9.9.08

"Libertação" da Polónia

Em nome da liberdade e da democracia

O 15 de Março e Helena Matos

Helena Matos escreveu ontem estas indignações despropositadas onde se mostra indignada com o decreto de dia nacional angolano o 15 de Março e revela porquê.
«Não percebo a comoção pátria com a atitude do governo de Angola face a alguns jornalistas portugueses. Luanda age como sempre agiu. Lisboa é que se está agora a fazer de novas. Afinal o que tínhamos de melhor entre a classe civil e militar não aprovou isto em Fevereiro de 1975?:
“Sobreviventes e ignorados: Dois relatórios oficiais, nunca tornados públicos, contam como os portugueses sobreviveram aos massacres do norte de Angola, em 1961, abandonados por Salazar” – assim começa uma reportagem sobre os ataques às fazendas, em Angola, no ano de 1961, publicada pelo semanário “Expresso”. Esse ataque contra civis fossem eles brancos ou pretos, em que os atacantes, longe de apresentarem qualquer reivindicação de carácter político, se limitaram a violar, queimar e esventrar quem lhes apareceu pela frente, particularmente as mulheres, as crianças e os trabalhadores bailundos foi uma data mais difícil para os portugueses do que para o salazarismo. Este último soube tirar dividendos políticos deste ataque, mesmo que isso implicasse, como implicou, não questionar a atitude negligente do governo português perante a segurança dos seus cidadãos. Infelizmente estes portugueses não foram apenas ignorados por Salazar. Eles foram também vexados pela democracia. Por mais grotesco que tal possa parecer, um governo português entendeu por bem fazer do dia 15 de Março de 1961, data do início do massacre nas fazendas, um dia que Angola devia festejar. Em Fevereiro de 1975, ou seja muito antes da independência de Angola e numa fase em que o governo português nomeava ministros para o governo de transição de Angola, em que o Conselho de Estado, reunido em Portugal, determinava que o Alto-Comissário designado para Angola teria “categoria e honras idênticas às do Primeiro-Ministro do Governo Português”, achou o nosso governo apropriado e honroso que o dia 15 de Março de 1961 integrasse o calendário dos feriados de Angola, na qualidade de data festiva. Confesso que não sei o suficiente de História Universal para garantir que é inédito este gesto dos governantes, militares e civis, dum país, assinarem um decreto que transforma em dia de glória a data em que os seus cidadãos foram massacrados mas tenho a certeza que, em matéria de colonização e descolonização, os grandes crimes dos portugueses não constam apenas dos “relatórios oficiais, nunca tornados públicos” e que começam agora, felizmente, a sair do segredo e da poeira dos arquivos. Os crimes estão também aí diante dos nossos olhos, onde aliás sempre estiveram: na linguagem burocrático-enfatuada dos decretos que enchem diários e boletins oficiais.»

8.9.08

Livro: Combater em Moçambique. Guerra e Descolonização. 1964-1975 de Manuel Amaro Bernardo

Editado em 2003, "Combater em Moçambique. Guerra e Descolonização. 1964-1975", de 435 páginas é mais um trabalho interessante da autoria de Manuel Amaro Bernardo que vale a pena ler. Inclui depoimentos de combatentes como o do Coronel Pára-quedista Sigfredo Costa Campos.
«Eduardo Chivambo Mondlane nasceu em Manjacaze (Gaza), em 1920. Frequentou a Missão Suíça em Lourenço Marques, onde fez os estudos liceais. Depois ter tentado, sem êxito, fazer o curso na Universidade de Witwatersand, na África do Sul, devido ao apartheid, regressou a Moçambique. Foi então apoiado com uma bolsa do Estado, oferecida pelo Director dos Serviços de Instrução Pública, tendo seguido para Lisboa onde fez o curso de Letras. Mais tarde, “porque queria continuar num curso especializado, tive que ir para os Estados Unidos, onde fiz outros graus”.
Foi o próprio Mondlane quem, ao agradecer o banquete oferecido em sua honra, em 1961, no Hotel Xai-Xai, de João Belo, pelas autoridades do distrito, descreveu a sua experiência educativa em Moçambique e Lisboa.
Tinha-se deslocado à sua terra, depois de um pedido feito ao governo português, já doutorado em sociologia e professor catedrático da Syracuse University de Nova Iorque e após uma ausência de onze anos. Entretanto, casara com a americana (branca) Janet Era Johnson, era pai de dois filhos e individualidade de relevo dos quadros políticos das Nações Unidas, onde foi investigador profissional de 1957 a 1961. Os estudos feitos nos EUA tinham sido suportados por uma bolsa do Pelps-Stokes Found.
Foi este homem que, no ano seguinte (1962), se deslocou para Dar-es-Salam, para formar a FRELIMO (25 de Junho), através da junção de três grupos de imigrados moçambicanos, mas sem grande influência no interior do território de origem – MANU, UDENAMO E UNAMI -, com o apoio do presidente da Tanzânia, Julius Nyerere. Recorde-se que este se tornara independente em Dezembro do ano interior.
Como anteriormente referido, o 1.º Congresso desta organização, que decorreu entre 23 e 28 de Setembro de 1962, em Dar-es-Salam, elegeu Eduardo Mondlane para presidente, tendo, como vice, Uria Simango, e vários secretários, sendo Marcelino dos Santos o encarregado da área dos Negócios Estrangeiros. Este elemento já andava nestas movimentações “anti-coloniais” desde os anos 50 e fora eleito para secretário da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), em Abril de 1961, em Casablanca. Viria a ser um elemento preponderante na ligação da Frelimo aos soviéticos.
Neste 1.º Congresso, o inimigo foi definido como “o sistema colonial-fascista” e o objectivo estratégico: “pôr fim à exploração do homem pelo homem, pela liquidação das relações capitalistas e imperialistas no país”. Esta terminologia, de tipo marxista, terá “assustado” os seus “amigos” americanos que, a partir de 1965, não quiseram continuar a apoiar a Frelimo. No entanto, organizações civis dos EUA terão mantido o apoio que vinham dando ao Instituto de Moçambique, dirigido por sua mulher, Drª Janet Era, em Dar-es-Salam.
A constituição da Frelimo apenas terá sido possível pela capacidade política de Mondlane, pelo grande impulso dado por Nyerere, pelo apoio dos EUA, através da Fundação Ford e por ter ocorrido, em 1960l, um incidente em Mueda.» (pp. 79/80)

