11.9.07

Nazis, versão kosher

Bem me queria parecer que haviam nazis-nazis e nazis kosher. Isto é, toda a gente sabe que os nazis eram aqueles goym criminosos, de preferência alemães. Ora, com a II Guerra Mundial o nacional-socialismo ultrapassou as fronteiras alemães e um pouco por toda Europa apareceram nacionais-socialistas. Supostamente, com a derrota militar da Guerra Europeia de 1939-1945 os nazis deveriam ter sido todos mortos e os que não o foram ainda sofreram os horrores da desnazificação.
E agora surgem os nazis kosher em Israel, com a cidadania israelita dada a diáspora judaica pelo mundo. Então, não é que um grupo de oito russos com direito à cidadania israelita - devido à Lei do Retorno - andavam a praticar actos anti-semitas em Israel? Resultado: foram presos e vão ser condenados pela prática de actos anti-semitas o que não deixa de ser engraçado como um grupo de judeus russos andarem em Israel a pintar a manta, quero dizer, a pintar paredes com cruzes suásticas! Por outras palavras, a preparar um mini-holocausto na Terra Prometida!
Estou certo que Hitler estará estupefacto com esta inovação neonazi! O que diriam Goebbels e Goering?!
Sempre disse que os nazis não deviam confiar nos neonazis. Como vêem não são de confiança!
P.S - Será que estes nazis kosher são descendentes de sobreviventes do holocausto?

9.9.07

5.9.07

Pensamento de Lima de Freitas

«Nunca foi tão sinistra a idiotização das gentes! Vivo numa prisão de malfeitores, num asilo de imbecis, numa cloaca moral, num país esvaziado de substância ética ao qual foram extraídos os nervos da civilização (no sentido que Almada dava à palavra), da religião e da tradição (na face luminosa do termo) – ou se nem todos foram extraídos ainda, é possível que o sejam num futuro curo. A imprensa, a rádio, a televisão, os discursos políticos, a literatura que se publica, a arte que se faz, as aspirações que se proclamam, as “verdades” que se declaram fazem estremecer: e não só o gás letal da branda ou desesperada idiotia se espalha sobre Portugal como é visível haver outras toalhas, não menos tóxicas, cobrindo áreas cada vez maiores do mundo. Creio que “os tempos estão próximos” – e “ei-los já!” Mas ao invés da catástrofe colossal, do cometa de fogo, do incêndio radioactivo que se teme, é provável que o fim seja brando, estúpido, baço, como um doente que se esvai e desmaia e se afunda na cegueira, na incompreensão, na inconsciência. Em todo o caso, esta “civilização” não pode acabar de modo grande! A sua morte terá de se parecer com a sua face – terá de ser mesquinha, medíocre, opaca.
Poderá Portugal sobreviver, como os pacientes da lobotomia, sem cérebro? Mais valerá morrer. Esta vida vegetativa – só pança, só dinheiro, só grossas materialidades, bruta e sem nexo, provoca a náusea. Como os homens são feios!
Penso que D. Sebastião escolheu desaparecer, porque algum profeta lhe anunciou o que seria o Portugal do século XX.
Mas não será essa a lição dos tempos: precisamente que nada há a esperar do que é estritamente, baixamente humano? E então Portugal é o lugar privilegiado: a cloaca, o ânus do Ocidente, morte afinal muito próxima do lugar da ressurreição. Ser português é estar exilado no próprio país, é pois conhecer o estranhamento de tudo, o alheamento último de todos os sonâmbulos que me rodeiam e saber que na extremidade da degradação, de degrau, poderá estar a primeira vértebra da subida.»

11 de Janeiro de 1985, Diário 19, pp. 163-164.

Post-Scriptum: Trecho do Diário de Lima de Freitas que a Ésquilo projecta publicar no âmbito da edição completa das obras de Lima de Freitas. Esperamos e desejamos que essa vontade editorial se cumpra em prol da Cultura portuguesa.
A imagem superior intitulada Estudo para D. Sebastião é um acrílico sobre madeira, realizado em 1987 e pertença do Museu Grão Vasco, Viseu.
A imagem inferior representa D. Sebastão: o Encoberto é um azulejo da Estação dos Caminhos de Ferro do Rossio, Lisboa, 1996.

3.9.07

Vamos repôr o nome à Ponte Salazar

Está em circulação através de Salazar, o obreiro da Pátria o abaixo-assinado:

«VAMOS REPÔR O NOME À PONTE SALAZAR
Meus amigos, vai sendo tempo de dizermos!

É urgente que as gerações não cresçam sobre a mentira;
se para si a verdade histórica é importante;
se o nome dos nossos maiores tem alguma importância histórica;
se a justiça é elemento importante e determinante;
se a verdade deve fazer parte de um Estado de Direito;
Então, lute pela verdade!
Preencha e devolva-nos o impresso.
Clique aqui»

Pela minha parte, subscrevo que nome de Salazar, o grande Português, seja reposto mesmo contra a vontade do mesmo que nunca quis que a Ponte fosse inaugurada com o seu nome.

