19.4.07

Reabertura da caça ao nazi-fascista

Pensava eu que ia resistir ao silêncio, continuar a série de postais sobre Salazar, o Grande Português e assim não cair na tentação de um comentário sobre esta sanha e insânia policial ao abrigo do Estado de Direito da reabertura da caça ao nazi-fascista.
Reparava no estado de delírio dos comentários dos comentadores de serviço e pensava com os meus botões que já tinha visto este filme aquando do processo do M.A.N.
Com a cobertura da imprensa dada ao P.N.R. através dos dois cartazes do Marquês do Pombal, com o anúncio do encontro nacionalista organizado pela J.N. para este fim de semana, com o anúncio da marcha do Dia de Trabalho Nacional convocada pelo P.N.R. para o 1.º de Maio, com o anúncio da manifestação da T.I.R. em Santa Comba Dão a favor da criação do Museu Salazar, com a vitória estrondosa de Salazar no concurso "Grandes Portugueses", tudo isto era demais para os campeões da liberdade de expressão e outras lérias.
Resumindo e abreviando, toda esta agitação nacionalista deixava esses campeões à beira de um esgotamento nervoso.
Mas o mais grave de tudo é que a imprensa não deixa o eng. Sócrates em paz com a sua licenciatura.
A receita é a de sempre: uma ofensiva policial intimidatória e persecutória sobre a extrema-direita com grande destaque na imprensa e tudo se resolve. Uma vez mais o tiro saiu pela culatra. Embora nas últimas 24 horas se tenha dado todo o relevo aos trinta neonazis/fascistas que foram detidos pela posse de armas em casa e de literatura perigosa, essa verdadeira incitadora de discriminação racial. Exemplo flagrante é o livro de George Orwell, O Triunfo dos Porcos, uma verdadeira bíblia nazi-fascista só comparável ao Mein Kampf. Dizia eu, que embora nas últimas 24 horas quase não se tenha falado no Eng. Sócrates nem na Universidade Independente, julgo que a imprensa não largará o osso - por razões e motivações que ainda não descobri.

Conversa rápida ao telefone com o BOS

Em conversa rápida ao telefone com o BOS, que está de viagem retive estas quatro ideias-mestras.
"A rusga de ontem configura um caso flagrante de perseguição política.
Political persecution em Inglês Técnico, se é que me estás a entender.

A alguns camaradas nossos, levaram-lhes de casa livros encaixotados como prova do crime.

Não temos grandes campeões de xadrez, mas os putins flã cá do sítio dão-nos tratamento de Kasparov.

Os mais esclarecidos toparam à légua a manobra de intimidação. É exemplar o postal do Engenheiro. Só não tem razão quando diz que o PNR se põe a jeito. É o argumento que se usava para justificar violações; a culpa era delas, que se punham sempre a jeito. O discurso e a prática do PNR são idênticos aos de outros partidos europeus congéneres, que têm inclusive assento no Parlamento Europeu."

Como se levanta um Estado - Salazar

António de Oliveira Salazar

Preço: EUR 16,80/ EUR 15,12 (10% de desconto)
Ano de Edição: 2007
N.º de Páginas: 136
Atomic Books
Apartado 1479
1013-001 Lisboa.

"Este livro que agora editamos – e que é praticamente desconhecido do público português – constitui, a vários títulos, um “pequeno dicionário” da ideologia salazarista e da doutrina do Estado Novo. Nele, Salazar procede a uma análise dos factores que conduziram ao movimento militar de 28 de Maio de 1926 e à Ditadura. Enuncia a sua política de saneamento financeiro. Define as bases ideológicas do Estado Novo. Estabelece os parâmetros da actividade económica no novo regime. Teoriza sobre o papel da família, da educação, das forças armadas. Posiciona-se perante as grandes opções políticas do seu tempo e fixa a política externa."