«No entanto, nos meses de Junho/Julho de 1973 acabariam por se desencadear processos imparáveis de contestação ao regime: nova denúncia de massacres, em 10 de Julho, em Londres, no tão propalado caso Wiriyamu, que levaria à substituição (já prevista do antecedente), e, 31-7-1973, do General Kaúlza de Arriaga pelo General Basto Machado; publicação em 13 de Julho do Decreto-Lei 353/73, que conduziu à contestação designada por “Movimento dos Capitães”; e alteração do posicionamento de Jorge Jardim em relação ao regime e aos “atritos entre as Forças Armadas e a Igreja Católica”, esclarecendo Marcello Caetano em Lisboa, do efectivamente sucedido em Wiriyamu, perante o “espanto” do CEMGFA, General Costa Gomes. É que Jorge Jardim já iniciara em, 24-6-1973, os contactos secretos com a Zâmbia, para as negociações com a Frelimo que, apesar de tentadas, nunca se viriam a concretizar, depois do 25 de Abril (pouco tempo antes desta data, Marcello Caetano não concordaria com o designado “Programa de Lusaka”, de Jardim, com a “bênção de Kenneth Kaunda, da Zâmbia e de Hastings Banda, do Malawi).» (p. 138)
«De facto, Jorge Jardim era o único com capacidade de intervenção na região que, em 1973, já tinha um programa credível para, com o apoio da Zâmbia e do Malawi, levar por diante uma situação de compromisso entre Lisboa e a Frelimo, com a finalidade de acautelar os interesses das minorias brancas. Como já é do conhecimento público, nos primeiros meses de 1974 (já com o timing ultrapassado – depois do Verão de 1973 seria difícil fazer vingar tal projecto), não teria o acordo de Marcello Caetano.» (pp. 217/218)
«Depois dos contactos preliminares de Jaime Pombeiro Sousa e de Tiny Rowland (um inglês da Lonhro/petróleos), Jorge Jardim encontrou-se em Paris (24.6.1973) com Amok Phiri, Alto Comissário da Zâmbia, onde terá referido que “concordava com a independência de Moçambique, visto ser a única solução política”. Estava aberta a porta para Kaunda, que o recebeu em Lusaka em 23-7-1973.
O “Programa de Lusaka” nasceu após alguns dias de reuniões. Do ponto de vista zambiano, Portugal deveria deixar de se envolver com a África do Sul e a Rodésia, tal como não acusar a Zâmbia e a Tanzânia de serem estados comunistas e a Frelimo de ser um bando de “desordeiros e comunistas”. Em contrapartida, aquele país favoreceria a criação de uma comunidade lusíada, incluindo os países de África e o Brasil, na qual Portugal adquiriria uma posição dominante.
Jorge Jardim apresentaria a Marcello Caetano, em 10 de Agosto de 1973, uma versão dos contactos, omitindo a intenção da independência, tal como o fez em Moçambique ao Governador Pimentel dos Santos. Também o referiu ao General Kaúlza de Arriaga, de malas aviadas para Lisboa, e ao militar que, com ele trabalhava nos SEII –Major Arnaut Pombeiro. (p. 219)

«Jorge Jardim foi “apanhado” pelo 25 de Abril em Lisboa, imediatamente depois de ver chumbado, por Marcello Caetano, o seu “Programa de Lusaka”.
E apesar de ter montado uma base de apoio na Beira, em termos de opinião pública, viria a ter logo as primeiras desilusões depois da passagem de Costa Gomes pela cidade. Em 3 de Maio de 1974, no Notícias da Beira, tinha “declarado o seu apoio ao Programa do MFA, apelando à unidade de todos os sectores de Moçambique”.
Tentou fazer pontes com membros da JSN, seus conhecidos (Rosa Coutinho, Diogo Neto e Galvão de Melo), e foi recebido pelo recém-nomeado Presidente da República, António de Spínola, na companhia do previsto Governador-Geral de Moçambique, General Silvino Silvério Marques, em 4 de Maio.
Entretanto, na Beira, em 12 desse mês, Costa Gomes, na sua visita ao território, viria a ser afrontado pelos brancos residentes, que reclamavam “treino no manejo de armas para se defenderam da Frelimo e que lhe chamaram traidor”, quando apareceu aos manifestantes. Chegou a dar ordem para os militares intervirem, mas o General Diogo Neto conseguiu sossegar aquela massa popular exaltada, de megafone em punho. Nessa altura, Jorge Jardim (a partir de Lisboa) resolveu apelar à calma, através das rádios de Lourenço Marques e da Beira.
Se as relações de Jardim com Costa Gomes já não seriam boas aquando da sua passagem por Moçambique nos anos 60, a partir desse episódio o recém-nomeado iria neutralizar e isolar Jorge Jardim em Lisboa, por o considerar um político demasiado poderoso naquele território e um potencial líder numa independência unilateral, tipo rodesiano. Esta era também a opinião dos “Democratas de Moçambique”, grupo a que pertencia Almeida Santos e Adrião Rodrigues, e que já mantinha relações preferenciais com a Frelimo.
Costuma dizer-se que a “vida é feita de encontros e desencontros”. E apesar do “Programa de Lusaka”, feito à revelia de Marcello Caetano, então desconhecido de Costa Gomes e dos “democratas”, Jorge Jardim, que pretendia regressar a África, em meados de Maio, acabaria por ficar retido na embaixada do Malawi, em Lisboa, para não ser preso, devido a mandado de captura emitido por Costa Gomes ou, no mínimo, por sua proposta.»(p. 225/226)

«A nível militar, as estruturas iam sendo controladas e manipuladas pelo “núcleo duro” do MFA local, composto pelos Majores Mário Tomé e Silva Barbosa e pelos Capitães Aniceto Afonso, Lopes Camilo e Cuco Rosa.»
A comissão local do MFA já conseguira a publicação da sua nomeação oficial, na Ordem de Serviço n.º 14 de 24-5-1974, do Comando-Chefe de Moçambique (Despacho do General, dois dias antes), “cabendo-lhe a responsabilidade de apresentar directamente ao Comandante-Chefe as medidas que dinamizem a execução do programa do MFA e de manter a ligação com o MFA da Metrópole e com a Comissão de Coordenação Política junto do Governo de Moçambique.”
Assim, ao grupo de Mário Tomé e Aniceto Afonso foram acrescentados elementos da Marinha (Capitão-Tenente Pereira da Cruz) e da Força Aérea (Major Nuno Mira Vaz) e o Ten-Coronel Nuno Lousada, enquanto ficaram aguardando a nomeação do novo Governador (concretizada apenas em 11-6-1974) para lhe impor tal comissão “controladora”, o que viria a suceder em 26 de Junho.
Entretanto, a manipulação junto das tropas já tinha conseguido que, em 3-6-1974, 107 militares assinassem uma exposição, onde afirmavam, “pelo conhecimento concreto da realidade, ser a Frelimo o único e indiscutível representante do Povo de Moçambique” e pugnavam pelo imediato reconhecimento do direito à independência do Povo Moçambicano e pelo fim da guerra.
António de Spínola descreve algumas acções de insubordinação ocorridas em unidades militares e adianta que “se acelerou o processo de degradação das Forças Armadas em Moçambique”, depois da visita de uma delegação do MFA/Lisboa constituída por Franco Charais, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço. Acrescenta ainda que o Comandante da Força Aérea, General Rangel de Lima, “em perfeita sintonia com a esquerda revolucionária, decidiu arbitrariamente suspender o apoio táctico às forças terrestres, num primeiro passo para a sua total paralisação”. (pp.222/223)

«Assim este militar (Melo Antunes) acabaria por ter a sua actuação facilitada mercê da neutralização de Jorge Jardim (21 de Maio a 13 de Junho), em Lisboa, por Costa Gomes e António Spínola, e mais tarde (Julho), quando Jardim não quis avançar de imediato ao encontro de Julius Nyerere e Samora Machel, na Tanzânia, como lhe foi proposto por Kenneth Kaunda, da Zâmbia. Segundo Pombeiro de Sousa, o Presidente da Zâmbia terá dito: “Vocês devem ir à Tanzânia falar com Samora Machel, pois ele quer conversar convosco”. Jardim terá respondido: “Sabe, eu tenho que ir, em primeiro lugar, falar com umas pessoas de Lourenço Marques…”. Com esta atitude, acabou por perder o último comboio possível…»(p. 234)

«Apesar de ser uma opinião um tanto redutora e de pessoa desconhecedora da realidade africana local, transcreve-se parcialmente um artigo de António José Saraiva, - um historiador e personagem com bastante prestígio na oposição ao regime salazarista – sobre o sucedido em África, intitulado O 25 de Abril e a História publicado no Diário de Notícias de 26-1-1979:
“(…) Quanto à descolonização, havia trunfos para a realizar em boa ordem e com vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha, não havia ódio generalizado das populações contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro, do General Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada, ordenada e honrosa.
Todavia, o acordo não se realizou, e a retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer-Quibir.» (p. 236)

