1.10.10

Tanques da polícia nas ruas!

Já agora, vejam se começam a perceber a nova Lei de reorganização das forças armadas (em parvas) de utilização das Forças Armadas em operações contra a própria população, como força supletiva às Forças de Segurança – PSP e GNR – quando as mesmas forem incapazes de tomarem conta do recado.
Ou seja, perspectiva-se e assegura-se a possibilidade dada aos políticos (dependem nesse caso do Governo e não do Comandante Chefe – Presidente desta República) de usarem o aparelho militar para reprimir e atirar sobre o povo português e assim evitar revoltas e rebeliões!

Afinal, não é único...

Assisti, ontem à noite, ao programa Especial Informação do canal 1 com a presença dos economistas Dr. Cantiga Esteves, Dr. João Salgueiro e Dr. Silva Lopes.
Foi interessante o pensamento final do Dr. Silva Lopes quando afirmou que desde o Liberalismo (1820) até República Portugal nunca resolveu o seu déficit das Finanças Públicas salvo durante o... Estado Novo.
E, acrescentou, que foi devido a tal que a Monarquia acabou, a I República acabou e a III República pode acabar.
Afinal, o Dr. Medina Carreira já não é o único a alertar para o fim deste regime democrático!

Pensamentos de Alfredo Pimenta - XII

«(...)Fui sempre anti-liberalista e anti-democrata.
Não sou monárquico constitucional, antes me sinto cada vez mais reaccionário. Sou monárquico maximalista. Estou na extrema-direita da extrema-direita: à minha direita não fica ninguém.»(1)
«... Uma República anti-liberalista é preferível, para um monárquico integral como eu, a uma Monarquia liberal. Uma República liberalista deve ser preferível, para um monárquico liberal, a uma Monarquia anti-liberalista.
O mundo político, actualmente, já não se divide bem em monárquicos e republicanos: divide-se em liberais e anti-liberais. Os liberais estão todos presos pelo cordão umbilical da Urna; todos eles deitam incenso na ara absurda do Voto. Aos anti-liberais, une-os a Consciência de que o Sufrágio político, individualista, é uma mistificação.
O Liberalismo, ou seja monárquico ou seja republicano, além de que repousa sobre uma mentira, o voto, e de que conduz a outra tentativa - o Povo soberano, é, na sua essência, inimigo de Deus. Todo o poder vem de Deus - omnia potestas a Deo.
Mas para o Liberalismo, monárquico ou republicano, todo o poder emana do Sufrágio. E é por isso que nós assistimos, de vez em quando, ao afã dos liberalistas, no sentido de purificarem o Sufrágio. É que para eles, o Sufrágio é tudo! O homem, munido do papelinho branco, é omnipotente, omnisciente. Um milhão de homens de um lado, outro milhão de homens do outro lado. Empate. Quem vai desempatar? O Pistautira (oh!) que se esquecera de que era o grande dia do Povo soberano. Vão chamar o Pistautira!
E o Pistautira chega, e vota. E desempata... Quem foi omnipotente? Quem foi omnisciente? O Pistautira... É isto o Liberalismo.
O Sufrágio político é moral. Corrigi-lo, como pretendem os liberais, é piorá-lo. Aperfeiçoá-lo é torná-lo mais nocivo ainda. O que é preciso pela representação dos Municípios e das Corporações, porque o Poder vem de Deus, e não do Povo. E a eliminação do Sufrágio político não é, portanto, atentatória das liberdades populares, antes, é a sua garantia máxima. Garantir a liberdade doméstica, a liberdade municipal e provincial, a liberdade corporativa - é deitar abaixo a Liberdade, árvore à sombra da qual tem germinado e florescido todas as tiranias, com a tirania do Número, do Anónimo, do Voto, à frente, mas é desenvolver a Nação, e abrir-lhe largos horizontes no futuro. A Liberdade é inimiga das liberdades. Onde a Liberdade impera, morrem, asfixiadas, as liberdades. Ora estas são fecundas; a Liberdade é estéril.
Liberalismo é o regime da Liberdade. A guerra ao Liberalismo é uma guerra santa. Foi ele que atentou primeiro contra a Igreja; foi ele quem enfraqueceu e estiolou o Princípio monárquico.»(2)


Notas:
(1) - In A Questão Monárquica, p. 22, Ed. das Juventudes Monárquicas Conservadoras, 1920.
(2) - In Nas Vésperas do Estado Novo, pp. 134/135, Livraria Tavares Martins, 1937.

