17.4.09

Livro: Nun`Álvares Pereira de Valério Cordeiro

Nun`Álvares por João Ameal

«A Idade Média portuguesa está cheia de esplêndidas figuras representativas. Desde os grandes Reis da Fundação, da Reconquista, do Povoamento, do Descobrimento: Afonso I, com sua espada criadora do Reino Novo; Sancho I, que o engrandece e restaura: Afonso II, que lhe dá o inapreciável benefício de uma autoridade firme; o desventurado Capelo, conquistador de tantas terras no sul; Afonso III, que marca à Nação o definitivo contorno; o Lavrador da Terra e do Espírito, Dom Dinis; Afonso IV, cavaleiro intrépido e jovial; Fernando, perdido de amores fatais mais verdadeiro iniciador do nosso poderio marítimo; João I, chefe exemplar de um Povo desperto e de uma Família extraordinária — desde os grandes Reis, aos heróis da Sabedoria ou da Guerra. Um nome apenas entre os primeiros: esse maravilhoso Santo António de Lisboa, flor franciscana da superior cultura da sua época, Doutor e pregador de fama, aceso em sagradas cóleras contra os albigenses heréticos, glosador eloquentíssimo dos Evangelhos, generoso dispensador de milagres. Entre os segundos, um nome apenas: o de Nuno Álvares, que vimos coberto de loiros no bravo tumulto das batalhas e agora encontramos, neste primeiro quartel do Século XV, a esplender na pura atmosfera do claustro.
É o mais valoroso cavaleiro do tempo. Alcança triunfos inverosímeis: Atoleiros, Aljubarrota, Valverde, quantos! Revela sempre um sentido prático, infalível da táctica militar — quando escolhe e fortifica a posição que os nossos ocupam no dia de Aljubarrota; quando adopta o famoso dispositivo do quadrado; quando dirige e comanda os mais denodados ataques, indiferente ao risco e ao número de inimigos, primeiro de todos na arrancada e na temeridade. De súbito, porém, solicitado por enigmático e longínquo apelo, detém-se a murmurar orações, ausenta-se do campo da luta, escuta, surdo ao estrépito dos choques de armas e de exércitos, as vozes ocultas que lhe falam de além-mundo. Compreende-lhes a estranha linguagem, dialoga com elas, entra, extasiado, no seu convívio sobrenatural.
Ganha as maiores honras e a maior fortuna. Condestável desde 1385; Conde de Ourém a seguir a Aljubarrota; Conde de Barcelos após Valverde — a gratidão régia enche-o de títulos e domínios; pertence-lhe a terça parte do território. Dom João I escolhe sua filha Beatriz para mulher do Infante Dom Afonso; o novo casal, dotado com avultadíssimos bens, será o tronco da poderosa Casa de Bragança: dela sairá no futuro larga série de Monarcas portugueses.»

João Ameal
In História de Portugal, Livraria Tavares Martins, 6.ª edição, Porto, 1968, págs. 185/186/187.

16.4.09

Livro: Nun`Álvares Pereira de António Pinheiro Torres

Por D. Nuno e Portugal

POR D. NUNO E PORTUGAL

Pátria augusta de heróis e de Santos,
Qual não houve jamais outra igual.
Nós sagramos de amor nobres cantos
Ao teu nome, à tua fama imortal.

Paira sobre esta terra adorada,
De São Nuno a memória sagrada;
Para Deus nos convida a viver,
Pela Pátria lutar ou morrer!

Pátria bela, onde tudo é beleza,
Terra e Céu, monte e vale, mar e luz!
Tu dominas, excelsa princesa,
Entre os loiros da Espada e da Cruz!

De Nuno Álvares o histórico emblema
Abraçamos nos estos de amor:
Deus e Pátria será nosso lema,
Nosso mote — piedade e valor!

Conde Santo, esperança querida
De ventura, de glória e de paz!
Guia os lusos nas brumas da vida.
E em suas almas um trono terás.

Foste herói, foste santo, és a glória,
A mais pura que a Pátria nos deus.
Quem não chora, relendo essa história
De teus feitos!? — prodígios do Céu!?