Leitura semanal

Manlius:
Karl Wissemann - X
Karl Wissemann - XI
Ainda a propósito do MAN
Aí vamos longe, vamos...
Há coisas fantásticas, não há?
Hoy humo, mañana dinamita...
Ainda a propósito de Leocádio
Grande postal do Nova Frente
Servir o bezerro de ouro
Quer messe e missa cantada...
"Eles" estão desvairados

Nova Frente:
O mundo é pequeno

O Fogo da Vontade:
Aventuras maçónicas

Naus portuguesas

17.8.07

Poema de Rodrigo Emílio: S.O.Hess


«S. O. HESS»

Começa a haver nos teus desenhos
de prisão
— como calculas, tenho-os
aqui à mão —
a prece
de quem padece,
cada vez mais em maior grau...;
e uma espécie de S.O.S.
que me não parece
mau
enquanto dure e não cesse
o martírio que conhece
`inda agora Rudolf Hess,
nas masmorras de Spandau.

Rodrigo Emílio
In «Último Reduto», n. 8, Ano VI, Maio de 1988.

Pensamentos de Rudolf Hess

Creio firmemente na influência de poderes misteriosos… mas creio com idêntica convicção que, apesar deles ou melhor, actuando juntamente com eles — a vontade humana transforma-se em acção.

Preocupa-te em dominar a existência com o mesmo impulso férreo que é necessário para dominar a montada por uma pressão de joelhos. É possível que encontres dificuldades nisso e que a existência se encabrite como um cavalo voluntarioso… Mas a tua vontade poderá sempre mais, por pouco que te esforces.

Suportar a dor é difícil, mas viver sem dor significa, por outro lado, a eliminação do estímulo e, por falta da lei dos contrastes, igualmente a falta de alegria quando se alcançam os objectivos propostos.

Não pensar absolutamente nada, deixar-se levar pelos acontecimentos, é coisa que não consigo compreender.

Diante do que faz carreira está aquele que deve tudo ao seu carácter ascendente. Cumpre o seu dever sem parar a pensar no resultado que isso terá na sua carreira. Também pode cultivar a sociedade, se assim o deseja… mas nunca com o pensamento posto na carreira, antes e em primeiro lugar naquilo que serve.

O espírito é a premissa de toda a matéria, sendo o acto criador a origem do ser em qualquer forma.

Fazei sempre o melhor para não terdes que mudar nunca… Pelo menos, no que se refere ao espírito.

O homem tropeça na sua investigação com fronteiras que não são investigáveis, ou melhor dizendo, que escapam a qualquer investigação e que continuarão a escapar, mesmo que se consigam levar as fronteiras mais para lá. E é precisamente aí que começa o choque com o desconhecido — eternamente desconhecido — espírito… Espírito, no sentido de uma força espiritual.

Hess: Em Memória do Herói Silenciado



«EM MEMÓRIA DO HERÓI SILENCIADO


A prisão, durante quase meio século, de Rudolf Hess, colaborador e, mesmo, delfim do Führer do III Reich alemão, cujo crime foi tentar negociar em Inglaterra uma paz honrosa para a Europa, demonstra bem a ferocidade dos vencedores da II Guerra Mundial.
Voou, sozinho, em plena guerra, para a Grã-Bretanha, onde tinha amigos e era aguardado, com esperança, por algumas grandes figuras locais, para tentar um entendimento europeu. Não estava convencido de que a liquidação, sofismada, do rei Eduardo VIII era — como foi — o indício da completa vitória dos partidários da guerra, simbolizados por Winston Churchill, o qual findo o conflito, perante muitos milhões de mortos, foi capaz de escrever: «We have killed the wrong pig», referindo-se ao Chanceler Adolf Hitler. Recebeu, evidentemente, o prémio Nobel...
A recente morte de Hess, legendário protagonista de um importante acontecimento, apresentada falsamente — como suicídio, não conseguiu os intentos de diminuir a sua grande figura. Não a poderão apagar da História. E o verdadeiro condicionalismo da sua viagem a Inglaterra, bem como as circunstâncias da sua morte, acabarão por ser conhecidos um dia.
Quisemos trazer, aqui, hoje, algumas poucas palavras de homenagem à memória do Herói, duplamente silenciado — pela prisão e pela morte — personificação de uma heroicidade aparentemente vã.
Mas o heroísmo nunca é vão, e disso também se deve dar testemunho.


Caetano Beirão
In «Último Reduto», n. 8, Ano VI, Maio de 1988.

