«... Venceram as Democracias? Venceram. Mas quem venceu, antes delas, foi a Rússia, foram os Estados Unidos e, vá lá! foi a Inglaterra. Venceram estes três Estados, para si, para os seus interesses económicos, para os seus interesses políticos. Não foi por serem democráticos ou serem autocráticos que venceram. Venceram, porque tiveram a seu lado mais homens para lançar na fogueira, mais navios para dominar o mar, mais aviões para dominar o ar e arrasar mais cidades, e, por fim, porque dispuseram da bomba atómica. Não venceram por terem razão; não venceram por terem justiça; não venceram, quero crê-lo, por terem Deus do seu lado. Venceram porque dispunham de mais força.»(1)
«... Acabou por vencer o mais forte. E é a força que cria o direito, por muito que se esganicem a proclamar o contrário, os que vivem nas nuvens. Ponham os olhos em Nuremberga...
A vitória das Democracias eliminou do tabuleiro da vida internacional as Pátrias, com a sua independência, a sua soberania, o seu direito. Porque a teoria internacionalista da Democracia é matéria de exportação, objecto de propaganda, motivo de atitudes que os três Ditadores exploram incansavelmente. No mundo, só há três nações: as que se erigiram em senhoras do mundo. O resto, poeira de fantasmas obedientes, comprando pelo preço caro da da obediência, o direito à vida; porque se recalcitrantes, pagam com a vida a sua revolta.»(2)
«... A vitória das Democracias trouxe esta novidade escandalosa: a intervenção dos vencedores na maneira de ser moral dos povos, obrigando estes a actos que a mais rudimentar caridade condena!(3)
«... A guerra aos Nacionalismos e a vitória das Democracias deram este resultado perturbador: o domínio dos três colossos imperialistas do mundo, e a subalternidade efectiva e integral dos Estados pequenos e fracos. É uma espécie de neo-feudalismo: três senhores, servidos pela fidelidade de perto de uma centena de vassalos.
O sentimento nacionalista que levou alguns séculos a criar-se, e se alimentou à custa do sangue de tantas e tantas gerações e mercê de sacrifícios sem conta; esse sentimento que deixou no decurso da História, a assinalar a sua formação, figuras gigantescas de heróis de epopeia, e de mártires de agiológio, cai vencido e desfeito sob o tropel das três Democracias que monopolizaram o poder do mundo, e o domínio dos destinos do mundo.»(4)
«... Desde a Grécia, a da beleza olímpica da Acrópole, e da Roma Cesária ou da Roma das Catacumbas, até o Portugal dos Descobrimentos, é o vasto campo dos súbditos dos Três Ditadores, das três Democracias vitoriosas. As nações são espectros e farrapos. Para a harmonia do conjunto, têm que estender os pulsos às algemas, e curvar o pescoço ao jugo - às algemas que os Ditadores empunham, ao jugo que os Ditadores levantam ou carregam segundo o seu prazer...
«... A vitória das Democracias é um sofisma que esconde o domínio de três Impérios. Onde foi realidade deu o caos. Mas sofisma ou realidade, a vítima foi a Pátria.»(5)
«... Nós já tivemos em Portugal o Capharnaum - a Democracia na sua forma mais elevada; temo-la, hoje, na sua forma mais reduzida. E é por isso que personalidades como Jacques Maritain e Tristão de Ataíde combateram e combatem (arautos do M.U.D.) a situação portuguesa. A Espanha também teve o Capharnaum. Expulsou-o, e substituiu-o pelo Estado espanhol não democrático. É por isso que as Democracias vitoriosas lhe declararam guerra, e a consideram fora da lei. A França está em pleno Capharnaum: governam-na simultâneamente o Comunismo, o Catolicismo, e entre os dois, o Socialismo. A gente pasma desta maionese — mas isto é que é a Democracia vitoriosa. Mas a Inglaterra, com o seu Rei? Os Estados Unidos, com o seu Ditador totalitário que, pelo visto, é arcangélico, virginal e açucénico? Esses estão fora da discussão; esses podem fazer tudo quando lhes der na gana; esses são livres, são independentes, - porque são fortes, ricos e têm a... bomba atómica. Esses Senhores - para quem a Democracia é mercadoria a exportar, a aplicar nos outros, nos vassalos, como na França, ou na Grécia, na Itália ou na Bélgica, na Alemanha ou no Japão, na Jugoslávia ou na Roménia, etc., etc.
Vejam lá se há para aí algum Estado, temporal ou espiritual, que se atreva a meter o nariz no modo de ser constitucional dos Estados Unidos, da Inglaterra ou da Rússia? Estes são intangíveis, infalíveis, indiscutíveis! Vejam lá se há para aí alguma Potência, temporal ou espiritual, que proponha sanções contra a Inglaterra, por ser um Estado herético-maçónico, contra os Estados Unidos, por serem maçónico-heréticos, ou contra a Rússia, por ser a Ditadura mais cruel e torva de quantas reza a História?
«... A Vitória das Democracias impôs a Democracia ao mundo - isto é, o regime do Carpharnaum; impôs ao mundo o sistema da intervenção na vida interna dos Estados - substituindo, aqui, o que às Democracias não convém; dirigindo, aqui, ali; protegendo, além; condenando, mais além.»(6)
Notas:
(1) - In Três Verdades Vencidas: Deus - Pátria - Rei, pp. 16/17, Org. Bloco, Lda., 1949.
(2) - Idem, ibidem, pp. 17/18, Org. Bloco, Lda., 1949.
(3) - Id., ib., p. 17, Org. Bloco, Lda., 1949.
(4) - Id., ib., pp. 19/20, Org. Bloco, Lda., 1949.
(5) - Id., ib., pp. 26/28, Org. Bloco, Lda., 1949.
(6) - Id., ib., p. 28, Org. Bloco, Lda, 1949.