«A terminar recordam-se as palavras de Melo Antunes, à RTP, pouco tempo antes de falecer (Julho de 1999):
“(…) Muitos responsáveis políticos portugueses têm dito que a descolonização foi a que era possível. Acho que não é assim.
Considero que a descolonização foi uma tragédia. Foi uma tragédia a maneira como a descolonização acabou por se realizar. Tal como a colonização o foi. Os dois aspectos estão ligados.
Não assumo a responsabilidade do que hoje lá se vive. Isso tem a ver com os movimentos e os seus líderes.
Assumo a responsabilidade das negociações para a descolonização não terem sido conduzidas de modo a evitar situações, que acabaram por “descambar" naquilo que hoje existe nos ex-territórios portugueses africanos (..).»
«De facto, como afirmou Manuel Monge, a descolonização “foi feita na defesa dos interesses políticos e estratégicos da União Soviética, dos seus aliados e dos seus movimentos no terreno. Foi contra os interesses permanentes de Portugal, dos portugueses residentes em territórios sob a nossa administração e contra os interesses das suas populações”.»(p. 276)

«Prova-o a inequívoca intervenção das forças internacionais no pseudo-revolucionário processo de Abril, desencadeado com o objectivo de nos impor o vergonhoso abandono dos territórios africanos, onde, além de termos causado o caos e a destruição, fomos co-responsáveis pela morte de milhares de pessoas.
E ainda há quem despudoradamente afirme que a revolução de Abril foi uma revolução sem sangue.» (p. 334)

Coronel Pára-quedista Sigfredo Costa Campos

7.9.08

Leitura semanal

A Cidade do Sossego
O Soldado Desconhecido
Não há festa como esta!

Alma Pátria-Pátria Alma
Eles andam aí

Caceteiro
Não fui eu que disse!

Claras, o contestário
Maria Estefânia Anacoreta

Demokratia
O preço das amplas liberdades (2)

Legião Vertical
Acerca da Fidelidade

Manlius
...Se não souberes porquê, "eles" sabem
Resista, Fique!
Rodrigo Emílio e Maurras
Fernando Pessoa
E não se enganou nos seus vaticínios

Nova Frente
Formação pedagógica de ladrões
A pocilha

Odisseia
Tropa de elite

Um homem das Cidades
Sionismo versus Bolchevismo - Uma batalha pela alma do Povo Judeu
O Hamas é uma criação da Mossad e está ao serviço de Israel

O 7 de Setembro visto por Rui de Castilho

«Em Lourenço Marques era a velada de armas. Os dias que se iam seguir, seriam o ruir de todas as últimas esperanças, a inimaginável matança, a selvajaria completa, brutal inesperada. Brancos de pele pintada de negro iriam pelo Caniço explorar os mais baixos instintos da populaça; hordas de negros drogados, bêbados, excitados, iriam massacrar mulheres e crianças, capitaneados por uma Frelimo exultante; dos militares, emparedados na perplexidade, entre os seus compatriotas de raça e de cultura a caírem mortos ao lado e as ordens de Lisboa de subjugar, esmagar, os “revoltosos”, não houve resposta.
Ou só houve a simbólica, dos poucos que destruíram as próprias armas, carregadas de balas simuladas, impotentes ante o genocídio.
Os moçambicanos pagariam demasiado caro, ao preço do horror, uma certa leviandade a tratar com aqueles que os defenderam durante mais de dez anos.
À esquerda, o sol mergulhou finalmente, no oceano, deixando uma fugaz mancha rubra, ainda e sempre num reforçar de augúrios, como um lago de sangue, que logo desapareceu.
Findava o dia sete de Setembro de 1974.
Pela primeira vez em quatrocentos e setenta e seis anos a Noite cobria o Império.»

In Rui de Castilho, O Capitão do Fim, Prefácio Lda, 2002, p. 474.

Relembrar 7 de Setembro por Carlos Branco

Recebi do meu amigo e camarada de há trinta anos, Carlos Branco, este testemunho vivencial do 7 de Setembro de 1974 em Moçambique.
***
«Quando chegou a Vila Pery a notícia de que havia ocorrido uma revolução/golpe de estado em Portugal, de um modo geral e ingenuamente os portugueses ali residentes acolheram-na com esperança. Depois de mais de uma década de guerra que sabíamos estar a ser deliberadamente perdida pensámos que o novo governo iria alterar estratégias no sentido de inverter o processo. Durante mais de 13 anos de guerra, assistimos a um facto: de vitória em vitória sobre os "turras" a área abrangida pela guerra, ao início confinada ao norte de Cabo Delgado e Niassa, tinha chegado depois a Tete, onde apenas o perímetro de Cabora Bassa era zona segura, e em 1974 o corredor da Beira, onde eu residia, era já zona de guerra, com ataques a quintas, camionetas de passageiros, comboios, automotoras e automóveis particulares. Havia uma explicação e era muito simples: em zona de guerra, a chamada "zona 100%", os oficiais do quadro recebiam o dobro do vencimento, à laia de subsídio de risco. Logo, quanto maior fosse a área afectada pelo conflito maior número de militares beneficiaria financeiramente. Podem tirar as vossas conclusões. Podem também perceber a esperança que o 25 de Abril levou aos portugueses em Moçambique. E curiosamente, estava Spínola no epicentro do terramoto político, eu próprio vi no aeroporto da Beira, que era anexo à Base Aérea 10 da FAP, um Boeing de carga a descarregar várias peças de artilharia e 2 F-86 Sabre (caças a jacto) desmontados que iriam reforçar o dispositivo militar regional.
Com o tempo e o crescente poder da esquerda no aparelho político as nossas esperanças foram goradas. As tropas portuguesas foram cedendo lugar aos guerrilheiros da frelimo em todo o território.
O sonho renasceu a 7 de Setembro de 1974, quando ao mesmo tempo em que políticos de segunda categoria entregavam em Lusaka e sem condições o poder a um bando de guerrilheiros maltrapilhos e derrotados, sem formação política e liderados por um boçal de nome Machel, um grupo de Portugueses cercavam e ocupavam o Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques. Durante algumas horas pensámos que poderíamos fazer surgir ali um modelo semelhante ao da Rodésia e com apoio da África do Sul. Enquanto em LM os nossos compatriotas ocupavam a estação de rádio, em Vila Pery eu e alguns amigos dirigimo-nos à emissora local, também do RCM, no sentido de o ocuparmos e nos solidarizarmos. Aí chegados deparámo-nos com um destacamento do exército português que controlava já o emissor.
Em poucas horas o sonho desfeito de um Moçambique que já tínhamos idealizado com base no modelo rodesiano de Ian Smith e aliado do Ocidente.
Até 1976, altura em que vim para a MINHA TERRA, corri perigo de vida por algumas vezes. Uma vez por não ter o BI, outra porque não identifiquei um piquete militar na estrada. De ambas as vezes tive AK-47 apontadas a mim a menos de dois metros. Por ter escrito no Diário de Moçambique críticas a Samora Machel enquanto político, tive o meu nome na lista negra da PIC (Polícia de Investigação Criminal) e apenas a protecção de um colega de trabalho que era informador deles evitou que eu fosse detido.
Mas o espaço temporal entre a Setembrada, nome que chamámos à tentativa falhada de tomada do poder de 7 de Setembro e ou Agosto de 1976, altura em que me libertei finalmente a asfixia do regime de Machel foi fértil em provações.
Durante todo esse tempo, que permaneci entre Vila Pery e a Beira, vi os meus amigos partirem um a um para Portugal. A mesa do café, a roda dos amigos foi-se esvaziando. O modus vivendi a que estávamos acostumados foi-se esboroando, foi-se adaptando a um ambiente em que dominava o medo. O 7 de Setembro teve como consequência o massacre de alguns portugueses, assassinados pela populaça sedenta de uma vingança que nem ela mesma compreendia bem. Um ódio artificialmente alimentado pela classe política dominante, quer em Moçambique quer em Portugal. Esse massacre foi escondido, bem como o massacre que ocorreu mais tarde, julgo que em Outubro.
Nessa altura estavam a minha Mãe e a minha Irmã em Lourenço Marques e testemunharam o terror que assolou os arredores da cidade, escapando por minutos a uma morte horrorosa, em que outros foram retalhados à catanada e à machadada, muitas mulheres violadas, portugueses empalados e castrados e pelo menos um caso de uma grávida assassinada a quem uma turba enfurecida abriu o ventre e esmagou o feto. Por essa altura, estando o exército Português em retirada e já desarmado, foi a própria Frelimo que restabeleceu a ordem. A minha Mãe e a minha Irmã, a caminho do aeroporto de Lourenço Marques, em coluna escoltada por militares portugueses e da Frelimo, viram vários automóveis incendiados ao longo das ruas. Dentro de alguns desses carros conseguiram distinguir corpos carbonizados, pois a turba incendiava as viaturas e em seguida cercava-as e com a ajuda de paus, chuços, catanas e machados impedia os ocupantes de fugir das chamas.
Tudo isto foi silenciado em Portugal, onde o regime propagandeava as virtudes do Acordo de Lusaka e as boas condições de vida dos Portugueses que haviam ficado em Moçambique. Em Janeiro de 1975, uma vez que eu tinha nascido em Moçambique foi-me dado o prazo de 6 meses para optar por uma nacionalidade: ou escolhia ser português ou moçambicano. Em Junho comuniquei a minha opção por ser Português e foi-me dado o prazo de 3 meses para abandonar o país. Caso permanecesse ali, no fim de Setembro seria detido e enviado para um "campo de reeducação".
Posso afirmar que quando no dia 23 de Agosto o avião que me trazia para Portugal descolou da Beira tive uma sensação indescritível de alívio.
Resta alguma nostalgia pela terra que me viu nascer e onde vivi quase até aos 22 anos. Mas tenho plena consciência de que Moçambique não é nem será nunca mais essa terra. Porque uma terra não é só o chão que se pisa, é também a sociedade civil que ali se construiu e que se destruiu de uma forma irreversível. Não sou dominado por uma nostalgia destrutiva e saudosista do tempo que passou.
Aqueles que vivem presos ao sonho de voltarem para África e reconstruírem aquele universo que passou, desenganem-se. Espera-os um mundo diferente, seja em Moçambique ou em Angola... e podem gostar ou não... mas é diferente.
Carlos Branco»