14.8.07

Carlos Eduardo de Soveral: testemunho de A. J. Brito

CARLOS EDUARDO DE SOVERAL

As minhas relações com Carlos Eduardo de Soveral datam de umas boas dezenas de anos, quando fui a Lisboa repetir, no Centro Nacional de Cultura, uma conferência que fizera em Coimbra sobre a “Essência da Monarquia”.
O ambiente era tenso. A maior parte dos assistentes, que se diziam “integralistas” (mas não o eram a sério), preparavam-se para me acolher do pior modo, embebidos como estavam dos absurdos preconceitos neo-liberais, personalistas, anti-totalitários, democrafizantes. Quando terminei a minha modesta palestra houve um silêncio. E foi, nessa altura, que Carlos Eduardo de Soveral se ergueu mostrando a sua concordância e aprovação.
Eu já lera trabalhos seus mas nunca travara conhecimento com ele. Só nessa altura é que o vi em carne y hueso como diria Unamuno. Nasceu, então, uma longa e duradoura amizade até ao trágico momento em que a morte o veio chamar (07-08-2007).
Carlos Eduardo de Soveral era dotado de raras qualidades. Poucos possuíam dotes tão intelectuais em tão elevado grau. Em primeiro lugar, dispunha de uma surpreendente eloquência natural e espontânea. Um empregado de restaurante ficava encantado a ouvi-lo (ainda há poucas semanas no Gambamar, no Porto, me perguntavam se ainda vivia aquele senhor com quem às vezes eu almoçava e que falava tão bem) e tanto quanto um aluno na Faculdade ou um escritor ou um colega docente. Um destes, apesar de ideologicamente nos antípodas, não deixava de aludir, várias vezes, ao brilho das suas lições, que escutara enquanto discente.
Depois, Carlos Eduardo de Soveral escrevia num estilo primoroso, de índole erudita e culta. Não há página dele que não ostente um toque de distinção e apuramento.
Neste triste rectângulo, em que é regra redigir mal, a começar pelo celebrado Prémio Nobel, Saramago, ficamos a dever a Soveral lições de bom e escorreito português, em poesia e prosa.
E que dizer do Saber que perpassa pelos seus cerca de trinta volumes? Carlos Eduardo de Soveral conhecia os nossos clássicos e os do país vizinho de modo aprofundado. Leitor em Barcelona, Salamanca e Santiago de Compostela, dominava primorosamente a cultura espanhola contemporânea, deixando-nos o seu testemunho acerca da mesma numa série de saborosíssimas crónicas com o pseudónimo de Jaume Lloset. A Psicologia, a Sociologia, as novas ciências, a História, a Filosofia eram-lhe familiares. Neste derradeiro domínio patenteava uma forte influência do Mestre Ortega y Gasset que tanto estimava, ainda que substituísse o rácio-vitalismo por um espiritualismo vitalista, de coloração católica.
Mas, acima de tudo isto, legou-nos a lição de um indefectível, intransigente patriotismo, pelo qual, hoje em dia, paga o preço costumado – a condenação a ser silenciado e ignorado.
Tendo começado a vida intelectual ao lado de alguns membros da chamada terceira geração do Integralismo (melhor seria dizer do ex-integralismo) Soveral, quando viu que aqueles estavam a alinhar com os que se dedicavam ao desmembramento da Nação, não hesitou em romper com eles. E esteve no 7 de Setembro, em Moçambique, no protesto contra os que queriam entregar essa nossa província ultramarina aos marxistas da Frelimo. Teve, depois do fracasso desse movimento de exilar-se para a África do Sul onde trabalhou manualmente para sustentar-se e aos seus. Quando conseguiu reformar-se – com uma bem modesta pensão – não quis mais viver no rectângulo anárquico a que os vencedores do 25A reduziram o que foi Portugal. E fixou-se, julgou que definitivamente, em Bayona, na Galiza. A desvalorização do escudo obrigou-o, a contagosto e com desgosto, a retornar a este canto da Ibéria, onde viveu uma existência de exilado do interior, tal como eu o sou, também. O que não quer dizer que se remetesse ao silêncio. Ao invés, continuou a repudiar a infâmia e a traição nos livros publicados por uma pequena editora, que resolveu acolhê-lo.
As grandes massas e os novos senhores, que as exploram, impudicamente, desconhecem os seus trabalhos, tão valiosos. Não importa, Soveral optara, firme e intolerantemente, pela fidelidade que era a sua honra. Por isso, o saudamos com o belo grito da Falange Española, que ele tanto admirava e amava: Carlos Eduardo de Soveral – presente!
António José de Brito

Carlos Eduardo de Soveral: Missa de 7.º Dia

A missa de 7.º dia por alma do Prof. Carlos Eduardo de Soveral será hoje celebrada na Igreja dos Salesianos - mesmo em frente ao cemitério dos Prazeres -, em Lisboa, às 12 horas.
O funeral teve lugar na Igreja de Santa Isabel, às 10.30, no passado dia 8, de onde partiu para o cemitério dos Olivais a fim de ser cremado como era sua vontade.

Carlos Eduardo de Soveral, Presente!