29.9.10

Pensamentos de Alfredo Pimenta - XI

«... Para a Democracia, a Soberania está na massa popular, e não em toda, mas na maioria numérica. (...) A Democracia é a força do Número, o culto da Quantidade, o predomínio do Anónimo. Abre-se uma urna; entram nela mil vontades pessoais. Operou-se uma transformação monstruosa, e surge o poder de n+1 opiniões irresponsáveis, individualizáveis ou impersonalizáveis. Está feita a Democracia. O eleitor tem o seu nome inscrito no caderno eleitoral: deixa o seu voto, e, perde automaticamente o nome: o voto deixa de ser de quem é. O Povo passa a ser o n+1 dos votos; a quantidade bruta e anónima; a força irresponsável e cega. É nesse n+1 anónimo e irresponsável, que reside a Soberania nacional; é desse n+1 irresponsável e anónimo, que emana o Direito; é esse n+1 anónimo e irresponsável, o instrumento legal da Vontade nacional!
Esse n+1, às vezes, não é simples; formam-no fracções de que ele é a soma. Então é a Democracia elevada às suas consequências extremas: é o Capharnaum.»(1)
«...Averiguado que os inferiores são em maior número, as decisões das massas eleitorais são obra dos inferiores. Daqui, não há que sair. Dêem as voltas que quiserem, cozinhem o caldo como quiserem, chamem-lhes os nomes que quiserem — que a conclusão são os regimes das inferioridade, governos electivos são os governos dos inferiores.
Só por acaso, por uma aberração escandalosa, esses regimes e esses governos conseguem libertar-se da manobra da sua origem. Que representam os resultados das eleições francesas? Representam tanto como o facto de uma bola de roleta sair no preto em vez de sair no branco. Um estado de opinião? Uma tendência de vontade nacional? Uma aspiração doutrinária? Uma oposição a qualquer política anterior? Não digamos dislates. Deixemo-los aos ocos e aos palavrosos. As eleições não significam nada. Deram a vitória às esquerdas, como podiam ter dado às direitas. Porque a confusão no campo católico foi enorme. E votaram desconhecidos. Lá como cá, cá como lá, a burla, sempre a burla. E sem os votos dos mortos, e dos ausentes e dos ignorados, a burla não era menor, porque digam-me, senhores, que sabem as massas eleitorais dos problemas políticos da Nação? Que sabem os exércitos, dos problemas complicados do Estado Maior, senhores? É o generalíssimo eleito pelos soldados? É o Estado Maior eleito soldados? É o sábio eleito pelos aprendizes? É o professor eleito pelos assistentes?
Para que persistimos, para que teimamos na obediência à mais perigosa e escandalosa mistificação da vida política dos povos? Para que atribuímos virtude ao que é incompatível com a virtude, para que damos valor ao que com o valor é incompatível?
O meu voto representa a minha opinião? Quantos nomes vão na lista que eu voto, que eu conheço, em que confio, que efectivamente pensam como eu penso? Ah! Senhores! Digam-me, com a mão na consciência, até onde tem chegado a consciência do seu voto?
Votem de chapa! — dizem os partidos. Votar de chapa quer dizer de olhos fechados, quer dizer votar às cegas, quer dizer votar sem discutir, quer dizer votar sem opinião e sem consciência! Votam sistematicamente de chapa os pobres de espírito, os fracos de espírito, os fracos de espírito, os homens sem critério. Tenho votado, algumas vezes, na minha vida. Nunca votei de chapa!
Não há, não pode haver eleições honestas, em parte alguma do mundo. Pode haver e há leis eleitorais mais sérias ou menos sérias. Mas a eleição é sempre uma burla. Porque repoisa na mentira: o poder omnisciente do Número. O Número não é omnisciente: é omni-ignorante. Se a mentalidade duma assembleia de homens de génio é inferior à mentalidade de cada um desses homens, — o que não será a mentalidade duma assembleia de homens de inteligência variadas, mas em que predominam, como é natural, as inteligências medíocres, e abaixo disso!
Por isso, tendo seguido com curiosidade os preparativos eleitorais, desinteressei-me por completo do resultado das eleições.
Porque perante os programas eleitorais, a França inteira só tinha uma lista conveniente, bem francesa, bem nacional: a da Action Française — em Paris e um ou outro ponto. Todas as outras representam abdicações perante a Desordem, perante a Irreligião, perante o Inimigo. Mas as massas eleitorais percebem tanto disso como eu de lagares de azeite. E votaram nos que mais habilmente as ludibriaram.
Cá no nosso Portugal, o preconceito eleitoral está muito entranhado nos políticos. Há político que morre se lhe tiram a eleiçãozinha. É nas eleições que ele se revela, e é pelas habilidades eleitorais que se valoriza. Pode ser que ele e os meus congéneres estejam na verdade. O seu espírito está cada vez mais afastado dessa verdade triste.»(2)

Notas:
(1) - In Três Verdades Vencidas: Deus - Pátria - Rei», p. 28, Org. Bloco, Lda., 1949.
(2) - In À Margem das Eleições Francesas, in «A Época», n.º 1735, p. 1, 18.05.1924.

28.9.10

Norman Finkelstein em Portugal: Lisboa, Porto e Coimbra

O programa de conferências:
Em Lisboa, dia 29 de Setembro às 18h30 no Auditório da Escola Secundário Luís de Camões: uma conferência com o título “The repercussions of Israel’s Cast Lead Operation for the future of its occupation of the Palestinian territories".
No Porto, dia 30 de Setembro às 18h00 na Cooperativa Árvore: uma conferência com o título “The repercussions of Israel’s Cast Lead Operation for the future of its occupation of the Palestinian territories".
No Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, dia 1 de Outubro às 11h00: uma conferência com o título “Myths and Realities of the Israel-Palestinian conflict”.

Os promotores das conferências são a Comissão Nacional de Apoio ao Tribunal Russell para a Palestina, o Centro de Estudos Sociais, o Grupo de Acção Palestina, o Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, o Sindicato dos Professores do Norte e a Fundação Mário Soares e a Cooperativa Árvore.

Uma nota biográfica sobre Norman Finkelstein:
Internacionalmente conhecido, Norman Finkelsten é um estudioso de temas que dizem respeito ao Sionismo, a Palestina e a ocupação israelita dos territórios palestinianos. É autor de vários artigos e livros com muito interesse nesse campo e é conferencista activo a favor dos direitos políticos e humanos do povo palestiniano e contra a ocupação israelita.
Judeu americano, filho de sobreviventes do Holocausto, Finkelstein aplica um humanismo universalista radical e consistente à sua crítica da ocupação israelita.
A sua crítica implacável da ocupação e dos seus apologistas tem-lhe custado muito, tendo a recusa da DePaul University em conceder-lhe tenure sido o resultado de intervenções sem precedentes e pressões notórias de lobbyistas sionistas (nomeadamente Alan Dershowitz).
A vida e o trabalho do Finkelstein foram objecto de um documentário recente com o título “American Radical”. (
http://www.youtube.com/watch?v=gpCypn2YXKY)
O seu livro mais recente, This Time We Went Too Far: Truth and Consequences of the Gaza Invasion (OR Books, New York, 2010 -
http://www.orbooks.com/our-books/thistime/) é uma análise crítica do massacre perpetrado por Israel em Gaza de Dezembro 2008-Janeiro 2009 com a Operação Chumbo Fundido. O seu livro The Holocaust Industry (A Indústria do Holocausto, foi editado em Portugal pela Edições Antígona, 2001) analisa criticamente as várias formas de aproveitamento oportunista da realidade do Holocausto pelo Estado de Israel e os seus apologistas para encobrir os crimes cometidos pela ocupação aos palestinianos.
Para mais, podem ver o seu website em
http://www.normanfinkelstein.com/

Roger Nimier (31.10.1925 – 28.09.1962)

