18.11.07

Correntes e cadeados

Desafiado pelo FSantos - nesta brincadeira da corrente aleatória ou lá o que isso seja - a transcrever a 5.ª linha da página 161 de um livro, aqui estou a responder ao repto. Do livro escolhido por mim, a referida página, que coincide com o início do texto, só tem dois parágrafos tendo eu o prazer de transcrever o primeiro da autoria de António Ferro, um dos grandes mestres da Cultura Portuguesa.
«A Arte de Bem Morrer

A Vida é o curso superior da Morte. Durante a vida deve aprender-se, apenas, a morrer. A Morte é uma prova de concurso para a Eternidade. Ela deve ser a nossa maior vitória. De resto, a Morte é um preconceito, uma invenção das agências funerárias. Morrer é subir, abandonar o corpo como um fato velho. Não há mulher mais linda do que a Morte. Ela adormece, ela fecha os olhos de quem deseja, ela cega como uma grande paixão. A Morte é uma senhora. É preciso recebê-la, é preciso ter cavalheirismo de não a desiludir, de não a deixar envergonhada, vexada, no seu amor por nós. A Morte é uma mulher. E é talvez por isso, minhas Senhoras, que a mulher é, às vezes, a morte... A Morte, com rosto de morte, não existe. A Morte é a apoteose da Vida, um final de acto, onde convém que a última frase seja de efeito. A Morte é um papão e nós não somos meninos. Morrer é passar para o lado de lá, é viajar... Nós falamos dos fantasmas, das almas do Outro Mundo, sem nos lembrarmos de que, para esse outro mundo, nós somos, talvez, os fantasmas, as Almas deste Mundo...».

C
onferência realizada em 21 de Junho de 1922, in "Obras de António Ferro - Intervenção Modernista 1", Editorial Verbo, 1987.
Agora, passo a bola aos Arqueofuturista, Mote
para Motim, Mneme, Fogo da Vontade e Voz Portalegrense.

2 comentários:

a voz disse...

Missão Cumprida!

Obrigado por te lembrares de mim.

Abraço.
Mário

F. Santos disse...

Uma excelente citação!
Obrigado.