Dia 7 de Agosto. São 10.30 da manhã. O telefone toca. É o Artur Nunes da Silva a informar-me a morte de Carlos Eduardo Soveral. Diz-me que acabara de o saber pois ligara para casa de uma das filhas para falar com a Senhora D. Leonor, a extraordinária Mulher de Carlos Eduardo Soveral a fim de saber se o poderia visitar num dos próximos dias. É-lhe então comunicada a notícia da morte ocorrida nessa madrugada.
Ouvi falar pela primeira vez no seu nome a Rodrigo Emílio, numa das minhas idas a Parada de Gonta. Rodrigo informava-me que tinha recebido por correio o texto Maastricht – ainda hoje inédito – e perguntou-me se já tinha lido. Disse-lhe que desconhecia quem era Carlos Eduardo de Soveral. Rodrigo tinha ficado estarrecido com a minha resposta e depositou nas minhas mãos Maastricht para o ler sem que antes me desse uma imagem descritiva do saber de Carlos Eduardo de Soveral. Diante do meu ar de maravilhado face ao que ouvia, deu-me os contactos de Soveral e disse-me: «agora, chegou a hora de o conhecer.»
Foi o que fiz. Entrei em contacto com Carlos Eduardo de Soveral dizendo-lhe quem eu era e o que queria. Nada mais do que o texto Maastricht que viria a receber dias depois.
A partir dessa altura, nasceu com Carlos Eduardo de Soveral uma indestrutível Amizade e Camaradagem que se foram fortalecendo ao longo dos anos.
Os meus pedidos de envio de textos inéditos eram constantes. Como um Príncipe, Carlos Eduardo Soveral confiava-mos até que um dia lhe perguntei o que pensava fazer com tanta qualidade e quantidade de escritos. Respondeu-me que não sabia e que provavelmente só seriam editados postumamente se essa fosse a vontade da família. Contra-argumentei que isso era impensável, que os textos não podiam nem deviam ficar à espera da morte do autor cometendo-se assim um atentado contra a Cultura portuguesa e ofereci-me para lhe passar os textos ao computador o que prontamente agradeceu, se bem que dizendo com a sua grande humildade, que não valia a pena nem que tinha leitor que o apreciasse.
Foi assim que a Hugin Editores publicou cinco livros: «De ontem e de hoje» (2000), «Visão Indo-Europeia» (2001), «Dois Excursos Camoneanos» (2002), «Sete Relances para uma Antropologia da Expansão Portuguesa» (2004) e «Cinco Cartas de Espanha» (2005).
Graças, também, ao Mestre Soveral aprendi a escrever. A sua escrita era muito densa, trabalhada, logo de leitura nada fácil mas à qual me fui habituando a ler e a apreciar ao mesmo tempo que passava os textos para o computador.
Entretanto, procurava nos alfarrabistas obras da sua autoria, pedindo-lhe que os autografasse, tendo assim hoje toda a obra de Soveral autografada e dedicada pelo seu próprio punho.
Sempre que podia encontrava-me na sua casa de Cascais, na sua casa de Lisboa no bairro Campo de Ourique ou na casa da sua filha mais velha em Matosinhos – aqui, algumas vezes na companhia do Artur e do António Carlos Rangel. Já sabia ao que ia. Ia levar uma Lição de Cultura sobre os mais variados temas como História, Filosofia, Espiritualidade e Política.
Ouvi-lo era como ouvir a voz de um Deus e nisso, também nisso, o Rodrigo Emílio tinha toda a razão. Sabia de tudo, comentava tudo, rebatia tudo o que era Erro e pegando em livros da sua biblioteca dizia: «Meu filho, está aqui…» Era um portento de Saber e de Sabedoria. Como ele, só conheço outro: António José de Brito.
Tive a sorte de privar com ambos ao mesmo tempo sempre que era convidado – quer por um quer por outro – para os nossos almoços no Gambamar. Pela minha parte, eu nem falava. Só ouvia e comparava o saber destes dois mestres e amigos com quem aprendi muito. Sim, ouvia e aprendia.
Lembro-me, como se fosse hoje, da sua comovida chegada ao Palácio da Independência onde ia participar na homenagem do 50.º aniversário da morte de Alfredo Pimenta organizada pelo Prof. António José de Brito, no dia 29 de Novembro de 2000. Casualmente, eu e o Luís Fernandes estávamos no pátio a conversar e recebemo-lo e abraçando-o ao mesmo tempo dissemos: «bem regressado a esta sua casa! Soveral, muito comovido, agradeceu e respondeu-nos: «Esta também é a vossa casa, graças a Deus». Lembro que Soveral foi o membro n.º 139 da Mocidade Portuguesa e Comandante de Falange bem como que o Palácio dos Almada fora a sede nacional da Mocidade Portuguesa onde na sua qualidade de filiado passara anos da sua vida e que Luís Fernandes, também, fora filiado da Mocidade Portuguesa e Comandante de Bandeira.
Recordo-me bem da perturbação que lhe produziu a morte do Rodrigo Emílio, quem ele considerava um irmão. Não lhe dei a notícia directamente. Pedi à sua Mulher, a Senhora D. Leonor que lha transmitisse pois sabia que o ia abalar.
Dois dias depois, Soveral telefonou-me comovidamente a pedir-me pormenores sobre a morte do Rodrigo e mais tarde enviar-me-ia uma extraordinária carta para o nosso Rodrigo e que foi lida aquando da Sessão de Homenagem a Rodrigo Emílio realizada no Salão Nobre da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no dia 18 de Fevereiro de 2006, data do 62.º aniversário do nascimento de Rodrigo Emílio.
Entretanto, já Soveral tinha enviado «umas breves palavras», em texto lido por Bruno Oliveira Santos no 2.º jantar de homenagem a Rodrigo Emílio e organizado pelo Bruno.
Deixou três livros inéditos: «À Margem... (Miscelânea de trechos – em sua grande maioria não publicados em livro – de uma quase vida literária. 1952-2002.)» e dois de poesia «Da Solidão e do Silêncio» e «Surto de Amor e Fundas Nostalgias». Espero ansiosamente que a Família dê a autorização para a sua edição, homenageando assim Carlos Eduardo de Soveral e a Cultura Portuguesa.
Carlos Eduardo de Soveral, Presente!