O 7 de Setembro visto por Rui Barandas

O drama dos brancos em Moçambique, começou com o acordo de Lusaka, ao qual Mário Soares presidiu e no qual foi assinado a entrega de Moçambique aos terroristas (assim eram conhecidos e tratados), algo que deixou toda uma população de milhares de brancos em estado de choque, causando um clima de pânico e de alarmismo jamais vividos naquele terrítório. Como podia ser? Então o 25 de Abril, com tantas promessas de Liberdade culminou nisto? Entregar Moçambique desta maneira sem garantias para os brancos, sem um referendo, sem nada? Repentinamente e espontaneamente milhares e milhares de brancos, tomaram conta das cidades incluindo a capital, Lourenço Marques.
Eu estava em Johannesburg e de manhã ao ligar para a bem conhecida estação sul-africana, emitida a partir do Rádio Clube de Lourenço Marques e conhecida como a LM RADIO, ouvi uma mensagem muito intrigante, algo como AQUI MOÇAMBIQUE LIVRE, VIVA MOÇAMBIQUE LIVRE, e depois vários discuros e ao mesmo tempo pediam ajuda ao governo sul-africano para o rápido fornecimento de armas. Estas mensagens eram dadas em Portugues e Inglês e eu de imediato telefonei ao Marques, um amigo da família, que tinha vindo de Lourenço Marques trabalhar para Rustembrug, numas minas de ouro perto de Johannesburg. Ele tinha dois filhos, a Eunice e o Orlando e ambos tinham casado com sul-africanos. O marido da Eunice tinha subido muito e trabalhava no governo central junto do Primeiro Ministro. O Marques, alarmado, contactou-o e deu-me o número dele, e quando falei com ele, eles em Pretória, já estavam informados do que se passava e ele garantiu-me que um cargueiro com toneladas de armamento estava para sair de Durban a qualquer momento e camiões da tropa sulafricansa, já estavam na fronteira com armamentos também. Ele era muito amigo dos portugueses e falava português. Entretanto os apelos continuavam e pediam que todos os portugueses e sul-africanos se deslocassem para Lourenço Marques, para ajudar, o que eu fiz de imediato. Quando cheguei a Lourenço Marques, não queria acreditar, era uma festa autêntica!
Milhares e milhares de brancos com as bandeiras de Portugal, corriam por todo o lado acenando e com o sinal de Vitória cumprimentavam-se uns aos outros. Ouvia-se constantemente insultos a Mário Soares e outros, e com os transistores ligados, ouvia-se o Hino Nacional constantemente e a canção "Grândola Vila Morena"!
Em Lisboa, Cunhal e o embaixador da União soviética uivavam de raiva, pois tinha que se parar com esta contra-revolução.
Entretanto chegou uma delegação de sul-africanos a Lourenço Marques, e lembro-me deles terem perguntado quem era o dirigente daquele levantamento e vários apresentaram-se como representantes de vários partidos políticos. Era uma grande confusão. Não havia nenhuma coesão nem ninguém se entendia. Eram os democratas, os Fico os Federalistas e os sul-africanos estavam estupefactos, pois não havia ninguém a liderar. Entretanto o governo de Lisboa, informou o governo sul-africano que ficasse de fora deste assunto interno de Portugal, pois correria o risco de uma confrontação internacional, com a intervenção de tropas portuguesas e não só e então os sul africanos estavam perante uma situação muito grave. Por um lado a desorganização dos brancos, e por outro as ameaças dos governantes de Portugal, pelo que ficaram em stand by. Em poucos dias, foi desmobilizado o levantamento, a tropa portuguesa armou os negros dos bairros periféricos do Maputo e outras cidades, e milhares de negros entraram pelas cidades a dentro munidos de catans e armas, fornecidas pela tropa portuguesa e chacinaram milhares de brancos.
Nunca na História de Portugal contemporâneo houve um genocídio desta envergadura perpretado por portugueses contra portugueses, nem por ninguém.
Milhares e milhares de brancos foram assassinados na maior das selvajarias. Só no Hospital Miguel Bombarda viam-se centenas e centenas de cadáveres, que com o calor, já deitavam um cheiro nauseabundo. Os negros por onde passavam matava tudo quanto era branco, até animais. A minha irmã que era analista naquele hospital, fugiu aterrorizada e ficou de tal maneira traumatizada que durante anos nem podia ouvir falar em Moçambique nem nada que se referisse à "independência" deste território. Os comunistas conseguiram os seus intentos e Moçambique que desde 1498 era território Português, passou a ser um satélite soviético, onde durante anos só se viam russos, alemães de Leste e cubanos.
O 7 de Setembro devia ser declarado como um Dia de Luto Nacional, só que os portugueses em Portugal, na sua maioria não sabem o que lá se passou. Nem nunca este sistema em que vivemos o deixará saber.