Em Valverde, por entre a metralha,
Ajoelhas no chão a rezar
E já ganhas mais outra batalha;
Há mais uma vitória a contar.

Para nós, o teu nome inefável,
Hoje e sempre, é brilhante fanal.
Salvé, salvé leal Condestável!
Glória a ti, ó feliz PORTUGAL!

In Iconografia Condestabriana,
Bernando Xavier Coutinho, Instituto de Alta Cultura, pp. 306/307,1971.

15.4.09

Livro: Nuno Álvares Pereira. A demanda do Mestre de Avis e a vida do Santo Condestável de Isabel Ricardo

A Planeta Editora deu à estampa este volume com ilustrações do Mestre Carlos Alberto Santos. Isabel Ricardo, na sequência do volume anterior, "A Demanda do Mestre", celebrando assim a canonização de "Nuno Álvares Pereira. A demanda do Mestre de Avis e a vida do Santo Condestável". N.º de Páginas - 406. P.V.P. - 15€

«A figura de Nuno Álvares Pereira é hoje tão actual como em 1385. Tendo vivido num momento em que o seu País atravessava um período de grandes dificuldades políticas e económicas, não desanimou. Soube lutar e contribuir para que Portugal e o povo portuguêspudessem ter um futuro melhor. Actuou com inteligência, eficácia e determinação, mas fê-lo demonstrando sempre um grande amor pelo seu próximo. Esta sua última característica, permitiu que tivesse sido reconhecido como santo, em Abril de 2009.
A sua força interior emanava essencialmente de dois grandes valores: Um grande amor por Portugal e pelo povo português, que serviu, sem reservas, enquanto a situação o exigiu. Mas também uma grande fé em Deus e devoção a Nossa Senhora, cujas imagens sempre transportou no seu estandarte. Ao descrever, de forma muito interessante e instrutiva, o comportamento dos líderes portugueses e do povo português, no período de 1383 a 1431, a Isabel Ricardo chama a atenção para a dupla responsabilidade que todos nós temos. Com efeito, os caminhos que escolhemos e as opções que tomamos, afectam não apenas as nossas próprias vidas, mas reflectem-se também no desenvolvimento e no futuro de Portugal.»

Dr. Alexandre Patrício Gouveia, Presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota

Apresentação da obra "Nuno Álvares Pereira – A demanda do Mestre de Avis e a vida do Santo Condestável", da escritora Isabel Ricardo, na FNAC Chiado, no dia 17 de Abril de 2009, às 19:00 horas.
Nuno Álvares Pereira – A demanda do Mestre de Avis e a vida do Santo Condestável, é a obra eminente que declara como causa retratar a época, os factos e figuras históricas, em particular, a vida de D. Nuno e a personalidade do homem, chefe militar, estratega de batalhas, personagem heróica, figura histórica, e benfeitor, que arrebatou as gentes de boa fé do tecido social e político português. Na esteira de uma crise dinástica que D. Nuno soube enfrentar com audácia e sapiência, é de suma importância que todos os leitores portugueses possam testemunhar e revigorar a virtuosidade e os valores que regeram a conduta do Santo Condestável perante as vicissitudes da sua vida, feitos militares, familiares, sociais e conventuais. Uma incitação literária para uma sociedade mais justa e fraterna. Um forte apelo para a dignificação da vida, de um melhor humanismo partilhado, através duma reflexão conciliadora de lealdade para com a identidade do país, que ajuda a responder aos desafios do tempo presente.

Nun`Álvares por Miguel Torga

NUN`ALVARES

Pátria — é um palmo de terra defendida.
A lança decidida
Risca no chão
O tamanho do nosso coração,
E todo o inimigo que vier
Tem de retroceder
Com a sombra da morte no pendão.

Eu assim fiz,
Surdo às razões da força e da fraqueza.
(A liberdade não discute os meios
De se manter.)
Mais difícil era a empresa
Que a seguir comecei:
Já sem cota de malha, combater
Por outro Reino e por outro Rei!


