28.3.15

Na hora da morte de Goulart Nogueira: um Mestre Intemporal - Bruno Oliveira Santos

Na hora da morte de Goulart Nogueira
Um mestre intemporal

A notícia não surpreendeu ninguém. Todos sabíamos que Goulart Nogueira não podia resistir por muito mais tempo, acamado havia longos anos na sua Beira adoptiva.
Conheci-o na década de 80. Encontrei-me com ele aqui e ali, sobretudo nas tertúlias de Lisboa e do Porto, com Rodrigo Emílio, António José de Brito, Rui Alvim e outros, que franqueavam a porta ao miúdo que eu era. Admirava nele o poeta, o doutrinador, o escritor, o tradutor, o ensaísta, o dramaturgo, o encenador.
Já ouvi dizer que foi um poeta fascista, um reaccionário, arrumado assim para sempre na estante dos malditos e dos impronunciáveis. É espantoso como gente responsável pode atrever-se a exame tão superficial e a conclusão tão ignorante.
Nascido em 1924 em Belém do Pará, no Brasil, filho de pai português e mãe brasileira, chega a Portugal com seis anos para viver com os avós paternos em Campia, cerca de Vouzela. Deixou obra larga e meritória, a merecer a atenção dos investigadores imparciais.

Tempo Presente

Poucos se dão conta da importância que assumiu, nas fileiras nacionalistas, o projecto da Tempo Presente (1959-1961). A revista, encabeçada por Fernando Guedes, António José de Brito, Caetano de Melo Beirão, Couto Viana e o próprio Goulart Nogueira, propôs a destino um nacionalismo de vistas largas, contra o patriotismo rançoso e estreito, que não estima a afirmação das outras nações.
Aberta a todas as correntes artísticas, foi por exemplo nas páginas da Tempo Presente que se apresentou pela primeira vez em Portugal a chamada “Beat Generation”, de Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Jack Kerouac. A rebeldia desses boémios norte-americanos conciliava-se com o inconformismo daquela geração vanguardista.
O propósito daqueles rapazes, quase todos na casa dos 30 e pico, foi claríssimo: num regime minguado de capacidade criativa, era preciso privilegiar a consideração estética do fenómeno político. As grandes batalhas ideológicas e políticas vencem-se ou perdem-se culturalmente — e o resto é conversa. Tratava-se, pois, de afirmar o primado da produção artística, como sumo sinal de identidade e da vitalidade de qualquer povo.
A Tempo Presente divulgou correntes estéticas como o dadaísmo, o imagismo, o vorticismo. Trouxe até nós o concretismo brasileiro, de Décio Pignatari e dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. Recuperou os fascistas maltratados, de Ezra Pound a Drieu La Rochelle. Apelou a uma jovem geração para que fosse verdadeiramente radical, no que de melhor tem a palavra. 
Florentino Goulart Nogueira é preponderante na definição da linha cultural da revista, na qual chegam a colaborar, muito por sua influência, nomes como Almada Negreiros, Agustina Bessa-Luís, Ruy Belo, Ana Hatherly, Raul Leal, António Quadros, Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, José Blanc de Portugal, Fernanda Botelho, Cabral do Nascimento, Artur Bual, Júlio Resende e Manuel Cargaleiro.  