Salazar visto por Alfredo Pimenta - II


«... No opúsculo que consagrei a opor ao António Sardinha lendário e mítico, o António Sardinha histórico e verdadeiro, com as suas qualidades e virtudes, e os seus defeitos e carências; numa palavra, no opúsculo em que opus ao António Sardinha, taumaturgo e mistificação, o António Sardinha carnal e humano — na altura em que aludia à existência doutros valores, escrevi estas palavras pesadas, medidas e pensadas: «E houve e há o Prof. Oliveira Salazar que, nos três volumes dos seus Discursos, se nos revelou um dos grandes Mestres do pensamento político português».
Já em Abril de 1935 -, precisamente em 20 de Abril de 1935 - há, portanto, nove anos, ao apreciar o primeiro volume dos Discursos então publicados, tive a ocasião de colocar a personalidade do seu autor no lugar devido, dentro do quadro da mentalidade portuguesa.
...Muitas vezes, ao ler os Discursos do Chefe do Governo, acodem ao meu espírito as páginas célebres do livro de Cícero, e as não menos famosas de Tácito. E do que um e outro dizem ou põem na boca das suas personagens, eu extraio a substância eterna: não é a Retórica ou a Oratória que faz o Orador; é este que faz aquela.
O Orador Oliveira Salazar escapa ao enquadramento que quem quer que seja deseje impôr-lhe. Não é orador forense, nem orador parlamentar, nem orador académico: é um orador político. Como orador político, não é orador de assembleias, ou tribunas comiciais. E não visa, em seus discursos, aquele objectivo que, segundo Cícero, é o da Eloquência: acalmar ou comover os ouvintes excitados ou frios - «aut sedandis aut excitandis».
Como orador político, o Chefe do Governo é o orador-pensador, o orador-professor que desenvolve, diante dos que o ouvem, os termos duma equação algébrica.
É um orador do seu tempo. É um orador da sua escola.
Não faz lembrar ninguém, porque é um orador pessoal, que expõe o seu pensamento, mediante expressões que são suas.
Como no orador de Tácito, há em Salazar os recursos «ex multa eruditione et plurimis artibus et omniem rerum scientia». Sem a muita literatura, a abundância dos conhecimentos, e a ciência geral, Salazar não poderia dar à expressão do seu pensamento, o geometrismo totalitário que a caracteriza.
Nos seus Discursos, debatem-se problemas de administração, apresentam-se ou justificam-se soluções de questões internas ou externas, esboçam-se directrizes a adoptar, vincam-se tendências a utilizar, etc. Está neles, a vida do Estado português na sua complexidade fundamental, na sua tessitura essencial, desde 1928 para cá.
E é por isso que, através de toda a paisagem multiforme que estas mil e duzentas páginas oferecem à Crítica, há, para além do que é episódico ou propriamente temporal, um pensamento político, uma filosofia política, uma doutrina política ¾ pensamento, filosofia e doutrina que colocam o Chefe do Governo português na primeira fila dos grandes Mestres do pensamento político português.
É possível, e devia fazê-lo quem tivesse vagar para tal, organizar-se uma espécie de Summa Política, com os pensamentos, conceitos, sentenças que Salazar espalhou pelas mil e duzentas páginas dos três volumes dos seus Discursos - em que se algumas vezes se limita a sintetizar, em fórmulas precisas, pensamentos vagos ou informes, errantes ou confusos, outras vezes cria ele próprio ideias, atitudes ou posições doutrinárias.
No conjunto difuso, por força da própria natureza das coisas, pela multiplicidade dos objectivos e pela variedade dos motivos - sobressaem, frutos de lapidação magistral, as sentenças, os conceitos, os pensamentos, que serão um dia, quando este País, vencido o temporal, regressar da crise moral e intelectual em que se debate, citados, lembrados, invocados como característicos desta época, e tomados como ponto de partida para elocubrações do Espírito.
Hoje, é cedo. Estamos todos a naufragar em vagas fundas da Mesquinhês, Inveja, Petulância, Rancor e Imbecilidade, pasmando a gente de que este homem sofreie a náusea que o ambiente lhe deve provocar, e encontre em si próprio estímulos ou pontos de apoio para se manter na tentativa de dar à hora que passa a aparência de grandeza e beleza ¾ contra a Mediocridade que rosna, o Despeito que calunia, a Estupidez que malsina, o Egoísmo que deforma, a Hipocrisia que envenena, a Impaciência que perturba, e a Ambição que corrompe. Porque é o Pensamento em Acção, e porque esta dispõe de elementos que o Pensamento, só por si, não possui, Salazar consegue fazer-se ouvir, e, às vezes, comentar. É porém tão forte esse Pensamento, tão carregado de substância, que ultrapassará o momento do encerramento da Acção, e constituirá, no futuro, não só o objecto de digressões históricas, mas também de investigações especulativas.
O que nós não sabemos ou não queremos fazer hoje - o Enchiridion do pensamento salazariano, outros o farão um dia, se não se subverter tudo com a catástrofe que paira sobre o mundo e está a destruir sistematicamente tudo o que conseguiu vencer a demolição lenta do Tempo, na sua acção multi-milenária - em nome da Civilização e da Liberdade dos Povos!
Sim. Contra todos os rancores impotentes e inquietos, o Pensamento Político de Salazar projectar-se-á, e será objecto de estudo profundo e sério, quando dos mistificadores ou bolas de sabão, das bexigas ou balões infantis, não houver mais do que vagas lembranças em ruínas.
Ele ficará, no geometrismo totalitário da sua expressão, na pureza translúcida da sua essência, e na fulguração estelante da sua força, como, na França, o pensamento dum Pascal ou dum Maurras, na Alemanha, o Pensamento dum Schopenhauer ou dum Nietzsche.
Essencialmente católico, essencialmente português, não o crestam os tufões da Revolução e da Enciclopédia, e por isso ele marca, no quadro da vida histórica de Portugal, o lugar único do Pensamento em Acção, e no grande panorama do Pensamento político português, um dos lugares primaciais dos seus Mestres.
Lugar único do Pensamento em Acção, porque ele foi o único, até agora, que levou para a Acção governativa o propósito de um Pensamento político puro. Entrou no Poder, não só para administrar, mas para doutrinar - realizando.
Livre de quaisquer compromissos, não tendo hipotecado a ninguém os seus passos, entrou no Poder, não para servir os interesses deste ou daquele, não para realizar o programa deste ou daquele, mas para pôr em acção o seu pensamento que pretende ser, paralelamente, e sendo-o de facto, o Pensamento de muitos outros, ou da sua época, nem por isso deixaria de ser o seu Pensamento, e só como seu seria tratado.
Tem-se sido propício o Poder, na consecução do seu projecto, na realização do seu objectivo?
Isso é outro problema.
Note-se que estou a referir-me ao seu Pensamento político, e não à sua acção administrativa. Neste último campo, tem tido colaboradores apreciáveis. Mas na efectivação do seu Pensamento político, tem sido - totus, solus at unus. Não discuto as razões. Verifico o facto.
Nestes três volumes dos Discursos, o que superiormente me interessa é precisamente a Filosofia política que os informa, ou a substância filosófica que os alimenta, porque é ela que consagra o seu autor, como um dos grandes Mestres do Pensamento político português. Não fosse ele um destes, e nunca se teriam celebrado os dois centenários - o da Fundação e o da Restauração do Estado português, com o Equilíbrio, a Superioridade espiritual e a compreensão portuguesa que caracteriza essa comemoração.
E é esse Mestre do Pensamento político português - um dos maiores que a nossa Literatura contém, que quero, neste momento, saudar e festejar.»