27.9.10

Pensamentos de Alfredo Pimenta - X

«Poucos têm insistido tanto, entre nós, em criticar a Democracia, por ela se basear no Número, como eu.
Sempre que posso, isto é, sempre que tenho pretexto para tal, chamo a atenção dos espíritos reflectidos para a absoluta sem razão que existe numa Doutrina que faz depender a verdade da opinião da maioria. E digo que a verdade é independente do número dos que a professam, podendo estar na minoria, estando, mesmo, por via da regra, fora da maioria. É que não podendo ela ser, e não devendo ser resultante da inteligência média que aliás é uma quimera, mas sim das inteligências superiores, e não sendo estas nunca, em grande número, nos meios sociais, evidentemente que ou ela sai do reduzido grupo das inteligências superiores, e não é, portanto, obra da maioria, ou sai desta, por maioria ser, e representa a cooperação das inteligências inferiores.
Nas Democracias, porque o Número é a ultima ratio, acontece que a direcção da sua vida e a solução dos seus problemas cabem ao Anonimato, à Irresponsabilidade, porque o Número, por definição, é anónimo, e, portanto, irresponsável.
Exemplos de todos os dias, para não dizer de todas as horas, mostram os inconvenientes da Democracia, e, consequentemente, deste critério. As massas, ou por outra palavra, a inteligência mediana em que são absorvidas as inteligências individuais, nem é capaz de reflexão, nem é competente para estudar e prever. As massas são instintivas, caprichosas, flutuantes, inconsequentes, à mercê dum nada que surge, não se sabe de donde, e as conduz e domina. A sua obra é fatalmente deficiente, inferior.
De resto, basta que o leitor faça esta pequena observação: se o Número é o critério da verdade, a verdade, não existe, porque o Número desloca-se muito facilmente dum prato da balança para o outro. E se o cálculo, hoje, dá, um determinado resultado, nada garante que amanhã, feito noutras circunstâncias, não conduza a resultados opostos. Mas se a verdade não existe, como consequência do seu critério estar no Número, e se este é a base doutrinária da Democracia - a Democracia é um mito, uma mentira, como tantas vezes tenho afirmado. Pelo que concluo que, por um lado, pelo meu, ou por outro, a Democracia é insustentável!»(1)



Notas:
(1) - In Novos Estudos Filosóficos e Críticos, pp. 169/170, Imprensa Nacional, 1935.

25.9.10

Assumimos o Compromisso e reunimos a nossa Primeira Assembleia Geral

Em Lisboa, no Sábado passado, dia 18 de Setembro, durante uma reunião geral dos primeiros Voluntários e Associados do M.O.N. foram considerados alguns objectivos essenciais, métodos de acção e organização das iniciativas a desenvolver para ajudara levantar a Oposição Nacional em todo o país, de uma forma congregadora e efectiva. É fundamental reunir os esforços e a colaboração de todas organizações e núcleos de Nacionalistas, Patriotas Livres e o maior número possível de portugueses conscientes independentes de qualquer alinhamento partidário - foi este o espírito e a preocupação que dominou.
A reunião foi muito participada e concorrida. Um dos pontos foi o preenchimento dos Corpos Sociais da Associação, o que dizendo respeito directamente aos fundadores formais foi feito de uma forma aberta e transparente, com sentido prático. Na realidade, o Grupo de Fundadores ultrapassa muito o núcleo de 12 elementos que constituiram a Comissão instaladora e só o entusiasmo e a colaboração activa dos Voluntários permitiu concretizar com o sucesso desejado as primeiras actividades públicas do Movimento.
Acima de quaisquer convicções particulares ou sectárias foi iniciado o caminho da superação dos problemas que têm impedido a vivência de um Combate Nacional integral, Cultural e Político. Assumir Portugal, a defesa da Identidade Portuguesa, dos Valores que nos fizeram e da permanência do nosso Estado Nacional como grandes objectivos do Movimento de Oposição Nacional.

A Direcção Nacional do M.O.N.

Hans Günther (16.02.1891 – 25.09.1968)

24.9.10

Pensamentos de Alfredo Pimenta - IX

«... A Democracia... Que é a Democracia? É a Ditadura da Estupidez. A Democracia é o leito de Procusta dos talentos e das sensibilidades. E quando ultrapassa a sua missão de niveladora, e se dá o capricho de criar uma élite - cria a élite dos inferiores, a Aristocracia negativa, a Nobreza do Estúpido.
Digo isto, sem propósito algum de achincalhamento.
Vejamos. A Democracia é o governo do maior número. Logo, é o governo do Número. É o regime electivo aplicado a todas as manifestações da vida social. A Democracia integral é o ponto final da sua curva evolutiva: será a catástrofe. Quem escolhe? É a massa, a grande massa anónima. É a selecção operada de baixo para cima. São os pés a escolher a cabeça. É a turba dos Jovens Fernandes a escolher a César. Asneira. É a populaça pacóvia ou corrupta a eleger Goethe? Pode ser? Não pode ser. O número é cego. O número não vê. O Número não divisa estrelas: chafurda na noite da sua ignomínia.
Que há a fazer? Sujeitar o Pensamento de um Aristóteles à cegueira do Número, ou decompor este de tal maneira que a luz possa penetrá-lo? No primeiro caso é a Democracia; no segundo caso é estabelecer um regime político orgânico e são. Quando digo que a Democracia é a Ditadura da Estupidez, não quero afirmar que sejam estúpidos todos os que entram nela. Toda a gente tem qualidades a aproveitar. Todo o indivíduo tem aspectos que legitimamente o aristocratizam. A Democracia, essa, só valoriza as más qualidades do homem e afaga as suas boas qualidades sob a vaga do Número. A Verdade - mesmo a verdade relativa que o critério pragmático defende - não é uma função aritmética. O Número não é o Génio. Milhões de sensibilidades amalgamadas, somadas, interpenetradas, não são capazes de ser um esboço de Miguel Ângelo; milhões de milhões de inteligências somadas e postas no prato de uma balança não fazem erguer o outro em que esteja o génio de Newton. Podemos dizer que a História dos Povos se divide em dois grandes períodos: o anti-democrático e o democrático. Comparem-se os dois, e pelo espectáculo que eles oferecem avalia-se o que é a Democracia.»(1)
Nota:
(1)- In A Democracia, in «Ideia Nacional», n.º 14 de 14.04.1927. Ano I.