O doutrinador

O fascismo de Goulart era o de quem recusava o estúpido materialismo e o determinismo absoluto, o de quem não queria ser escravo da economia e do sentido da História. Na sua prosa moderna e verrinosa, insurgia-se contra os "cautelosos, os temerosos, os ponderados, os escaldados, os já pesados, os barrigudos, os burocratas, os comedidos, os medianos, os medíocres, os instalados, os estanhados, os insípidos, os cúpidos, os lúbricos, os puritanos, os em-ceroulas, os bigodudos, os dedos mínimos, os pais-de-família (profissionais), os pais-da-pátria (profissionais), os pais-da-rapaziada (proteccionais), os discursivos, os financeiros, os banqueiros, os espertinhos, os broncos, os carneiros, os gafanhotos, os camaleões, os tubarões, os de manteiga, os de banha, os de ranço, os máquinas de calcular, os técnicos de corporativismo rocinante, os assentados na engrenagem de corporativismo ronceiro, os muito piedosos, os catolaicos, os beatíferos, os sempre na cauda, os 'sim, mas...', os estafermos […]” (Tempo Presente, n.º 10, Fevereiro de 1960, pág. 85).
Crítico velado do Estado Novo e inimigo figadal da marcelice, afinfou nos oportunistas, nos rapazes da ideologia “Maria vai com as outras”, sempre a ver para que lado pendem as coisas, laudatórios do regime que estiver e da gamela a encher.
Como não fosse homem de meias-tintas, recusava expressar-se por meias-palavras: “Eu nunca fui salazarista; e, geralmente, por razões contrárias às dos oposicionistas gritantes e constituídos; em nome dos meus princípios fascistas e da consequente observação dos factos.” (Vanguarda, n.º 7, Setembro de 1970, pág. 4).
Fascista autêntico, assumindo as suas ideias sem vergonha e de cara ao Sol, escreveu violentas diatribes contra a direita clássica e conservadora.

O poeta

O seu registo poético é próprio e inovador. Sobressai na poesia de Goulart um talento chispante, revulsivo, com perscrutações semânticas, ontológicas e metafísicas, inclusive esotéricas e alquímicas, mas sempre numa linguagem pura além do escândalo da sua originalidade e dos temas.
Numa época em que os autores se revelam tão numerosos e inautênticos, aceitadores da moda e da consigna, numa época de valores baralhados e insultantes, Goulart Nogueira distinguiu-se a uma altitude invulgar. Pudessem hoje compreendê-lo os críticos rasteiros das gazetas culturais.
Apesar de ter publicado apenas dois livros ântumos de poesia, “Atlântida” e “Barco Vazio em Rio de Sombra”, além de várias composições dispersas, a sua obra poética mereceu o exame atento e elogioso de David Mourão-Ferreira, Jorge de Sena e Tomás de Figueiredo, entre outros. O último considerava-o mesmo como o maior poeta português depois de Fernando Pessoa.

Mestre intemporal

Goulart abraçou a cultura, toda a cultura, sem melindres ideológicos. Foi poeta, declamador excelente, dirigiu jornais e revistas, traduziu Kleist, Apollinaire, Strindberg e Brasillach, escreveu páginas notáveis de doutrina, afirmou-se como crítico e homem do teatro.  
Amigo de Luiz Pacheco, trocou com ele variada correspondência. Numa dessas cartas, que permanecem inéditas, Pacheco dirige-se a Goulart com ironia terna: Caro amigo (dos bons velhos tempos salazaristas)”. Noutra missiva, o autor libertino e abjeccionista avança deste feitio: “Mano FLORENTINO: a minha mãe fazia anos hoje. Católico, monárquico e fascista, acreditas que a alma dela me estará a guardar; monárquico, apostas na lei do sangue, da hereditariedade (não são, de facto, palavras vãs). E o fascismo, em Itália, que foi onde existiu, por cá caricatura e torpe, era de início um movimento para a antiga grandeza romana. Acabou lá e cá, como se sabe […]”  
Vale a pena ler e tresler Goulart. Os medíocres hão-de apor-lhe um labéu qualquer e exigir silêncio sobre a obra portentosa.
Lembrá-lo-ão decerto os seus discípulos da Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra, criada em 1966 e que viria a ser dirigida por ele, para combater a ditadura cultural de esquerda no meio universitário.
Lembrá-lo-ão também os amigos e camaradas que o viram penar duros meses na prisão, depois de Abril.

Lembro-o eu aqui nestas páginas como mestre intemporal do nacionalismo português, na sua forma própria e autêntica de entender e sentir Portugal. Os gigantes nunca morrem e Goulart é um deles.

Bruno Oliveira Santos

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