(In Os Discursos do Chefe do Governo, in «Esfera», n.º 89, p. 4. 1944.)

***
«... É um regalo excepcional para o meu espírito, ouvi-lo ou lê-lo. Subtil, sem ser incompreensível ou difícil; claro, tem de ser banal; castigado na forma de se exprimir, sem cair em requintes doentios — e depois, acima disso tudo, embebido numa doutrina que só não é perfeita por lhe faltar o fecho da abóbada — o espírito do sr. Presidente do Conselho é do mais formosos espíritos políticos da nossa História.
O infeliz Trindade Coelho tinha razão: fala europeu. Ao nacionalismo da sua linguagem corresponde o universalismo do seu pensamento.
Salvo raras excepções os governantes do Estado que a República revelou ou teve falavam pretoguês, e o seu pensamento era, quando muito, um pensamento de botequim ou de baiúca. Os melhores ainda chegavam ao pensamento de partido. Nenhum atingira o pensamento nacional: o sr. Presidente do Conselho Oliveira Salazar ultrapassa as fronteiras da Nação: é o pensamento europeu, no que este tem de mais profundo e mais sólido.
Voto, pois, em primeiro lugar, na Inteligência, que o sr. Presidente do Conselho representa.»

(In Eu voto! E porque voto?, in «A Voz», n.º 2811, pp. 1/6, 14.12.1934.)