22.9.10

Público: A I República e os judeus. A conquista da cidadania



«O decreto de expulsão de 1496, seguido do baptismo forçado do ano seguinte, decretados por D. Manuel I, veio interromper abruptamente o florescimento das comunidades judaicas em Portugal. O estabelecimento da Inquisição, em 1536, acabaria com o anterior período de tolerância e destruiria paulatinamente as comunidades judaicas. Os primeiros passos em direcção à emancipação dos judeus foram dados pela legislação pombalina, no reinado de D. José I, particularmente através da Carta de Lei de 25/5/1773, com a muito simbólica abolição da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, isto é, o fim da discriminação judaica.
O processo de emancipação dos judeus portugueses foi prosseguido pelo Parlamento liberal que, em 31/3/1821, extinguiu definitivamente a Inquisição: "As Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, considerando que a existência do Tribunal da Inquisição é incompatível com os princípios adoptados nas bases da Constituição, decretam o seguinte: 1.º - O Conselho Geral do Santo Ofício, as Inquisições, os Juízos do Fisco e todas as suas dependências ficam abolidas no Reino de Portugal."
Foi um novo ciclo para a vida judaica que se abriu em Portugal, porquanto já se estavam a organizar novas comunidades desde o início desse século, particularmente em Lisboa, Faro e Açores. Contudo, o liberalismo nunca transformaria em lei a existência real do judaísmo português, antes contornou pontualmente as situações, num consentimento tácito, de acordo com a Constituição de 1822: "A Religião da Nação Portuguesa é a Católica Apostólica Romana. Permite-se contudo aos estrangeiros o exercício particular dos seus respectivos cultos." A Carta Constitucional de 1826 fazia-lhe uma pequena alteração: "A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Reino. Todas as outras religiões serão permitidas aos estrangeiros com seu culto doméstico, ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo." Assim se explica que a Comunidade Israelita de Lisboa tenha sido tratada por "colónia inglesa" e a sua sinagoga Shaaré Tikvá ("Portas da Esperança") tenha nascido, vergonhosamente escondida do público, num quintal da Rua de Alexandre Herculano em Lisboa, em 1904, sem fachada para a via pública, como a lei impunha.

A República legaliza os judeus

Foi, de facto, a Primeira República que criou as condições para a legalização das comunidades judaicas. A Lei da Separação, publicada em 20/4/1911, era muito clara quanto à intenção do regime republicano em matéria de liberdade religiosa: "Artigo 2.º: A partir da publicação do presente decreto, com força de lei, a religião católica apostólica romana deixa de ser a religião do Estado e todas as igrejas ou confissões religiosas são igualmente autorizadas, como legítimas agremiações particulares, desde que não ofendam a moral pública nem os princípios do direito político português. Artigo 8.º: É também livre o culto público de qualquer religião nas casas para isso destinadas, que podem sempre tomar forma exterior de templo; mas deve subordinar-se, no interesse da ordem pública e da liberdade e segurança dos cidadãos, às condições legais do exercício dos direitos de reunião e associação e, especialmente, às contidas no presente decreto com força de lei."
Finalmente, os judeus podiam surgir à luz do dia sem receios de perseguições, praticar livremente o seu culto, abrir as portas da sinagoga de Lisboa e pensar em construir novas sinagogas, agora com fachada para a via pública.
A Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) obteria a sua legalização a 9 de Maio de 1912, através de um alvará do Governo Civil de Lisboa. Como o regime republicano facilitava a reorganização da CIL, foram criadas várias instituições: o Boletim (1912); a Associação de Estudos Hebraicos Ubá-le-Sion (1912), organização cultural sionista; a Biblioteca Israelita (1914); o Albergue Israelita (1916), antecessor do Hospital Israelita; a Federação Sionista de Portugal (1920); a associação Malakah Sionith (1915), fundada por Barros Basto no Porto; a Escola Israelita (1922), obra de Adolfo Benarus; o Hehaver (1925), organização juvenil sionista, que desempenharia importante acção de apoio aos refugiados durante a 2.ª Guerra Mundial.
A República também veio criar condições favoráveis à descoberta do fenómeno criptojudaico nas Beiras e Trás-os-Montes. Foi o judeu polaco e engenheiro de minas Samuel Schwarz, contratado em 1915 para vir trabalhar em Portugal, quem desencadeou a chamada "Obra do Resgate", dirigida, a partir de 1926, pelo capitão Barros Basto, republicano "dos quatro costados", o responsável pelo ressurgimento e legalização da Comunidade Israelita do Porto em 1923, a construção da sinagoga Mekor Haim ("Fonte da Vida"), inaugurada em 1938 e a fundação de várias comunidades judaicas (27 entre 1924 e 1934).
Algumas figuras judaicas contemporâneas destacar-se-iam na vida pública do país durante a I República. Alfredo Bensaúde é um dos mais notáveis exemplos, ao ser convidado pelo ministro Brito Camacho, em 1911, para a criação do Instituto Superior Técnico, de que seria o seu primeiro director. Outro grande nome da Comunidade Israelita de Lisboa foi Joshua Benoliel, o introdutor e grande impulsionador da reportagem fotográfica em Portugal, tendo acompanhado os últimos anos da monarquia e os primeiros da República, que ficaram documentados em jornais e revistas. Quando se queria saber o que estava a acontecer no país, perguntava-se: "Onde está o Benoliel?", tal era a sua atenção aos acontecimentos. Só falhou o regicídio, porque já estava devidamente posicionado, com o seu equipamento fotográfico, junto ao Palácio das Necessidades, para receber e fotografar a família real. Assim se explica que não haja uma única foto desse episódio: o Benoliel não estava lá!...