Rui Barandas

Livro: Os Dias do Fim de Ricardo Saavedra


«Apresentado como romance, Os Dias do Fim, do jornalista Ricardo de Saavedra (n. 1941), é uma reportagem sobre a descolonização de Moçambique, apoiada em factos, variada documentação, fontes jornalísticas e apontamentos diarísticos, mas não, como pretende o editor, uma obra de ficção literária. Publicado pela primeira vez em 1995, surge agora em edição revista.
(...) Montado sob a forma de diário, intercalando textos de maior fôlego com anexos sintéticos, Os Dias do Fim segue passo a passo os dias que vão de Abril a Outubro de 1974, detendo-se com particular minúcia na tentativa secessionista de 7 de Setembro. Com larga soma de detalhes, e abundante informação sobre os movimentos e partidos políticos (e seus líderes) que formaram a malograda coligação anti-Frelimo, é a parte menos interessante da obra. Não obstante, os quatro dias de ocupação do Rádio Clube de Moçambique, em Lourenço Marques (actual Maputo), bem como o controlo do aeroporto da cidade, são recuperados com precisão: a puerilidade de grande parte dos manifestantes, a esperança gorada em Spínola, os equívocos ideológicos, os choques de personalidade, o armamento sul-africano que não chegou e, last but not least, o acto falhado, nunca devidamente explicado, da omissão de Jorge Jardim. Como sabido, acabou em tragédia: milhares de mortos, êxodo de dezenas de milhares de brancos para a África do Sul (as fronteiras foram abertas), recidiva mais violenta em Outubro. O Anexo 6 faz uma síntese perturbadora dos dias de brasa que assolaram a periferia da cidade: «O dono de um talho aparece pendurado pelas costas num dos ganchos do próprio estabelecimento. Noutros açougues foram encontradas crianças [...]». Ricardo de Saavedra é autor de Aqui Moçambique Livre (1975), que não li, mas presumo seja a principal fonte no que ao 7 de Setembro respeita. O seu conhecimento dos meandros da política local permite-lhe traçar perfis consistentes dos líderes negros que se opuseram à doutrina do partido único, casos de Joana Simeão, Uria Simango, Lázaro Kavandame, Miguel Morrupa e outros. Neste e noutros aspectos, a falta de índice remissivo constitui óbice flagrante.
Escrito num estilo enxuto, sem grande adjectivação, e mantendo a cadência adequada, Os Dias do Fim dão testemunho de um período concreto da história de Moçambique, com referências bem fundamentadas a alguns dos episódios (e personalidades) que precipitaram a borrasca imperial.

In jornal Público, A borrasca imperial, in Ípsilon, 25-7-2008, pp. 34-35.»

Ricardo Saavedra ou o 7 de Setembro por mão-própria

«Como observa, e com inteira pertinência, o nosso autor de hoje: se o General Spínola não existisse, talvez razão não houvesse — não havia, seguramente, razão alguma — para que este livro se tivesse escrito. Simplesmente, acontece que Spínola existiu mesmo, e — ai de nós! — com ele e a par dele existiu, também e sobretudo, esse abundante viveiro de renegados, que o mesmo Spínola foi deixando criar à sua volta, por pura imbecilidade. Adiante.
Da África do Sul nos chega este livro, já hoje em 5.ª edição. E bem pode dizer-se que o mesmo é natural de Joanesburgo, uma vez que foi lá que Saavedra — ou o exilado que quiseram que ele seja — o escreveu e publicou. A primeira tiragem do trabalho data de há mais de um ano e esgotou-se logo em dois dias, ficando a constituir o maior best-seller de expressão portuguesa até hoje editado no continente africano.
Da reportagem se trata, e empolgante. E nem o facto de ser conduzida em bases e em termos preponderantemente emocionais — com a descarga dos nervos a sentir-se sempre à flor da pele da narrativa —, nem isso chega para molestar a objectividade desta, que é da ordem dos cem-por-cento. Assim, toda e qualquer semelhança de figuras ou factos focados no livro com personagens e ocorrências verídicas está longe de ser mera coincidência.
De facto, tudo o que por aqui se relata desgraçadamente aconteceu em coordenadas de tempo e espaço bastante precisas. Saavedra transporta-nos a Moçambique e ao dia 7 do mês de Setembro de 1974, para nos contar a história maravilhosa — e também indecorosa — do que foi, minuto a minuto, o dia mais longo de toda a existência de Portugal no Índico. Afinal, o dia para sempre inapagável, em que uma população inteira, no limite do insulto que estava prestes a receber em rosto, e com o jugo do cativeiro mais selvagíneo que conceber se possa quase a assentar-lhe em cheio na cerviz, opôs o seu veto sagrado à operação-bandeja pela qual estavam a almoedá-la a essas horas — e se alevantou em peso contra o latrocínio diplomático de cinco safados, especializados em tramar «conversações secretas, em locais esconsos, sem resultados conhecidos».
Se a população concorda ou não concorda, não é da sua conta: é aguentar e calar. Só que Moçambique não aguentou nem calou, quando, «na corrida da melhor oferta, ministros de feira, disfarçados em vendilhões, percorrem o mundo, em segredo ou às escâncaras, e vendem os Guineenses em Argel e os Moçambicanos em Lusaka» — mais tarde, Alvor, será a vez dos Angolanos — «como quem negoceia porcos bastardos de quinta alentejana. Vendem, contudo, ao pior preço e ao pior comprador. Daí que os feirantes de Lisboa» — conclui Saavedra — «entreguem a mercadoria, pelo preço do sangue, aos terroristas (...)». No caso vertente, seria a Frelimo a grande contemplada. Talvez, atendendo a que se fartou de dar tiro e matou gente à brava!...
Foi isto a 7 de Setembro de 74. O dia, afinal, em que um povo unido acabou por ser vendido pelo preço do sangue ao seu pior inimigo, arrostando, ainda por cima, com o criminoso indiferentismo ou com a sonsa cumplicidade, quando não com a bestialidade expressa e declarada, de todas as fardas da traição estacionadas no território às ordens do M.F.A. Revela, a propósito, Ricardo de Saavedra, já então aquartelado à sombra de Rádio Moçambique Livre, onde foi dos primeiros a aparecer e dos últimos a sair: «internamente, palpa-se a traição vinda do exterior. Um oficial do Exército diz-nos sem titubeios: Nada vos resta. O Movimento (de Moçambique Livre-M.M.L.) confiou na palavra dos meus camaradas. Mas quase todos eles têm os olhos postos na Metrópole, no regresso aos apartamentos que, graças às comissões no Ultramar, foram adquirindo. Além disso, é lá que desejam assegurar os seus lugares. Estão vendidos. O Exército (...) recusa conscientemente a última oportunidade de sair desta guerra com honra! «Este oficial» — escusado será dizê-lo — «foi dias depois passado à situação de reserva». Compulsivamente, está claro.
Todo o processo da degradação histórica de Portugal em África, que tivera início com o mapa cor-de-rosa, veio seguindo o seu curso inelutável; e, a 7 de Setembro de 1974, desaguou num mapa cor-de-sangue, consumado à razão de cem-mortos-à-hora! E o que ficou, no fim de todo aquele «arraial, arraial, por Portugal», que há dois anos se viveu em Moçambique, desde Mocímboa do Rovuma até à Ponte do Ouro, foi um sem-número de cidades lavadas em lágrimas e uma província inteirinha de luto pesado... com muita da tropa expedicionária paradinha a ver, e ali a assistir, impassível e negligente, a toda a aquela hecatombe humana, a todo aquele hediondo espectáculo de atrocidades sobre atrocidades... Mas, do que foi mesmo o comportamento da generalidade dos militares portugueses, nos passos mais dolorosos da paixão de Moçambique como terra lusíada, diz bem, e só por si, a nota de «Agradecimento e Justificação» que pode ler-se logo no átrio da obra. Reza assim: «O editor e autor deste livro desejam esclarecer os leitores de que, apesar de todos os esforços desenvolvidos, não conseguiram obter na África do Sul computadores programados com tis e cedilhas. (...) Daí resulta que, se por mero acaso, aparecer qualquer expressão onde se leia “As Forcas Armadas fizeram isto ou aquilo”, se deve interpretar, por muito lógica que a expressão pareça, Forças e não Forcas»
Ora, sucede que enquanto as gentes de Moçambique assim lançavam publicamente para as actas da História o seu protesto lancinante, algures, num fojo da Zâmbia, cinco carrascos de chancelaria passavam por cima da vontade delas. À mesa do convénio, só teoricamente se pode aceitar que houvesse portugueses: no fundo, e em termos práticos, tudo minha gente ali assinou pelo lado da Frelimo. E, uma vez fechado o negócio, eis que «Samora Machel, o novo Presidente (...) sintoniza o Rádio Club de Moçambique, para escuta as aclamações previsíveis». Pessoalmente, dava bom dinheiro — palavrinha que dava! — para ter assistido à cena que se seguiu: «Samora irrompeu na sala das sessões, onde se encontravam ainda os portugueses, como um furacão. Aos berros de «traidores, traidores», declara que mandava prender todos os delegados do Governo de Lisboa e que possuía soldados, milhares de soldados, nos cinturões das principais cidades de Moçambique, prontos a atacar. Perante o espanto dos portugueses, foi explicada a situação. O major Melo Antunes, ali presente, não hesitou em pedir protecção pessoal ao senhor presidente da Frelimo, garantindo que também eles haviam sido traídos».
Os leitores já imaginaram bem o que é o Melo Antunes com cara de Melo atónito?!...
Até por isso, o 7 de Setembro valeu a pena. Até por isso, meu velho Ricardo...