Biografia de Carlos Eduardo de Soveral

«Carlos Eduardo Bastos de Soveral (Lisboa, 4-11-1920/7-08-2007). Nomes literários: Carlos Eduardo de Soveral, Eduardo Bastos, Jaume Lloset (pseudónimo), Dório Castro (idem.)
Muito intensa e plural actividade gimnodesportiva e paramilitar até depois dos 40 anos, com alguns resultados de primeiro plano. Várias prestações de serviço militar (Lisboa e Torres Novas, Castelo Branco e Elvas), como Oficial Miliciano de Cavalaria. Professor do 4.º Grupo (História, Filosofia e Organização Política) do Quadro Comum dos Liceus do Ultramar (Sá da Bandeira, Angola — onde leccionou Psicopedologia, cadeira por si criada, num Curso de Aperfeiçoamento do professorado primário). Regressado à Europa por graves motivos de saúde, e após algumas missões que lhe foram cometidas pelos Ministérios da Educação e do Ultramar, Leitor de Português, sucessivamente, nas Universidades de Salamanca, Barcelona e Santiago de Compostela, com a direcção, nesta última, do Instituto de Estudos Portugueses. (Em Santiago de Compostela foi, com os Professores Carlos Paris Amador e Carlos Alonso del Real, o organizador de três assaz importantes ciclos de conferências, sobre O pensamento marxista, sobre A Historiologia e sobre Descrença e homem actual.) Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Florença, para o estudo da historiografia toscana dos séculos XIII e XIV. Subsecretário de Estado da Educação Nacional (Maio 61 a Dezembro 62). Professor-fundador da nova Faculdade de Letras da Universidade do Porto —, sobretudo entregue aos seus cursos originais de Historiologia e História da Cultura Clássica —. Director bancário. Largo exercício de conferencista em muitos pontos do País, especialmente Lisboa e Porto. Professor-fundador e primeiro Director da Faculdade de Letras da Universidade de Lourenço Marques, abrangendo as direcções do Centro de Estudos Sarmento Rodrigues e do Centro de Psicologia, afectos à mesma Faculdade. (Em Lourenço Marques teve sempre e simultaneamente a seu cargo as cadeiras de Sociologia Geral, História Geral da Educação e História da Cultura Clássica.) Um dos Professores convidados pela Real Academia de Jurisprudencia y Legislación para a efectuação do ciclo de conferências Presencia de Juristas Portugueses em Madrid (1971). No exílio em Pretória (África do Sul), após o 25 de Abril, onze anos funcionário dos Correios sul-africanos. Regressado à Península em fins de 85, passou quatro anos na Galiza (Bayona), principalmente absorvido por cuidados científicos (Ciências do Homem), com muito particular aprofundamento dum dos seus amores: as letras espanholas. Voltando a Portugal em Abril de 89, reatou, com muitas e mui rigorosas limitações, a relação com algumas das pessoas, e alguns dos temas e interesses, de que o estadual abandono do Ultramar o afastara, metendo-o num decisivo e perene exílio d`alma.

Tem nesta altura, entre mãos, para, se possível, próxima publicação, os livros seguintes: Sete relances para uma Antropologia Moral da Expansão Portuguesa, Polemos. Poiesis. Psyche, Dois excursos camonianos e duas notas lusíadas, À margem... (páginas ético-políticas), e, sua versão do seu original castelhano, Tensões antropológicas e etnoculturais na civilização europeia e sua projecção no Direito, admitindo se lhe proporcione a tradução da Historia de los movimientos y separación de Cataluña de D. Francisco Manuel de Melo, além da vinda a lume das suas já efectuadas traduções do Diário Intimo de Miguel de Unamuno, e de alguns opúsculos de Maquiavel, e quiçá, também, de determinados e principais passos da Scienza Nuova de Vico.
Nos últimos decénio tem vindo somando Poemas da Solidão e do Silêncio — metade elegia, metade libelo — que, tal como alguns milhares de páginas de epistolografia e notações de Diário, admite recebam publicação póstuma de seus Filhos e Amigos.
Membro-fundador da Secção Portuguesa da Sociedade Guillaume Budé, Membro-fundador da Secção Portuguesa do Comité Internacional para a Defesa da Civilização Cristã (com idas aos Congressos de Lucerna, Viena e Estoril), membro da Academia do Mediterrâneo, Residente de Honra dos Colégios Maiores São Clemente e Generalissimo Franco de Santiago de Compostela, Insígnia de Ouro do Real Aeroclube da mesma cidade, integrou a Comissão Executiva da Causa Monárquica por convite do então Lugar-Tenente do Senhor Dom Duarte de Bragança, Professor Doutor Guilherme Braga da Cruz. Fez parte da Acção Católica (J.U.C.), Conferências de São Vicente de Paula, Congregação de Nossa Senhora e Apostolado da Oração.
Nenhuma condecoração. Nenhuma homenagem. (...)»

Mais um adeus de Couto Viana

MAIS UM ADEUS


À memória de Carlos Eduardo de Soveral


Mais uma cruz no meu caminho.
Agora, a tua Poeta e Pensador.
Partes sozinho,
para o mais Alto e o Maior.

Folheaste, ciente, páginas da Existência
Com estudos profundos,
Onde é semente e flor a Inteligência
Dos cérebros fecundos.

Português,
Como os que o são,
Ouvi-te muita vez
Exaltar-nos a Alma e o Coração.

O Erudito, o Mestre, o Esteta,
Souberam bem gerir o seu talento.
Apenas o Poeta
Se ficou quase oculto, mas atento.