Uma pátria judaica em Angola

A República surgiu num período de grande agitação judaica mundial para a edificação de uma pátria para os judeus, vítimas de perseguições na Europa Oriental e de massacres, sobretudo na Rússia a partir de finais do século XIX. Portugal atravessou-se no caminho dos sionistas. O projecto de colonização judaica de Angola, discutido pelas autoridades republicanas portuguesas, chegou a ser uma possibilidade real. Foi o desconhecido deputado Manuel Bravo quem apresentou o projecto ao Parlamento, a 1 de Fevereiro de 1912, apontando para a colonização judaica do planalto de Benguela, em Angola. O deputado por Benguela, Caetano Gonçalves, ex-governador interino de Angola após a proclamação da República, proferiu um discurso notável: "Dir-se-á (...) que o judeu, comerciante e avarento, não contribui, com a sua fortuna e o seu trabalho, para o bem público. Não é exacto. Na Rússia, o judeu é principalmente trabalhador rural. Mas se por esse facto houvesse o risco de, ao cabo, certamente, de muitas dezenas de anos, a província de Angola proclamar a sua independência, Portugal pouco perderia e ganhariam imenso a humanidade e a civilização. Nós precisamos ser do nosso tempo. E o mundo não é monopólio de ninguém."
Por razões de ordem constitucional, o projecto deveria ser aprovado também pelo Senado e só em Maio de 1913 começaria a ser discutido. Em cima da mesa estavam os pareceres favoráveis das Comissões das Colónias e das Finanças. O senador Nunes da Mata expôs o seu inequívoco parecer: "Sob o ponto de vista do progresso e da riqueza da colónia, o resultado deve ser seguro, tendo em consideração os dotes de energia no trabalho e espírito de economia dos israelitas. Além da vantagem que deve resultar para a província de Angola, a proposta de lei representa um acto de justiça e de reparação para com uma raça que em todos os tempos tão perseguida tem sido e cuja expulsão em massa, em Dezembro de 1496, do território de Portugal, por D. Manuel I e depois de 1532 por D. João III, pela acção maléfica da Inquisição, o trágico morticínio nas ruas e praças de Lisboa em Abril de 1506, (...) constituem as nódoas mais negras de toda a história pátria. Esse êxodo dos israelitas, que foram levar as suas riquezas e actividades para Bélgica, Holanda, Itália e Grécia, e outros países, foi uma das causas principais da nossa decadência a partir do reinado de D. Manuel I. (...) Por conseguinte, se o Senado der o seu voto à proposta de lei, presta um bom serviço, e pratica um acto de reparação para com muitos descendentes dos israelitas que foram vítimas das crueldades dos nossos antepassados".
É a todos os títulos notável este "acto reparador" da expulsão quatrocentista dos judeus portugueses e das infamantes perseguições de Quinhentos em diante. Findo o debate, o projecto seria aprovado pelo Senado a 29 de Junho de 1913. Faltava o último passo legal: a aprovação conjunta das duas câmaras - Deputados e Senado -, como a Constituição exigia. Essa obrigação nunca seria concretizada. As proféticas palavras do deputado José Barbosa, uma semana antes da aprovação do projecto no Parlamento português, cumpriam-se: "A Pátria israelita, com que sonha o sionismo, não se reconstitui senão na Palestina; fora dessa região, não há meio de os Israelitas aceitarem a ideia de reconstituírem a sua Pátria". Assim seria, de facto.

A representação do judeu durante a República

O regime liberal, para além de ter imposto a extinção da Inquisição, foi responsável por uma nova visão social do judeu. Ao invés de bode expiatório de todos os males, herança medieval invocada até ao tempo de Pombal, o judeu passou a ser visto como vítima. A literatura legou-nos vários exemplos de romance, poesia, teatro e ensaio, que demonstram uma atitude meio piedosa, meio paternalista em relação ao judeu. Era a tentativa de sublimação dos mais de três séculos de intolerância antijudaica.
Contudo, Portugal, que não reconhecia a existência da sua comunidade judaica, preferia efabular. A revista O Ocidente publicou, em 1878, uma gravura sobre desenho do pintor Columbano Bordalo Pinheiro, intitulada O Judeu Vendilhão. O texto explicativo dessa gravura não deixa muitas dúvidas de como a representação do judeu terá chegado à generalidade da população portuguesa nas vésperas da República: "Disperso pelo mundo, o povo de Israel procurou remir-se da pena cruel imposta à sua raça, pela actividade industrial e pelo esforço constante no trabalho. De povo maldito fez-se tribo comerciante, sendo-lhe assim possível, em muitas ocasiões, vingar-se nos contemporâneos da crueldade dos antigos opressores. (...) O Judeu Vendilhão, com quem o leitor depara hoje nas colunas do Ocidente, é decerto muito seu conhecido. Aquele tipo de finura é proverbial nessa raça activa e inteligente, e como estudo de figura colhida do natural em flagrante delito de impor a sua mercadoria aos pés, ao estômago e à crença dos cristãos, honra o lápis de Columbano Bordalo Pinheiro."
De acordo com esta visão finissecular, todos os judeus seriam comerciantes ou agiotas sôfregos de empréstimos a juros altíssimos. Ora, essa representação, embora ainda persistente na aurora do século XX, não encontrava correspondência com a realidade coeva. As notícias sobre os judeus durante a República referem-se predominantemente às áreas da cultura e da sociedade. São os cantores líricos, os músicos, os pintores, os actores, os escritores, os professores, os médicos: Joshua Benoliel, repórter fotográfico; Maurício Bensaúde, barítono; Adolfo Benarus, pintor e professor da Escola Industrial; Alfredo Bensaúde, fundador e director do Instituto Superior Técnico; Jaime Athias, secretário do presidente da República Canto e Castro; Levy Bensabat, secretário do presidente da República Teófilo Braga.
Subitamente, descobriram-se judeus na sociedade portuguesa. Afinal, existiam e tinham vida pública, não se escondiam na sinagoga como seres exóticos e marginais, tinham nomes e rosto e não revelavam nenhuma semelhança com o mítico "judeu vendilhão".