Rodrigo Emílio»
In A Rua, n.º 34, pág. 21, 25.11.1976.

Livros sobre o 7 de Setembro de 1974 em Moçambique


Edições A Rua. 1977. 256 páginas.



Livraria Moderna. África do Sul. 1975. 162 páginas

Casa das Letras. Lisboa. 2.ª edição. 2008. 420 páginas

6.9.08

A Vida privada de Salazar em causa

A série televisiva "A Vida privada de Salazar" a ser preparada pela SIC e que terá como actriz principal a Soraia Chaves, corre o risco de ser impedida de exibição porque Felícia Cabrita acha que tem direito de propriedade intelectual sobre a série por esta se basear num livro delirante que escreveu sobre Salazar.
Espero que Cabrita resolva esta questão com a SIC e com a produtora recebendo uns euritos extra e nos deixe ver a série em paz e em sossego com a Soraia Chaves.
Esperemos que não haja censura nem que isto seja um acto ciumento em relação à Soraia Chaves. Isso nunca!
Quem manda, quem manda, quem manda?
Salazar, Salazar, Salazar!
Quem vive, quem vive, quem vive?
Soraia Chaves, Soraia Chaves, Soraia Chaves!

O que anda a ASAE a fazer?

É sabido que a ASAE foi ao Palácio de S. Bento fechar a cozinha do refeitório.
Será que a ASAE quer pôr os deputados a pão de pedir ou está a proceder a alguma protecção alimentar dos deputados, tipo dieta ou operação coração para emagrecimento dos mesmos.
Intrigante é que a secretária-geral do Parlamento, Adelina Sá Carvalho, afirmou que "as torneiras devem abrir sem ser accionadas pelas mãos." Será que está em marcha alguma operação mãos limpas? Se os deputados não podem tocar nas torneiras...
Sabido é que a ASAE foi à festarola do Avante, no Seixal, e por lá deve ter andado à coca junto dos produtos regionais como aqueles que são ofertados através dos colombianos. Para já, exigiu que os restaurantes aumentassem o espaço.
Quem já garantiu presença e sem pagar bilhete foi a
Entidade das Contas e Financiamentos Políticos porque a lei do financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais fixa um limite de receitas para este tipo de actividades, que este ano é de mais de 600 mil euros e lá vai verificar as continhas do partido dos trabalhadores, operários e camponeses que não se coaduna com uma receita deste valor.
Confesso que estou desiludido com a ASAE porque sempre pensei que iria fechar o Parlamento mas ficou-se pela cozinha do refeitório!
Mas aquela história das torneiras faz-me cá uma... comichão!

5.9.08

O caso Wissemann por Alfredo Pimenta e Salazar

«Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: - chega-me neste momento a notícia da tragédia desta noite – o suicídio do Sr. Wissemann que a Polícia inglesa descobriu.
Não se trata de comentar o sucesso, nem é para isso que me dirijo a V.ª Ex.ª. Venho apelar para os seus sentimentos de piedade cristã, e pedir-lhe o favor de intervir para que o desventurado rapaz seja sepultado no Cemitério alemão. Parece-me que é escusado importunar mais V.ª Ex.ª Nós somos, no mundo, o único País onde nem tudo é perdido. É à sombra dessa circunstância que venho pedir isto a V.ª Ex.ª A não ser que os ingleses façam questão de levar o cadáver para a Alemanha e aí – o enforcarem!
Tudo isto é horrível. E eu peço a V.ª Ex.ª que me creia seu dedicado e grato
A.P.» (p. 278)
«DOUTOR ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR
PRESIDENTE DO CONSELHO DE MINISTROS
Recebi a carta de V.ª Ex.ª de 4.ª feira. Espero que não haverá dificuldades quanto ao enterramento de Wissemann. Com respeitosos cumprimentos.» (p. 278)

«Lisboa, 18 de Janeiro, Sábado
Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: - Começo por agradecer a V. Ex.ª a prontidão com que teve a bondade de responder à minha carta sobre o enterramento do sr. H. Wissemann. Efectivamente tudo correu como devia ser. Lá fui acompanhar o desventurado moço até à sua sepultura. Cerimónia de vencidos: silenciosa e fria; uma dúzia de pessoas entre portugueses e alemães. Mas não foi desacompanhado de algumas palavras minhas - palavras de português e de católico, de português que não abandona os perseguidos, e de católico que tem a coragem de rezar alto pelos mortos. Chamo a atenção de V. Ex.ª para o boato que corre de que o Dr. H. Wissemann foi assassinado pela Polícia. Segundo as informações que colhi, isso não é verdade; tentou suicidar-se com um tiro de pistola que se encravou. O agente deitou-lhe a mão; ele, brioso e nobre, não tolerou que as mãos da Polícia o prendessem, e sacudiu o agente. Este, então feriu-o na cabeça com a sua pistola. O Dr. Wissemann, com a cara ensanguentada, pediu que o deixassem ir ao quarto lavar o rosto. E então, tomou o comprimido de cianeto de potássio, e veio cair morto aos pés do agente. Isto é horrível. Assim me contaram o facto. Mas o boato de que assassinato corre, V.ª Ex.ª julgará se é melhor ou não esclarecer o que se passou. O que eu não queria era que se dissesse ou pudesse dizer que houve um alemão indefeso, sem Pátria, sem Governo que por ele fale foi assassinado por Polícia portuguesa.» (p. 279)

In "Salazar e Alfredo Pimenta - Correspondência, 1931-1950". Editorial Verbo. Lisboa. 2008, pp. 278/279.

Nota:
Surpreendentemente no livro faltam estas duas cartas do dossier Wissemann que fazem parte do espólio depositado no Arquivo Salazar na Torre do Tombo:

«Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: - tenha V. Ex.ª a bondade de desculpar. Mas talvez possa habilitar-me a responder à filha do Fernando Campos.
Se ele apresentar uma procuração da irmã do pobre Wissemann, a polícia entregar-me-á os livros, trabalhos que foram dele, que ela, polícia, apreendeu, quando se deu o (...)? V. Ex.ª que conhece muito melhor do que eu os (...) do caso, pode fazer-me o favor de me dizer alguma coisa a tal respeito?
Muito lho agradecia e de V. Ex.ª muito atenciosamente A . P.»

«Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: - devolvo a V.Ex.ª a informação que teve a bondade de me confiar, e de que dei conhecimento, ontem, à filha do Fernando Campos.
Com os meus melhores agradecimentos sou de V. Ex.ª muito grato. A . P.»