Carlos Eduardo:
Com que saudade aceno a despedida,
Daqui, onde inda sou e ardo
No fogo a esmaecer da vida!

E tardo,
Por não ser como tu,
Tão ágil na subida.

08.08.2007
(Inédito)
António Manuel Couto Viana

Poema de Rodrigo Emílio: soberano Soveral

SOBERANO
SOVERAL


A Portrait of the Artist, quando a bordo de uma das últimas nossas Naus Cat(a)rinetas…

***

«...chaque sentinelle est responsable de tout l`empire»

Antoine de Saint-Éxupéry (in «Terre des Hommes»).

Lembro-me de mim,
quando de Si me lembro,
envoltos no cetim sem fim
desse fim-de-Setembro...!

Galante era a galera,
o galeão
que a monção tinha, então, à nossa espera
(ou talvez não...)
, numa das quinas deste cais todo de pedra
onde, agora por agora, nada medra...,
onde apenas, hoje em dia, a perdição impera:
apenas ela, sim — a perdição...!

Galante era a galera (olá, se era!...),
galante, o mareante, e o galeão
que a viração
do fim-de-tarde madrepérola
desse fim de fim-de-Verão
ali assim pusera e depusera
(ou talvez não...)
à mão-de-semear da nossa mão...

Galante era a galera;
galharda, a guarnição
do galeão,
quando outra era a hora: outra, a era,
e outro, outro era
o capitão.

(Em que ano
e meridiano
isso foi, afinal...?

Qual o sacro oceano
que o viu — e me viu —, marcial
e ufano,
em pleno litoral vitoriano,
sacar do manual ao vendaval

e, face ao visual
semi-serrano
da costa do Natal,
reger concertos de areal
e piano
para monte e vale?!...

Qual deles terá sido, o oceano?
Qual foi, de todos eles? Qual foi ele...?
Qual

o que mais e melhor terá servido de pano
geral de fundo
a esse vago e já vetusto
postal
africano
de tantos de tal...?!

Ao colo
de que solo
tramontano,
ao mando
de que afã
imperial,
teve lugar o ritual
pretoriano
desse nosso mano-a-mano
tropical?...

Qual o marulho, a maré
que singra, ainda agora, à proa e à ré,
em todo o imemorial
meridiano
desse mar meridional...?

Em que ano
e oceano
foi isso tudo real?...
Quando, onde,
onde e quando...,
soberano
Soveral?!...)

Lembro-me de mim,
ao certo,
quando de Si — quando de Si me lembro,
envoltos no toldo de cetim
de certo fim-de-Setembro
reencoberto
— há perto de trinta anos reencoberto:
há mais ou menos cerca de trint`anos,
ou uma coisa assim...

(...Anos de cela penal,
anos de crime e castigo,
anos sobre anos de olvido e coval,
de campa e jazigo...

Anos atrás d`anos
que, a ambos,
nos saíram, por sinal,
todos bissextos...)

E o meu naval
Amigo
a compulsar oceanos,
a capitanear frotas
de textos,
a compilar cadernos de arquétipos,
de arcanos,
a coligir cardumes de náuseas e êxtases
marinhos,
a guarnecer de notas
e apontamentos
o torvelinho
sebástico de rotas
salmodiadas a solo, e a horas mortas,
sob o solfejo saturnal dos ventos...!
A convocar abadas de gaivotas,
magotes de golfinhos,
de gaivotas,
para linhas-de-rumo, as mais remotas,
e toda a apoteose de aposentos...
A desfiar e a desbravar caminhos,
entre abrigos de abismos e abóbadas...
A folhear, em livro, os firmamentos...

(À ogiva da vigia
surgia a cítara de Ovídio;
e, à medida que a ouvia,
ao ouvido,
a travessia
ganhava duplo sentido.

A lira da maresia,
essa, transida, tangia
um alígero resíduo
à nostalgia
de Hesíodo...

O porão
mirava a areia
como Jasão
a Medeia...)

E a viagem soma e segue: à imagem
da corrente,
soma e segue, chega e sobra.

Limo a limo, a aragem sopra,
solta ao vivo
a sua trova e dão semente
ao seu vagido
bicos-d`obra geográfica.

— Já, ao ritmo da Europa,
crava a gente lanças n`África!

Lembro-me de mim,
quando de Si me lembro,
envoltos no toldo de cetim
sem fim
de certo fim-de-Setembro...,
quando o ainda célere selim
de espaço e tempo
deixava correr a fio o seu marfim
(e o marfim, sem fim, do sotavento),

connosco a bordo do motim,
ambos lá dentro,
e Deus (e Odin) ao centro:
bem ao centro!

Onde, a esfera armilar,
o atávico plano,
o doirado armorial?...
Onde, o mar...? O alto-mar?!...
O mar-alto, a todo o pano...,
soberano
Soveral?!...

Onde, a trompa militar?
Onde, a harpa, onde o piano
desse cântico coral?...
Onde, a amurada, o palmar?
O anfiteatro sem par...?
Onde, o sopro lusitano...?
Onde, o Sonho, o sol, o sal?...

Onde, o bosque, o mastro, o hangar?...
Onde, a guerra de arreganho?
Onde, o sabre? Onde, o punhal?...
Onde, o ímpeto solar
do cheka, do veterano...?
Onde, o posto-de-comando?
Onde, a cruzada...? O graal...?
E onde, o mar...? O alto-mar?!...
O mar-alto, a cada canto...,
soberano
Soveral?!...