Miguel Torga
In Poemas Ibéricos, 1.ª ed. 1965 e Poesia Completa, Edições D. Quixote, 2000, pág. 710.

14.4.09

Nun`Álvares Pereira por Luís Vaz de Camões

Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom aluerez; mas antes,
Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
Reprovando as vontades incostantes,
Àquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mão na espada, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo:
(Canto IV, est.ª 14)

«Como?! Da gente ilustre Portuguesa
Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?
Como?! Desta província, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda a parte,
Há-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
De Português, e por nenhum respeito,
O próprio Reino queira ver sujeito?
(Canto IV, est.ª 15)

Como?! Não sois vós inda os descendentes
Daqueles que, debaixo da bandeira
Do grande Henriques, feros e valentes,
Vencestes esta gente tão guerreira,
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de maneira
Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa que tiveram?
(Canto IV, est.ª 16)

Com quem foram contino sopeados
Estes, de quem o estais agora vós,
Por Dinis e seu filho sublimados,
Senão cos vossos fortes pais e avós?
Pois se, com seus descuidos ou pecados,
Fernando em tal fraqueza assi vos pôs,
Torne-vos vossas forças o Rei novo,
Se é certo que co Rei se muda o povo.
(Canto IV, est.ª 17)

Rei tendes tal, que, se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto a mais quem já desbaratastes.
E, se com isto, enfim, vos não moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mãos a vosso vão receio,
Que, eu só, resistirei ao jugo alheio.
(Canto IV, est.ª 18)

Eu só, com meus vassalos e com esta
(E, dizendo isto, arranca meia espada),
Defenderei da força dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada.
Em virtude do Rei, da pátria mesta,
Da lealdade já por vós negada,
Vencerei não só estes adversários,
Mas quantos a meu Rei forem contrários.»
(Canto IV, est.ª 19)

Livro: Nun`Álvares na Memória da Nação de Ernesto Castro Leal


13.4.09

Rosácea d`Aljubarrota por Rodrigo Emílio

ROSÁCEA D`ALJUBARROTA

À vista do Mosteiro
da Batalha
— há conquista
que resista,
há lá guerreiro
que valha?!...

...Deixai, então, que vos fale
(— porque me dá cuidado
e por mais nada!)
d`aqueloutro Portugal
talhado à espada
e condenado, afinal,
a não ser nada... —

...Sala d`aula do Além,
anfiteatro do Mar,
— que ninguém, que já ninguém
hoje vem
contemplar...

Rodrigo Emílio.
In Poemas de Braço ao Alto, 1982, págs. 541/542

Livro: A Vida de Nun`Álvares de Oliveira Martins


Para uma liturgia do Condestável por Rodrigo Emílio

PARA UMA LITURGIA DO CONDESTÁVEL
Predicação de claustro, pronunciada à sombra do Carmo e da Trindade