O anti-semitismo contra a República e os judeus


O moderno anti-semitismo também teve expressão em Portugal. Se essa corrente europeia, intolerante e racista, praticamente não se manifestou no nosso país entre meados do século XVIII e a primeira década do século XX, ao contrário do que acontecera particularmente na Alemanha, na Rússia e em França, o mesmo não podemos dizer para o período da I República, em que deram à estampa livros, libelos e artigos de opinião, sobretudo oriundos de correntes nacionalistas e integralistas, uma literatura apologética anti-semita, que acompanhou, à sua maneira, a onda racista europeia e a tentação, se não exterminadora, pelo menos expurgadora dos judeus da sociedade portuguesa.
Associado à reacção monárquica e nacionalista contra a República, surge um anti-semitismo ideológico, que teve expressão em livros, revistas e jornais. A Invasão dos Judeus (1925), de Mário Saa, pode ser considerada a "bíblia" dessa literatura anti-semita. Para Mário Saa, a República foi edificada pelos judeus, estava a ser governada por judeus, procurava servir secretos interesses dos judeus. Lisboa, apesar da "purificadora" acção da Inquisição, estaria a tornar-se, no entender de Saa, a "Nova Jerusalém", edificada pela "multiplicação da raça proscrita", com "aqueles pertinazes narizes e olhos, aquela debilidade de mentos (deficiências de queixo) e aquela expressão de ombros (...)". Aliás, o autor não tinha dúvidas quanto à evidente identificação de um judeu, através de uma simples observação à vista desarmada: "Não é difícil descortinar um judeu pela simples aparência. Com uma experiência de alguns anos, e muito mais por instinto que por experiência, qualquer pessoa está apta a apartar os hebreus dos não-hebreus. A fisionomia, o feitio dos ombros, o modo de andar (e, ainda que pareça exagero ou gracejo, o próprio modo de usar o chapéu, que, na generalidade, é mais puxado para a frente que para trás, por virtude, sem dúvida, da conformidade craniana), deixam-nos facilmente aperceber do tipo judaico."
Já em 1921, Mário Saa havia publicado um livro onde exibe uma despudorada afirmação na folha de rosto: "Entrar no Parlamento português é o mesmo que entrar numa sinagoga." No fundo, Saa via na República a vingança judaica: D. Manuel I havia decretado a expulsão dos judeus em 1496 e estes implantariam a República e expulsariam D. Manuel II em 1910.»


Jorge Martins é doutorado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras de Lisboa (2006) e professor de História desde 1978. Pertence ao quadro da Escola Secundária Braamcamp Freire, Pontinha, é professor convidado do Instituto Superior de Ciências Educativas – Odivelas e investigador do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE – Lisboa. Tem exercido actividade de formador em centros de formação de professores e é autor de manuais escolares, obras de ficção e ensaio, designadamente, sobre história contemporânea, história local e estudos judaicos. É autor dos três volumes de Portugal e os Judeus, também publicados sob a chancela Veja.
A República e os Judeus (Nova Vega): Vols I, II e III.

Pensamentos de Alfredo Pimenta - VIII

«... O meu conceito de Democracia e a minha repugnância por este sistema absurdo de orgânica política, obrigam-me, por coerência mental e compreensão histórica, a desejar que o meu País não se deixe seduzir pelas fantasmagorias transparentemente interesseiras dos srs. Jorge Botelho Moniz e Marcelo Caetano, arautos da renovação democrática e da reconciliação na Democracia, e tenha sempre presentes os conceitos fundamentais expostos pelo sr. Presidente do Conselho no seu já famoso discurso de 7 de Janeiro deste ano, no Palácio da Bolsa, no Porto.»(1)
«... A Democracia não é o que este ou aquele inventam: é o que é: regime de opinião, regime de partidos, regime de guerra civil. Os Povos querem ideias claras, e não artifícios nebulosos: ou a Democracia, ou a Autoridade. Na hora trágica, pela dor, pelo sangue e pelas ruínas que estamos a atravessar, tomei posição: sou pela Autoridade que represente a tradição histórica dos Povos, contra a Democracia que conduz à sua dissolução; sou pela Ordem que consolida, fortalece e prestigia as Nações, contra a Desordem que as corrompe, anemia e pulveriza.»(2)
«... a consequência lógica dos regimes democráticos, dos regimes de opinião é a complicação, a barafunda, o ninguém se entende, o sarilho, o caos.»(3)
«... Dêem-lhe as voltas que quiserem; cubram-na com o manto que entenderem; escondam-na sob as máscaras que lhes apetecer; mergulhem-na em pias de água benta, ou lambuzem-na de excrescências de esgotos — a Democracia foi a praga que caiu sobre o mundo trazida no coração do Anti-Cristo, e é a lepra que está a corroer o mundo.
Oiço falar muitas vezes, com susto e arrepio, no Totalitarismo, em regimes totalitários, a pessoas a quem não repugna a Democracia.
Santo Deus! Mas onde está, onde se esconde, onde vive, Totalitarismo mais completo do que a Democracia?
A Lei é igual para todos? Totalitarismo.
Sufrágio universal? Totalitarismo.
Instrução universal obrigatória? Totalitarismo.
Toda a nação em armas? Totalitarismo.
O Governo do Povo pelo Povo? Totalitarismo.
Liberdade de consciência? Totalitarismo.
Direitos do Homem? Totalitarismo.
Paz universal? Totalitarismo.
Igualdade? Totalitarismo.
Que há de mais totalitário que a Democracia?»(4)
Notas:
(1) - In Contra a Democracia, pp. 6/7, Amigos do Agora!, 1949.
(2) - In A Velha Democracia Nova, in «Esfera», n.º 112, p. 8. 1945.
(3) - In Num Beco Sem Saída, in «A Época», n.º 2435, p. 1, 25.05.1926.
(4) - In As Lições dos Factos, in «A Voz», n.º 5180, p. 1, 04.08.1941.

21.9.10

Diário de Notícias: cadáveres no armário um Brueghel anti-semita


«"Vae victis!" A expressão que Tito Lívio colou aos lábios do lendário chefe gaulês Breno mantém o seu sentido inalterado apesar da passagem dos séculos. "Ai dos vencidos!" E os artistas que colaboram com as ditaduras arriscam-se a ser apagados para sempre.
Uma das mais recentes vítimas da sua ideologia foi o desenhador belga Willy Vandersteen (1913-1990), criador de uma vasta obra quase desconhecida em Portugal, mas a quem Hergé chamou o Brueghel da Banda Desenhada. Os filhos descobriram agora que era ele o autor dos desenhos anti-semitas publicados, durante a II Guerra Mundial, sob o pseudónimo de Kaproen. A obra irá ser editada, no próximo ano, pela Standaard Uitgeverij e, graficamente, pelo que se conhece, talvez seja curiosa.»