O caso capitão von Eycken por Alfredo Pimenta

«Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: - acabo de receber esta circular. E pelo telefone, informam-me de que o capitão von Eycken por quem pedi ontem a V. Ex.ª já não está em Caxias, por ter sido transferido para o Hospital de Aljube - tão grave é o seu estado de saúde. Não compreendo isto: a Cruz Vermelha pede esmolas para os necessitados da Alemanha e para os prisioneiros de guerra alemães; a polícia portuguesa deita a mão aos desgraçados alemães, mete-os em calabouços ou em presídios, alegando que eles estão indocumentados. Tenha V. Ex.ª a bondade de tomar sob o seu cuidado este caso do capitão von Eycken. Em Nuremberga, já se proclama (Diário de Notícias de ontem) a ilegalidade dos maquis, e a legitimidade das represálias. Ainda se há-de confessar um dia que a noção dos «criminosos de guerra» foi um crime abominável…
Tudo muda! Não fiquemos nós, portugueses, com a consciência em desassossego, por termos contribuído para mortes violentas, para sofrimentos que levam à morte, e outras tristezas …
Desculpe V. Ex.ª mas em defesa dos desgraçados perseguidos - nada me contém.
De V. Ex.ª com toda a consideração muito grato
A . P.»(p.331)

«Foram, pelo menos, três as cartas que escrevi a V. Ex.ª e não tiveram resposta. Tratavam do caso do capitão von Eycken, e eram acompanhadas de duas cartas dirigidas à pessoa que solicitou a intervenção junto de V. Ex.ª. »(p.337)

In "Salazar e Alfredo Pimenta - Correspondência, 1931-1950". Editorial Verbo. Lisboa. 2008, pp. 331/337.

Nota: Estranhamente no livro faltam estas duas cartas do dossier Von Eycken que fazem parte do espólio depositado no Arquivo Salazar da Torre do Tombo:

«Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: - devo resposta à última carta de V. Ex.ª que muito me impressionou. Mas preocupações, falta de saúde e muito trabalho têm-me levado a adiá-la, e ainda não é hoje que a envio.
Outro assunto me traz à presença de V. Ex.ª, doloroso, angustioso e que exige remédio urgente. Entregaram-me essa carta. É de um antigo oficial do Exército alemão, prisioneiro. Conseguiu fugir, e entrar indocumentado, é claro, em Portugal. A polícia deitou-lhe a mão, e tem-no em Caxias. O fim desse desgraçado é ir para a Argentina onde tem trabalho garantido. Mas preso nada pode fazer. A que título o tem a polícia em Caxias? Ou nos seus calabouços?
Estão-se a fazer coisas horríveis em Portugal. O antigo adido naval alemão em Lisboa, que nós entregámos aos senhores do mundo morreu, há um mês, em Hamburgo, vítima dos sofrimentos infligidos. V. Ex.ª não leu o anúncio dessa morte no Diário de Notícias?
Há no mundo uma onda de Barbárie, Ódio e Desumanidade que revolta as consciências mais serenas.
Não sejamos mais solidários com essa onda. Tenha V. Ex.ª a bondade de intervir a favor do capitão von Eycken, que fugiu para aqui, como fugiram milhares de outros desgraçados, sem que ninguém os incomodasse. Este estava muito sossegado numa Quinta do Alentejo, sem fazer mal a ninguém. Ali o foi arrancar a polícia. Porquê? A que denúncias sinistras obedece ela?
Tenha V. Ex.ª a generosidade de mandar por em liberdade esta vítima da Vitória. Dê V. Ex.ª esse prazer ao que é de V. Ex.ª muito e muito agradecido e amigo inútil. A . P.»

«Ex.mo Sr. Presidente do Conselho: escrevo a V. Ex. ª profundamente impressionado.
O capitão von Eycken está no Hospital de S. José, por se ter tentado suicidar, esfaqueando-se. Estas coisas não são para os meus nervos nem para o meu coração. É possível que sejam para a polícia portuguesa. Certamente o não são para V. Ex.ª. Tenha a bondade de dar as suas providências. Já não sou eu quem lhe pede. É a piedade humana.
De V. Ex.ª com toda a consideração muito atenciosamente A . P.»

4.9.08

O caso Schüppel por Alfredo Pimenta e Salazar

"Ex.mo Sr. Presidente do Conselho : - peço a V. Ex.ª a fineza de ter a bondade de prestar a sua atenção a este caso, esclarecendo-me convenientemente.
O Sr. Schüppel, professor do colégio alemão, hoje encerrado, e dirigente das Juventudes hitlerianas em Portugal, hoje desfeitas, recebeu esses dois papéis, em que não só ele próprio, mas a mulher e duas filhinhas, a mais nova, doente - são intimidados a embarcar para a Alemanha no dia 2 do Março próximo - sob pena de "sanções por desobediência às autoridades".
Como V. Ex.ª teve, em tempos a gentileza de me dizer que só seriam obrigados a sair de Portugal, os criminosos de guerra, os criminosos comuns e os alemães que perturbassem a ordem pública, e como o Sr. Schüppel que está em Portugal desde 1936, não pertence a nenhuma dessas categorias, e muito menos sua mulher e as duas filhinhas - creio que se não deve tomar à letra o formulário da intimidação policial. Assim, disse ao Sr. Schüppel que se deixasse estar quieto e continuasse a fazer a sua vida pacífica - enquanto eu não lhe dissesse o contrário.
Venho pedir a V. Ex.ª a fineza, que, no caso, é quase caridade, de me autorizar a manter o conselho que dei, ou de me desautorizar, se tem razões para isso. É horrível a hora que se atravessa!
De V. Ex.ª muito atenciosamente grato
Alfredo Pimenta"

"PRESIDÊNCIA DO CONSELHO
GABINETE DO PRESIDENTE

Lisboa, 22 de Fevereiro de 1946

Ex.mo Senhor
Dr. Alfredo Pimenta
Rua Pinheiro Chagas, 16 – 1.º
Lisboa

Com os melhores cumprimentos e por incumbência do Senhor Presidente do Conselho venho comunicar a V. Ex.ª que estão sendo feitas todas as diligência para manter decisões tomadas anteriormente quanto aos súbditos alemães residentes em Portugal.
Tem-se boa esperança de que ao menos se possa conseguir a permanência em Portugal de senhoras e crianças, no caso de não ser possível levar mais longe a protecção do Governo Português às pessoas que estão em tais condições.
Tomo a liberdade de devolver a V. Ex.ª os papéis que dizem respeito ao Senhor Schüppel e de dizer-lhe que conveniente seria que este mesmo senhor procurasse mais pormenorizadas informações na Direcção-Geral dos Negócios Políticos do Ministério dos Estrangeiros.
De V. Ex.ª Muito At.ª Ven.or e Obrig.
O chefe do gabinete,
J. Manuel da Costa"

In "Salazar e Alfredo Pimenta - Correspondência, 1931-1950". Editorial Verbo. Lisboa. 2008, p.248.

Alfredo Pimenta e a Comissão de Controlo Ali(en)ada

«Exmo. Sr. Presidente do Conselho: - recebi ontem essa carta que é, a todas as luzes, horrivelmente trágica. Porque em verdade chamar para a Alemanha que está a morrer de fome, e vai morrer de frio, quem está fora dela, é a última das infâmias.
Só peço a V. Ex.ª a fineza de me esclarecer sobre este ponto: que acontece, em relação ao Governo Português, a quem desobedecer à famosa Allied Control Council? Tem esta associação de malfeitores poderes sobre a polícia portuguesa, de modo a ordenar-lhe que prenda e entregue algemado e indefeso quem lhe desobedecer para não ir morrer com a sua mulher e os seus filhos? Também as crianças são criminosos de guerra?

Tenha-me V. Ex.ª por seu muito grato at.º vem.or
Alfredo Pimenta

Carta manuscrita do Sr. Walter Leucht, datada de 15.10.1945.»