Aonde, voz que murmure,
diga à memória: «go back!»,
antes de me eu pôr, como outrora,
a fazer o tour
do deck,

até onde
— até lá onde
se entr`esconde
a chaise longue
que lhe ampara busto e torso,
dá, ao tronco, encosto
olímpico,

e faz realçar-lhe o rosto
que contracena, a gosto, com o Índico
e o sol-posto,

ao mesmo tempo que a aragem,
a que reagem
as marés,
toma o convés,
de abordagem,
cinge a si aquela imagem,
e vem prestar vassalagem,

render preito de homenagem
aos pés dos pés
dos seus pés...

É a um grande, grande plano,
quase sobrenatural
e datadinho d`antanho
— que me eu atenho,
como ao trecho de um mural,
toda a vez que o acompanho

ou lhe desenho,
a cada ponto cardial,
o seu oval
d`espartano,
soberano
Soveral!

Onde, a terra, a torre, o altar-
-mor das águas, com seu manto
de âmbar, nácar e cristal?...
Onde, os céus do Malabar,
o capim moçambicano...?
Onde, os morros do Transval?!...

Onde, o aro do olhar
à carta de marear...,
o alferes miliciano
tatuando o matagal?...
Onde, o cano a crepitar?
Onde, a cubata tribal?...
Onde, o epos secular,
catedral do ideal...!?
Onde, o arauto ariano
desse aroma arqui-naval...?!
E onde, o mar...? O alto-mar?!...
O mar-alto que eu reclamo...,

soberano
Soveral?!...

Rodrigo Emílio.
(Em Lisboa, aos 4 de Novembro de 1999, pelo aniversário natalício do dedicando, e no Porto, em dia de Ano-Novo, Novo Século e Novo Milénio. 1.º de Janeiro de 2001.).