Faz hoje, hoje mesmo hoje, muitos anos que se finou para os caminhos do mundo e que nasceu para o reino dos céus uma das figuras cardiais, e capitais, da nossa História.
Os restos imortais do Santo Condestável jazem sepultados, neste alpestre Mosteiro da Virgem do Carmo — onde agora nos encontramos — desde o dia 1.º de Abril de 1431. Mas duvido que em paz repousem, hoje por hoje, os ossos do herói. É que há duas dezenas de anos — contados quase dia por dia — que teve este mesmo templo a desdita de assistir de perto ao fim histórico de Portugal. Foi aqui defronte, à porta do Convento, que a nossa colectiva perdição se consumou. Também em Abril. Todos sabemos o dia. E o ano. E todos conhecemos, já agora, as circunstâncias cem-por-cento indecorosas em que se produziu a catástrofe.
Não estremeceram tanto estas pedras, nem os ossos que nos escutam estremeceram mais com o terramoto de 1755, do que com esse de 1974. Porque foi há vinte anos — e não há duzentos e tantos anos — que tudo, de facto, ruíu por terra, não ficando da grandiosa Catedral Lusíada pedra sobre pedra.
Apesar disso — e/ou até por isso mesmo... —, seja D. Nuno encarado, nesta hora, não bem (ou não tanto) como figura votiva, mas como figura activa (espiritualmente activa), cujo recorte importa convocar, solicitar e ter presente nos tempos que correm, se nos quisermos nós guiar, sem desvios nem extravios de maior, no caminho que conduz do malogro ao milagre.
Começa porque Nun`Álvares sempre foi e será sempre um agente de primeira na produção de futuro para o destino de Portugal; e depois, na mesma e também, porque o milagre, procedendo, decorrendo e/ou resultando da acção de guerreiros de porte providencial (e foi D. Nuno, por mais de uma vez, a ilustração viva do prodígio salvador, operado in extremis), o próprio milagre vem a ser, afinal, e assim com`assim, uma das grandes permanentes e constantes — e uma das componentes e ordenadas principais, mais reiteradas — de toda a nossa alta História.
Quanto ao exemplar espírito de missão com que, em vida, o grão Pereira se projectou e evoluíu numa das mais ínclitas côrtes da Terra, é de certeza absoluta o mesmo que, ainda agora, O move e anima na Côrte celeste. E daí, a fézada inabalável de que do Céu nos está Ele, a esta hora, contemplando e assistindo — e sobremodo, instigando a levar de vencido o atoleiro em que nos atascaram. O que faremos.

Rodrigo Emílio.
In Agora, n.º 7, Ano II, 1994, pág. 8.

11.4.09

Ruy Alvim, Presente!

Faleceu hoje o nosso bom Amigo e Camarada Ruy Alvim.
Fez parte do Círculo de Estudos Alfredo Pimenta, do Movimento de Acção Portuguesa, foi Presidente da Associação Académica de Coimbra e director da sua publicação Via Latina.
Saído da Universidade de Coimbra, Ruy Alvim transfere-se para Lisboa, onde começa a sua carreira como chefe de gabinete do Ministério da Economia e da Agricultura.
Exilou-se em 1975 no Brasil graças ao PREC.
Amigo de Couto Viana, Prof. António José de Brito, Goulart Nogueira, Caetano Beirão, Amândio César e Rodrigo Emílio.
Foi autor de um prefácio às Obras Completas de Plínio Salgado, Plínio Salgado e a Revolução do Espírito e do livro de poesia Diário Interrompido.

«E na grande catástrofe de Abril, Amândio César recusou-se a partilhar o banquete nauseabundo, sofrendo perseguições e agruras.
Na noite de 27 para 28 de Setembro de 1974, juntamente com Ruy Alvim, foi assaltado, ao atravessar a ponte sobre o Mondego, pelos delinquentes das barricadas que por meios violentos se procuravam opor à realização de uma manifestação, legalmente autorizada, ao Chefe de Estado, general Spínola. Este era um democrata e um abandonista de primeira água, mas assacavam-lhe, ao que parece, o terrível defeito de querer entregar as províncias ultramarinas de além-mar à influência americana e não à influência soviética (ao que havíamos chegado). Daí que não tivesse direito a manifestações que firmassem a sua quebrantada autoridade. Amândio César e Ruy Alvim (e uma criança filha deste) seguiam ambos para Lisboa perfeitamente alheios à apoteose spinolista. Reconhecidos e identificados, foram detidos por uma multidão à margem da lei e só por muita sorte conseguiram escapar.
Ao fim da manhã de 28 chegaram a minha casa, Amândio incólume graças a Deus, Ruy Alvim com pensos e adesivos, seu filho, que fora traiçoeiramente separado do pai para ser «interrogado», nervosíssimo, aos vómitos, tendo de ingerir comprimidos de Valium. Contaram-me os acontecimentos, ao mesmo tempo que nos iam chegando notícias das arbitrárias prisões de velhos e queridos camaradas.
Amândio César e Ruy Alvim seguiram para Braga. Nessa noite transpuseram o Minho a caminho do exílio.»


Extracto de um artigo publicado no jornal «O Diabo» (18.08.1987, pág. 12), do Prof. António José de Brito sobre
a morte de Amândio César.

