Rodrigo Emílio: selecção poética
A melhor forma de recordar Rodrigo Emílio é ler, meditar e cantar a sua solar, vibrante, encantatória e musical poesia da qual deixo alguns exemplos nesta simples e curtíssima selecção que acaba por ser um renovado de manifesto de fidelidade.porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,
sobressaem, sempre vivos:
os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.
In Poemas de Braço ao Alto, 1982, p. 20.
(PARA AFIXAR EM VOZ ALTA)»
o meu (w)alter-ego —. Com afectuosa cumplicidade.
É preciso que se saiba quem me mata
É preciso que se saiba que, no forro
Desta angústia, é da Pátria tão-somente que se trata.
Se se trata de pedir-Lhe algum socorro,
O Seu socorro vem — a estalos de chibata...
E não ata nem desata o nó-cego deste fogo,
Que tão à queima-roupa me arrebata,
A não ser com a forca a que recorro
— E que é barata...
(É preciso que se saiba por que morro,
Enforcado no nó d’uma gravata!)
Jazigo, deserto, morro,
Baldio ou bairro-da-lata:
Não importa, já, ao certo, saber onde...
Andar à cata de data...
— É preciso que se saiba por que morro,
No meio deste monte de sucata!...
É preciso que se saiba por que morro
— E que és Tu, Pátria ingrata, quem me mata!
In Poemas de Braço ao Alto, 1982, p. 253.
without love.
dos dólares,
energúmenos
dos números:
— Guardai as vossas
esmolas,
para a Europa
dos chulos...
... E ficai-vos com
os trocos;
ou cambiai-os
em rublos!...
Não me digam que não ouvem,
Na pulsação da manhã,
Sinfonias de Beethoven
e Prelúdios de Chopin!?...
Não me digam que persiste,
Convosco, a música triste,
O aroma de pesar,
D’alguma ária de Liszt,
D’algum requiem de Mozart?!...
— Necessário é coroar,
só d’élans,
o coração,
E erguer, a prumo, no ar,
Manhãs
de Restauração!
In Poemas de Braço ao Alto, 1982, p.331.


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