Batalha de Aljubarrota


O dia 14 de Agosto foi apagado do calendário oficial abrileiro. Celebrando essa data aqui estão as célebres, sábias e sabedoras palavras de Salazar, o Grande Português, na altura Presidente do Conselho e proferidas em 1935.
«COMEMORAÇÃO DE ALJUBARROTA
«Em 14 de Agosto de 1935 — há portanto 550 anos — foi travada entre portugueses e castelhanos a batalha de Aljubarrota, não muito longe do sítio onde hoje se admiram a igreja e convento da Batalha, erguidos em convento da Batalha, erguidos em comemoração da vitória. A desproporção das forças em presença — 7.000 portugueses para mais de 30.000 inimigos — o fulminante da vitória, as pesadíssimas perdas infligidas aos castelhanos, mas perdas infligidas aos castelhanos, a fuga do rei de Castela, a maneira como foi conduzida a batalha sob o aspecto puramente militar por esse extraordinário generalíssimo, e assombroso de misticismo religioso e de génio guerreiro, que se chamou D. Nuno Álvares Pereira, fazem de Aljubarrota o ponto central da longa guerra havida com Castela e a vitória mais representativa do esforço de nossos avós pela independência de Portugal. Esta é a primeira e grande liberdade por que se bateram então.
A crise de pensamento e de consciência que na passagem da primeira para a segunda dinastia atormentou os portugueses, os perigos que afrontaram, as fomes e pestes que sofreram, as lutas em que se empenharam só para manter o direito de não serem governados por outros e vincar a aspiração de continuar o seu rumo histórico sem sujeição a rei estrangeiro, gravaram para sempre Aljubarrota no espírito da Nação e fizeram desta data a verdadeira festa da independência.
Passaram sobre o acontecimento alguns séculos que não foram sempre de paz e concórdia na península.
Novas dificuldades de sucessão no trono português trouxeram o domínio dos Filipes e contra ele as longas guerras da restauração. Sobre estas mesmas também já passaram séculos. Era ridículo ter alimentado nos corações os rancores nascidos nas batalhas: por isso Aljubarrota, Atoleiros, Valverde, com três séculos mais tarde Montijo, Ameixial, as linhas de Elvas, Montes Claros são vitórias mas não já gritos de ódio, não são hoje contra ninguém, são para nós mesmos.
E parece que assim mesmo deveria ser.
Podemos orgulhar-nos de sermos na Europa o único país cujas fronteiras se podem dizer imutáveis desde há séculos; é, de facto curioso! Uma vez talhada pelos primeiros reis na faixa atlântica, nem mesmo se notou nunca a preocupação de alargar na península as fronteiras da Pátria. Ia noutra direcção a força expansiva da raça, o seu génio descobridor e de colonização: pelo Atlântico, pelo Índico se expandiu o povo português, descobriu as terras e os mares, abriu aos outros povos novos mundos, levando e deixando por toda a parte o traço característico da sua dominação — o humanitarismo da sua alma latina, o apostolado da sua civilização cristã.
Por outro lado, a Espanha seguiu também o seu curso, ora paralelo ora concorrente, ergueu a sua história no nível dos grandes heroísmos e façanhas, fez na América Central e do Sul, afora o Brasil, poderosas nações, filhas do seu sangue e do seu catolicismo. Não precisara de nós e só contra nós não pudera nunca ter razão.
Estamos em face de um imperativo histórico, contra o qual têm lutado debalde os derrotistas, os acomodatícios, os filósofos d`aquém e d`além fronteiras. Estes têm o direito de, raciocinando sobre abstracções, classificar de erro o que os séculos impuseram e a nossa vontade inabalável se sente obrigada a manter.
Como sempre esta vontade não é nem tem de ser a de todos ou cada um dos portugueses, mas a que se desentranha da massa da Nação. Antes e depois de Aljubarrota havia portugueses partidários do rei de Castela, e o próprio D. Nuno Álvares Pereira sentiria alanceado o coração de saber irmãos seus lutando pelo rei estrangeiro.
Em 1580, em 1640 também nos dividimos: membros do clero e da nobreza foram vítimas da dificuldade de ver claro em certos transes históricos, sobretudo se interesses elevados de qualquer ordem começam pesando na balança dos juízos, e a empecer as deliberações a que trazem em seu seio riscos da vida e da fortuna.
Mas os que, tendo à frente Álvaro Pais, quiseram que D. João, Mestre de Aviz, fosse proclamado «regedor e defensor do reino»; os que seguiram D. António, Prior do Crato; os que apoiaram e fizeram valer o grito dos fidalgos conspiradores da independência, em 1640, tiraram do seu mesmo desinteresse aquela clara visão do imperativo nacional que irresistivelmente os levou a esquecer a desproporção das forças e dos meios, os perigos da aventura e os benefícios que puderam usufruir de outras soluções.
Não há dúvida de que, homens de escol nas letras, na política, nas armas o guiaram para as resoluções e vitórias definitivas, mas é preciso crer, em face de tais exemplos, que o povo é pela simplicidade da sua alma e espontaneidade dos seus sentimentos, a fonte sempre viva do nosso nacionalismo.
Que importa que no presente momento histórico não seja igualmente vista por muitos a necessidade e grandeza da obra nacionalizadora em marcha, se o povo tem a intuição duma época decisiva da nossa vida e de que por este caminho se retoma o velho rumo da história pátria!?
Eis porque se pensou que a festa de hoje deveria ter o cunho de festa popular.
Festa popular e festa de mocidade. Nuno Álvares tinha vinte e três anos quando da revolução em Lisboa, e 25 em Aljubarrota; D. João I, 25 ao ser proclamado defensor do reino e 27 na segunda daquelas datas. O estado maior do Condestável eram rapazes de pouca idade, com o espírito aventuroso e irrequieto dos jovens, insofridos nas pelejas, mas obedecendo cegamente ao chefe. Com estes se fez a campanha e se assegurou a independência de Portugal.
Hoje como então se exige espírito novo para fazer a revolução nacional o espírito novo é mais fácil encontrá-lo em novos que em velhos, ainda que haja velhos com mocidade de espírito e moços gastos por interesses e preocupações que não costumam ser da sua idade. É, porém, essencial que o espírito da mocidade seja por nós formado no sentido da vocação histórica de Portugal com os exemplos de que é fecunda a História, exemplos de sacrifício, patriotismo, desinteresse, abnegação, valentia, sentimento da dignidade própria, respeito absoluto pela alheia.
Facto cheio de ensinamentos é o comemorado hoje: homens que sirvam de exemplo para a nossa formação esses que, à volta de D. João I e do Condestável, maravilha não lhes tocaram nem os puderam diminuir. Sobretudo esse Condestável D. Nuno, depois Frei Nuno de Santa Maria, guerreiro e monge, chefe em maus anos seus bens pelos mesmos que derrotara em batalhas para que não mandassem na sua terra, erguido sua valentia no altar de Pátria como a Igreja o havia de erguer pelas suas virtudes nos altares da fé, cheio de honras e riquezas e enterrado em vida no Convento do Carmo, na dura estamenha de frade, quando depois de Ceuta lhe pareceu já não ser necessária a espada para defesa da Pátria, mas disposto de novo a vestir as armas se el-Rei de Castela a alguma vez tentasse invadir Portugal.
Por estes motivos os sítios de Aljubarrota e a Batalha devem ser os lugares de entre os eleitos para as grandes peregrinações patrióticas, e eu quisera que no próximo ano ali acorressem de todos os cantos de Portugal, milhares, centos de milhares de portugueses de hoje, sobretudo a juventude, para vivificar e robustecer ao calor dum passado heróico a sua devoção patriótica. E, visitados os campos da luta, entrariam, devotadamente na igreja do Convento da Batalha que, ao contrário da do Escurial de Filipe II, lúgubre e apropriada para as exéquias dum grande rei, é clara e triunfal, como se não fosse feita para a oração de todos os dias mas apenas para o solene Te Deum das grandes e magníficas vitórias.
Nunca passo ali, mesmo apertado pela estreiteza do tempo, que não me sinta obrigado a parar, a entrar e pisando a campa rasa do Rei de boa memória e parece ainda guardá-lo na morte, penetrar comovido na capela do Fundador. Aí se encontram os restos mortais de D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, e à roda a «ínclita geração de altos infantes»; ali repousam os que consolidaram a independência de Portugal, se assentaram as bases da sua grandeza futura.
14 VIII 1935.
Oliveira Salazar»

In A Voz, n.º 3048, págs. 1/8, 15.08.1935.