Partida de Vasco da Gama para a Índia. Pintura de João Vaz

Partida de Vasco da Gama para a Índia
Pintura de João Vaz (1859-1931)
Palácio da Mitra. Lisboa

20.9.10

Pensamentos de Alfredo Pimenta - VII

«... Quando em 1945, a Alemanha hitleriana, anti-democrática e anti-comunista, foi esmagada pelas Democracias, o mundo embandeirou, ébrio de ventura, doido de alegria; encheram-se as ruas e as praças de democratas; iluminaram-se os edifícios; dançou-se; ceou-se Democracia - foi o delírio. O mundo inteiro empanturrou-se de Liberdade e Democracia...
Os grandes homens das Democracias - Roosevelt, Estaline, Churchill e Truman foram colocados nas aras dos deuses. E as massas, elefantíacas ou dromedárias, guiadas, tangidas pelos seus espertos cornacas, espalharam-se pelas praças, pelas ruas, pelas avenidas, por toda a parte, a aclamar Estaline, Churchill, Roosevelt e Truman... »(1)
«... Quando, em Maio de 1945, a Europa caiu prostrada aos pés da Democracia vitoriosa, nesta parte do Mundo onde a terra se acaba e o mar começa, desceu sobre os melhores espíritos - os mais livres, os mais senhores de si, os mais profundamente e sinceramente dedicados às suas tradições multi-seculares, e aos seus sonhos de futuro pacífico e fecundo, a noite da angústia e da desesperança. Desfraldaram-se, nas varandas das urbes, as bandeiras vitoriosas; encheram-se as ruas dos aglomerados populacionais, de uma fauna patibular que desde 1926 ninguém vira à luz do Sol; ergueram-se no espaço gritos selváticos de apoteose, celebrando a aurora vermelha que vinha nos flancos da vitória. Mas os melhores espíritos desta sagrada terra de Portugal desciam as escadas tenebrosas do Sofrimento e do Silêncio.
A Europa jazia por terra - o corpo coberto das feridas dos combates, a alma crucificada em cruz de ignomínia, os olhos cegos pelo sangue e pelo pavor, os pulsos algemados, os pés entorpecidos do peso das grilhetas...
E eu que nunca fiz, antes de Maio de 1945, nem a saudação nacional-socialista, nem a saudação mussoliniana, reivindico, hoje, para mim, com orgulho e plena satisfação moral, o ser nazi ou fascista, na boca da Democracia vitoriosa.
O nazi está vencido, o fascista está vencido. Foram as cinzas do primeiro espalhadas ao vento ou deitadas ao mar; cobrem os restos cadavéricos do segundo, toneladas de terra e Himalaias de ódio.
Com ternura infinita me debruço sobre a sombra do primeiro, que nenhuma força arrancará da História, e ajoelho diante da memória do segundo, que nenhuma força apagará do Tempo.
Sim! Serei nazi, serei fascista!
Ser anti-nazi, e ser anti-fascista é alinhar com as democracias vitoriosas - desde a França, a criadora do Resistencialismo, e a Inglaterra, até aos Estados Unidos.
Ser anti-fascista e ser anti-nazi é, nas circunstâncias actuais do mundo, ser defensor e sustentáculo da Democracia parlamentar e partidária que levou Portugal à miséria, à degradação, à beira da morte.
O mundo está, efectivamente, dividido, no plano ideológico, que é o único que me interessa, entre a Democracia e o Fascismo, isto é entre a Democracia e a Autoridade.
A Democracia é a Anarquia brava ou assolapada - incêndio que devora, ou incêndio que corrói - mas sempre incêndio.
A Autoridade é a Ordem Social, a disciplina feita sistema, o Trabalho feito profissão, a Justiça feita Lei.
A Democracia é o regime dos Partidos, é o regime da guerra civil, é a Grécia sob o pulso anglo-americano, ou a Checoslováquia, a Roménia, a Bulgária, a Hungria, a Jugoslávia, sob o pulso estaliniano. É a Inglaterra, com o trono abalado; é a França, em truculências; é a América, incerta do seu futuro; é a Rússia, esmagada sob o despotismo mais feroz da História. A Autoridade é o Governo estável, é o trabalho progressivo, é o Povo entregue exclusivamente às suas actividades profissionais, é a Nação libertada da obsessão política e do polvo partidário, é a sociedade de homens.
Se, por ser inimigo da Democracia - na minha já tão distante juventude, por individualismo excessivo, e hoje, por imperativo de uma cultura filosófica e histórica integral - se por ser inimigo da Democracia, tenho de ser fascista ou nazi, sê-lo-ei com muita honra e muito orgulho, porque sem proveito absolutamente nenhum, nem efectivo, nem possível, nem provável.
Do outro lado, onde a Democracia impera, onde se é anti-nazi ou anti-fascista, leva-se aos ombros o trono sacrílego do Diabo, é-se contra Deus e contra a Igreja, transige-se com a Maçonaria e a mistela Judaica, instaura-se a guerra civil permanente, alimenta-se o escalracho do Partidarismo político, pertence-se ao Depuracionismo, ao Resistencialismo, ao Bolchevismo, e por fim, aplaude-se a ignomínia de Nuremberga que, na opinião insuspeita de um juiz americano, não passou de acto de vingança!
Numa palavra: quem for partidário da Democracia, deseja a morte de Portugal - quer seja a morte por decomposição ou dissociação interna, quer seja a morte por diminuição da sua soberania que se dissolverá no projectado plano da criação dos Estados Unidos da Europa, ante-câmara confessada dos Estados Unidos do Mundo.
Ser português, hoje, nas circunstâncias reais do mundo, implica ser adversário declarado das democracias vitoriosas.»(2)
«... Pois, hoje, Portugal pode dizer que, com a Vitória das Democracias, corre o risco de perder a liberdade e a alma.
Ponhamos os olhos nos dez pontos do Plano da Federação da Europa aprovado em 3 deste mês, pelo Congresso Parlamentar Europeu.
Como é que uma asneira que ultrapassa todas as asneiras - vinga, com toda a certeza. E ai da nossa independência financeira! Ai da nossa independência política! Ai do nosso Império Colonial!»(3)

Notas:
(1) - In Contra a Democracia, p. 24, Amigos do Agora!, 1949.
(2) - Discurso no 2.º jantar anual do jornal «A Nação».
(3) - In Ainda Couceiro e Norton, in «A Nação», n.º 134 de 18.09.1948.