In "Salazar e Alfredo Pimenta - Correspondência, 1931-1950". Editorial Verbo. Lisboa. 2008, p. 227.

3.9.08

Alfredo Pimenta e o julgamento/farsa de Nuremberga

«O que se tem passado e o que se está a passar em Nuremberga, com os chamados criminosos de guerra ofende louvar que nós fizéssemos uma afirmação de caridade católica e de dignidade humana? E se o governo português prestou serviços às Democracias, serviços de que até a Rússia Soviética beneficiou, não podia ele, em nome desses serviços estender a sua mão protectora sobre aqueles desgraçados que só têm culpa de terem sido vencidos?
É possível que, infelizmente, V. Ex.ª nada possa fazer. Mas estou certo de que me acompanha no sentimento de horror que Nuremberga desperta no meu coração.»(p. 270)
«Quotidianamente, na imprensa portuguesa, das grandes cidades e das terras mais pequenas, se atiram punhados de lama, injúrias sem nome, calúnias repugnantes, as maiores infâmias sobre as memórias de Hitler, e Mussolini, e os desgraçados supliciados de Nuremberga.»(p. 292)

In "Salazar e Alfredo Pimenta - Correspondência, 1931-1950". Editorial Verbo. Lisboa. 2008.

2.9.08

Marcello Caetano visto por Alfredo Pimenta

“O Governo não é forte. Só o é, enquanto V. Ex.ª estiver à frente dele. Faça V. Ex.ª a experiência. Afaste-se, e ponha na Presidência o Sr. Marcelo Caetano que, pelo visto, se sente com asas para voar. Ele voará, - mas nós vamos todos para o fundo. A estabilidade da chefatura do Estado não está garantida. Tudo o que se tem feito é artificial. Entende V. Ex.ª que Portugal encontrou «uma linha conveniente de pensamento e acção política assente em segura experiência». Ilusão que pode ser-nos fatal. O que é a experiência de vinte anos diante da experiência de oito séculos? Esta experiência de oito séculos obriga os governantes da estatura de V. Ex.ª a procurar a solução do nosso problema nas directrizes tradicionais da Nação.” (p. 267)

“O homem da rua espalha esbaforidamente que V. Ex.ª deixa a pasta do Estrangeiro, e cria a Vice-presidência , que confiará ao Sr. Marcelo Caetano, chefe do novo M. R. P. = Movimento Revivalhista Português. É verdade? Então - se eu pudesse, emigrava prudentemente para Havana, porque é indiscutível que Deus nos abandonou… E há vinte anos que eu confio, e prego a confiança em V. Ex.ª!” (p. 283)

“Já lhe têm chegado aos ouvidos que há grandes esperanças no Sr. Marcelo Caetano? Compreende V.ª Ex.ª o que isto significa? Insisto. Não acrescente V.ª Ex.ª aos becos sem saída da Mocidade Portuguesa (pobre mocidade portuguesa!) e da Legião Portuguesa, o beco sem saída da União Nacional.” (pp. 288/289)

“Há três dias, o homem da rua veio visitar-me, e dar-me as seguintes novas:
- o marechal Carmona não será o candidato à Presidência da República, porque no Governo há uma grande corrente que quer que seja V. Ex.ª o futuro Presidente;
- nesta hipótese, iria para Presidente do Conselho, o Marcelo Caetano.
V. Ex.ª conhece, creio eu, a minha posição, no caso. É-me indiferente que a Presidência da República fique no Sr. Carmona ou noutro qualquer, porque não me compete escolher Presidentes da República, dada a minha doutrina política. Mas não me é indiferente que V. Ex.ª deixe a única função compatível com as qualidades com que Deus o dotou - a de presidente do Conselho.
V. Ex.ª, na Presidência da República, inutiliza-se, e vai cair em beco sem saída. E se em cima dessa desgraça, temos outra, a da Presidência do Conselho nas mãos do snr. Marcelo Caetano - está tudo perdido.
O Sr. Marcelo Caetano foi nado, fadado e criado para ser o Kerenski da situação actual, - se lhe confiarem o governo. As suas relações de família, a sua política equívoca, mestiça, furta-cores - para não dizer camaleónica; o seu feitio odiento de parvoíce, - tudo isso o contra indica para ser o substituto de V. Ex.ª. V. Ex.ª não me pediu conselhos, nem, com certeza, me considera digno de lhos dar. Mas pela consideração que tenho por V. Ex.ª, pela confiança que me conquistou o seu proceder, devo dizer-lhe o que penso, e preveni-lo do que se me afigura fatal. E não me tenho enganado muito nos meus vaticínios pessimistas.
Deixe-se V. Ex.ª estar onde está - que é o seu verdadeiro lugar supremo da governação. V. Ex.ª tem, dentro da situação, muitos inimigos; os piores são os que estão a trabalhar para o colocar na Chefia do Estado. Era isto o que eu, há dias, ando para dizer a V. Ex.ª, e só hoje muito triste o faço.” (p. 361)

“Ex.mo Sr. Presidente do Conselho : - tenho, porque os arranjei, nos momentos livres, para poder escrever a V. Ex.ª uma daquelas minhas cartas em que discorro sobre a coisa pública.
Já ontem quis fazê-lo - quando li a notícia da demissão da Comissão executiva da União Nacional, eufemismo que encobre o nome de Marcelo Caetano. O homem da rua - eufemismo, também, na minha pessoa - conta-me que foi V. Ex.ª quem muito deliberadamente pôs S.ª Ex.ª na rua, pelo que muito me felicito, verificando simultaneamente que de nada servirão as andanças do Celestino da Costa, por Coimbra e pelo Porto, a tentar levar os catedráticos a solidarem-se com o artigo do Marcelo Caetano - que foi a gota de água, ao que parece, segundo o homem da rua, que fez transbordar o copo da paciência de V. Ex.ª.
Já V. Ex.ª sabe que nunca tive confiança nesse homem, de que comecei a perceber que era uma criatura sem sinceridade, à procura de todos os meios que o levassem a satisfazer a vaidade, a ambição, o sentimento mesquinho de arrivismo que o caracteriza. É um segundo Botelho Moniz… E dizendo isto, está dito tudo. Calcule V. Ex.ª que o homem da rua, dias antes da sua demissão, me segredava que ele se preparava para ir ocupar a pasta da Educação Nacional! Fui buscar o guarda-chuva, para fazer frente ao possível novo aguaceiro…” (pp. 380/381)

In "Salazar e Alfredo Pimenta - Correspondência, 1931-1950". Editorial Verbo. Lisboa. 2008.

1.9.08

Livro: Salazar e Alfredo Pimenta – Correspondência, 1931-1950

"Salazar e Alfredo Pimenta – Correspondência, 1931-1950" foi editado pela Editorial Verbo no passado mês de Julho. Volume de 440 páginas, com um prefácio do Prof. Dr. Manuel Braga da Cruz, com toda a correspondência entre estes dois vultos cumeeiros das Inteligência e Política portuguesas.
Já o Dr. João Barroso da Fonte no seu livro “Alfredo Pimenta – da praxis libertária à doutrinação nacionalista”, dado à estampa pela Editora Cidade Berço, em 2005 havia feito referência n`”Uma explicação necessária” à edição da epistolografia entre Alfredo Pimenta e Salazar.

Quer eu quer o Manlius havíamos referenciado a publicação deste livro.
Três anos depois, temos à disposição de todos os que se interessem por esta matéria este extraordinário volume que apenas peca por uma deficiente revisão. Dele ressaltam, logo e à partida, a profunda e sincera amizade e o altíssimo respeito entre ambos.
Salientem-se os diversos alertas do escritor vimaranense para Salazar sobre o momento político-cultural que se viveu nesse período da vida portuguesa, muito principalmente, no que dizia respeito a Marcello Caetano e aos ventos da história, dos quais farei referências em próximos postais.