Livro: Nuno Álvares Pereira de Angelino Barreto

Nun`Álvares Pereira por Fernando Pessoa

NUN`ÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é, que erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
`Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

Fernando Pessoa.
In Mensagem, Edição Ática, Lisboa, 14.ª edição, pág.45.

10.4.09

Livro: Nun´Álvares o Santo Condestável de Maria da Soledade


O Gerreiro e o Monge por Santos Cravina

O Guerreiro e o Monge


O místico da grei cristã, latina
— de Aljubarrota o grã batalhador —
mostra em Trancoso e Valverde igual valor
e Deus... do céu a glória lhe destina.

Fundada a dinastia Joanina
ou de Avis — como preito ao fundador —
conquistar-se-ia o Portugal Maior
para cumprir-se a lei quase divina.

Portugal religioso... agradecido...
honra Santa Maria da Vitória
com o Mosteiro que lhe foi erguido.

E Dom Nuno depois de tanta glória
no Mosteiro do Carmo recolhido...
suplica pelo Rei de Boa Memória.

Santos Cravina.
In Portugal Redimido – O Poema da Grei, Portucalense Editora, Porto, 1949, pág. 108.

9.4.09

Livro: Nun`Álvares Condestável e Santo de António dos Reis Rodrigues

Nun`Alvares por Mário Gonçalves Viana

NUNO ÁLVARES

Nenhuma figura da História portuguesa merece ser cultuada com mais carinho e devoção, porque nenhuma, como ela, subiu tão alto em cavalheirismo, em dignidade patriótica e em espírito de abnegação. Guerra Junqueiro disse que Nuno Álvares foi uma «alma pura em natureza pura» e um outro escritor célebre definiu-o em poucas, mas expressivas e eloquentes palavras: «piedade feita energia, oração feita espada».
De facto, Nuno Álvares, símbolo de uma Pátria que ressurge, era uma flor altíssima e imaculada no meio do pântano; um exemplo de confiança no meio do acabrunhamento geral; uma lição de indefectível patriotismo, vibrando e triunfando clangorosamente sobre o escárnio dos estranhos e a traição de alguns naturais. O Condestável — homem de vontade inquebrantável e de fé sublime — fez da sua vida uma longa e formosíssima ascese. Norteado por dois ideais — Deus e Pátria — a eles se consagrou inteiramente. Onde se encontrará figura mais cheia de ensinamentos e de fecunda humanidade? Nuno Álvares era forte porque era puro, e ainda hoje — volvidos tantos séculos — a sua personalidade gigantesca avulta como eloquentíssima lição. O Condestável foi, em vida, a personificação da lealdade — foi o chicote para os cobardes, para os traidores e para os absolutos; foi protector e amparo para os fracos e para os bons! A existência do grande Herói é um compêndio vivo e palpitante de civismo do melhor, de energia, de fé, de patriotismo e de disciplina!
Hoje, como sempre e talvez mais do que nunca, é dever dos portugueses prestar homenagem a todos os grandes vultos nacionais, procurando extrair da sua vida a lição fecunda e activa que eles comportam.
Só desta maneira será possível compreender a grandeza de Portugal no Passado e contribuir frutuosamente para ela, no Presente e no Futuro. Na lição de antanho se deve ir procurar o justo orgulho da hora actual e o caminho rectilíneo e certo dia do dia de amanhã. Nuno Álvares Pereira, o místico sublime, o genial patriota e inconcusso carácter, cuja vida real mais parece uma lenda, vale a História inteira de um povo e constitui manancial vivo de sempre remoçadas energias nacionais; representa uma inapreciável lição de fé, de coragem, de optimismo e de entusiasmo que nunca será demais relembrar. É por isso que Camões exclamava, a propósito do invencível e boníssimo Condestável, num maravilhoso verso dos Lusíadas, que ficou célebre: «Ditosa Pátria que tal filho teve!»



Mário Gonçalves Viana.
In Nuno Álvares, Editora Educação Nacional, colecção Figuras Nacionais, Porto, 1938, págs. 172/173/174.