17.9.10

Pensamentos de Alfredo Pimenta - VI

«... Venceram as Democracias? Venceram. Mas quem venceu, antes delas, foi a Rússia, foram os Estados Unidos e, vá lá! foi a Inglaterra. Venceram estes três Estados, para si, para os seus interesses económicos, para os seus interesses políticos. Não foi por serem democráticos ou serem autocráticos que venceram. Venceram, porque tiveram a seu lado mais homens para lançar na fogueira, mais navios para dominar o mar, mais aviões para dominar o ar e arrasar mais cidades, e, por fim, porque dispuseram da bomba atómica. Não venceram por terem razão; não venceram por terem justiça; não venceram, quero crê-lo, por terem Deus do seu lado. Venceram porque dispunham de mais força.»(1)
«... Acabou por vencer o mais forte. E é a força que cria o direito, por muito que se esganicem a proclamar o contrário, os que vivem nas nuvens. Ponham os olhos em Nuremberga...
A vitória das Democracias eliminou do tabuleiro da vida internacional as Pátrias, com a sua independência, a sua soberania, o seu direito. Porque a teoria internacionalista da Democracia é matéria de exportação, objecto de propaganda, motivo de atitudes que os três Ditadores exploram incansavelmente. No mundo, só há três nações: as que se erigiram em senhoras do mundo. O resto, poeira de fantasmas obedientes, comprando pelo preço caro da da obediência, o direito à vida; porque se recalcitrantes, pagam com a vida a sua revolta.»(2)
«... A vitória das Democracias trouxe esta novidade escandalosa: a intervenção dos vencedores na maneira de ser moral dos povos, obrigando estes a actos que a mais rudimentar caridade condena!(3)
«... A guerra aos Nacionalismos e a vitória das Democracias deram este resultado perturbador: o domínio dos três colossos imperialistas do mundo, e a subalternidade efectiva e integral dos Estados pequenos e fracos. É uma espécie de neo-feudalismo: três senhores, servidos pela fidelidade de perto de uma centena de vassalos.
O sentimento nacionalista que levou alguns séculos a criar-se, e se alimentou à custa do sangue de tantas e tantas gerações e mercê de sacrifícios sem conta; esse sentimento que deixou no decurso da História, a assinalar a sua formação, figuras gigantescas de heróis de epopeia, e de mártires de agiológio, cai vencido e desfeito sob o tropel das três Democracias que monopolizaram o poder do mundo, e o domínio dos destinos do mundo.»(4)
«... Desde a Grécia, a da beleza olímpica da Acrópole, e da Roma Cesária ou da Roma das Catacumbas, até o Portugal dos Descobrimentos, é o vasto campo dos súbditos dos Três Ditadores, das três Democracias vitoriosas. As nações são espectros e farrapos. Para a harmonia do conjunto, têm que estender os pulsos às algemas, e curvar o pescoço ao jugo - às algemas que os Ditadores empunham, ao jugo que os Ditadores levantam ou carregam segundo o seu prazer...
«... A vitória das Democracias é um sofisma que esconde o domínio de três Impérios. Onde foi realidade deu o caos. Mas sofisma ou realidade, a vítima foi a Pátria.»(5)
«... Nós já tivemos em Portugal o Capharnaum - a Democracia na sua forma mais elevada; temo-la, hoje, na sua forma mais reduzida. E é por isso que personalidades como Jacques Maritain e Tristão de Ataíde combateram e combatem (arautos do M.U.D.) a situação portuguesa. A Espanha também teve o Capharnaum. Expulsou-o, e substituiu-o pelo Estado espanhol não democrático. É por isso que as Democracias vitoriosas lhe declararam guerra, e a consideram fora da lei. A França está em pleno Capharnaum: governam-na simultâneamente o Comunismo, o Catolicismo, e entre os dois, o Socialismo. A gente pasma desta maionese — mas isto é que é a Democracia vitoriosa. Mas a Inglaterra, com o seu Rei? Os Estados Unidos, com o seu Ditador totalitário que, pelo visto, é arcangélico, virginal e açucénico? Esses estão fora da discussão; esses podem fazer tudo quando lhes der na gana; esses são livres, são independentes, - porque são fortes, ricos e têm a... bomba atómica. Esses Senhores - para quem a Democracia é mercadoria a exportar, a aplicar nos outros, nos vassalos, como na França, ou na Grécia, na Itália ou na Bélgica, na Alemanha ou no Japão, na Jugoslávia ou na Roménia, etc., etc.
Vejam lá se há para aí algum Estado, temporal ou espiritual, que se atreva a meter o nariz no modo de ser constitucional dos Estados Unidos, da Inglaterra ou da Rússia? Estes são intangíveis, infalíveis, indiscutíveis! Vejam lá se há para aí alguma Potência, temporal ou espiritual, que proponha sanções contra a Inglaterra, por ser um Estado herético-maçónico, contra os Estados Unidos, por serem maçónico-heréticos, ou contra a Rússia, por ser a Ditadura mais cruel e torva de quantas reza a História?
«... A Vitória das Democracias impôs a Democracia ao mundo - isto é, o regime do Carpharnaum; impôs ao mundo o sistema da intervenção na vida interna dos Estados - substituindo, aqui, o que às Democracias não convém; dirigindo, aqui, ali; protegendo, além; condenando, mais além.»(6)
Notas:
(1) - In Três Verdades Vencidas: Deus - Pátria - Rei, pp. 16/17, Org. Bloco, Lda., 1949.
(2) - Idem, ibidem, pp. 17/18, Org. Bloco, Lda., 1949.
(3) - Id., ib., p. 17, Org. Bloco, Lda., 1949.
(4) - Id., ib., pp. 19/20, Org. Bloco, Lda., 1949.
(5) - Id., ib., pp. 26/28, Org. Bloco, Lda., 1949.
(6) - Id., ib., p. 28, Org. Bloco, Lda, 1949.