque não contas a história do Povo Eleito?»
Compreendendo que aquela aparição, em camisola branca e com asas, era um sinal do Altíssimo, logo me deitei ao trabalho.
Os judeus, para falar verdade, nunca foram um povo da minha simpatia e, desde os tempos em que, com rara aplicação, estudei o catecismo, sempre se mostraram desprezíveis aos meus olhos. Afiguravam-se sensuais e mulherengos, constantemente sujos, com a barba por fazer, só tomando banho (pela Páscoa) nas águas estagnadas do Mar Morto, e isto para cumprir o preceito, que não por motivos de higiene. Gente desta, que ainda por cima empresta a 20% (1), nunca mereceu a minha simpatia, embora a necessidade (bendito Deus!) me tenha feito recorrer a eles, por desgraça minha, demasiadas vezes.
Mas na galeria judaica abundam também as mulheres – e que mulheres! – todas esplêndidas, tão célebres pelas suas formas como pelas taras sexuais que tinham entranhadas no sangue. Desde as prostitutas de Jerusalém, até às meninas virgens, de boas famílias, que se deitavam com David (patriarca avançado em anos e em velhacaria) a fim de que o velho se aquecesse, essas simpáticas criaturas tornam a Bíblia um livrinho quase tão apreciado como o Kamassutra, a Vida Sexual do Professor Egas Moniz ou as Noites de Amor da Duquesa Olga.
Isso tenta a minha musa, como diria o Gerónimo Bragança(2).
Vestindo uma camisa de dormir, indumentária própria para estes e outros cometimentos, fui beber ao sagrado livro – fonte de toda a verdade – inspiração e sabedoria.
Consola-me a ideia de que, desta vez, ninguém duvidará das minhas palavras, nem as menosprezará, pois logo incorre no risco de ser excomungado, confundido nas profundas dos infernos e passar à eternidade transformado em tocha, frito em azeite ou, mais naturalmente , em Margarina Vaqueiro, pois outro óleo não se usa nas infernais cozinhas (diz-nos a Sr.ª D. Luísa Meireles, da Amadora…)
De facto, segundo Leão XIII, na Encíclica Proventissimus Deus, a divindade inspira quem trata destas coisas. Embora seja humana (bem humana, falível e mortal – ai de mim!) a mão que empunhou a pena, foi Deus quem a guiou sobre o papel. Daí a responsabilidade do autor desta obra estar reduzida a metade, porque a escreveu de parceria, não sendo, portanto, mais do que o instrumento. E se alguém se queixar à digníssima Comissão de Censura(3), deve fazê-lo honestamente, apontando Deus em primeiro lugar, já que ele é a causa principal e primeira, como ensina, e muitíssimo bem, S. Tomás.
Aproveito para pedir desculpa se a linguagem vos parecer descabelada, se surgir mesmo um ou outro palavrão, acidente que procurei evitar a todo o custo. Se acontecer é porque, de acordo ainda com o citado e sapientíssimo Leão XIII, Deus utiliza o modo humano para falar com os homens(4).

Notas do Autor:
1 – Ao mês!
2 – O príncipe dos poetas portugueses.
3 – Filantrópica instituição que tem levado muitas almas para o céu, tirando-lhes a tempo, da frente dos olhos as leituras ruins.
4 – Refiro-me, evidentemente, ao deus de Israel, não tendo isto nada a ver com o Nosso – o Único e Verdadeiro."

In Introdução, pp. 11/17.

3 comentários:

Eraldo Angelo disse...

Lí duas vezes o texto. Humor inteligente também indispensável ao bem viver. Vou ver se consigo o livro.

Diogo disse...

Li muitos dos livros do Vilhena quando era pequeno. Continuo a apreciar o seu humor.

José Vilhena disse...

www.vilhena.me