18.4.07

Salazar visto por Alfredo Pimenta - I


«... Entre os títeres que representam o bloco ocidental, e o Neo-Czar um Homem, com H grande, que não é americano, nem russo, nem inglês, nem escandinavo, nem francês, nem abexim; um Homem que não dispõe de exércitos nem de esquadras, de bombas atómicas ou de vetos; um Homem que não anda turisticamente pelas salas das conferências, nem é chamado aos conclaves dos medíocres, porque os confundiria a todos. Esse homem é português, e dispõe tão só da sua Inteligência culta, da dialéctica honesta das suas razões sinceras, da profundeza e da substância das suas doutrinas sãs - chama-se Salazar.
A demência de uns, à inferioridade mental de outros, à ciganice destes, ao cinismo daqueles, só ele seria capaz de opor a verticalidade insuperável dos seus princípios, a inflexibilidade da sua ética, a serenidade impecável da sua austeridade, tudo o que, há perto de vinte anos, constitui o capital seguro da sua política.
Que falta a este Homem, para ser, na hora doente em que vivemos, guia previdente, conselheiro sensato, e Juiz severo? Para ser grande, não precisa de ser comparado aos Grandes reinantes. Compará-lo a eles é ofuscá-los, sumi-los, reduzi-los à sua natural insuficiência.
O que falta é apenas isto: ser governante de um Estado poderoso que, para se fazer ouvir e obedecer, tenha atrás de si, a apoiá-lo, as bocas dos canhões e as baionetas dos Exércitos.
No mundo materialista que é o nosso mundo, o que vale é a Força bruta - a força das Armas, ou a força dos Dollars.
Salazar fala em nome de um Estado que possui apenas uma História.
Representa uma Ideia, em um momento em que só os maquiavelismos pragmáticos valem; representa o Espírito, quando só a Matéria pesa; representa a Lealdade, quando só a Hipocrisia se impõe; representa a mão estendida e aberta, quando o punho cerrado se respeita e adora.
Há quase vinte anos, um Povo, caído na mais terrível das insolvências, entregou-se nas suas mãos. Esse homem pediu confiança, e só com ela, ergueu esse Povo, e fez desse Povo atribulado, escarnecido, desprezado, o único Povo da Europa que não precisa de esperar a esmola do pão que come, e que seria feliz se não fossem as desgraças dos outros.
Porque não se entrega o mundo, com fé, a esse Homem, em vez de andar atrás dos grandes pigmeus e dos seus planos mirabolantes que encalham aqui, e encalham acolá, e são manifestamente, indiscutivelmente, idiotas?
Digo isto sem sombra de cortezanismo ou de lisonja. Depois de mim, logo depois de mim, o primeiro que está certo de que sou incapaz de uma e outra coisa, é Salazar!
Não quis a Providência restituir-nos o Rei. Deus sabe com que mágoa o verifico!
Mas há perto de vinte anos que está à frente dos nossos destinos, para seu próprio sacrifício, e o nosso orgulho e o nosso bem, a Inteligência culta e o carácter nobre de Salazar.
Só Deus sabe com que satisfação o reconheço!
Vinte anos contínuos, se fizer a história verdadeira do mundo civilizado, e desta Paz de rancores e de inépcias, há-de confessar-se que só um Homem existiu que poderia evitar que essa Paz fosse rancorosa e inepta: Salazar. Não o ouviram, não o chamaram, que é da natureza das coisas que os medíocres e os sub-medíocres fechem os ouvidos às palavras clarividentes dos espíritos cultos, e fechem os olhos aos exemplos das consciências sinceras e rectas.»

(In Em Defesa da Portugalidade, pp.24/27, 1947.)

***
«... É, na verdade, uma hora nova, esta hora que estamos a viver.
Devemo-la, de modo especial, a um homem: a Salazar, encarnação de Princípios, de Ideias, de Doutrinas que o Portugal legal de há um século ignorou, embora no Portugal real não faltasse quem Ihas proclamasse.
Um dos grandes e imortais serviços prestados a Portugal por Salazar consiste numa coisa de que só os verdadeiros Homens de Estado são capazes: fazer das circunstâncias, instrumentos úteis das suas ideias.
Chamado ao poder para sanear as Finanças públicas, Salazar não se limitou à missão de que o tinham encarregado; foi muito mais além: meteu ombros à tarefa difícil de limpar a Nação das mazelas revolucionárias, restituindo a Nação à própria Nação. Nesse trabalho anda empenhado. Trabalho gigantesco, porque o peso morto das resistências passivas, dos egoismos interesseiros, do incivismo das chamadas elites, da incompreensão e da estupidez das massas, da influência deletéria das forças ocultas, é enorme, e bem poucos são os que vêem para além das fórmulas do presente, necessariamente transitórias, as bases estáveis que o Futuro reclama.
Dá-me Salazar a impressão da voz do que clama no deserto. À audácia silenciosa do seu pensamento, responde a cobardia, a timidez, o gaguismo dos que deviam acompanhá-lo, animá-lo, estimulá-lo e facilitar-lhe o terreno por onde tem que andar.»

(In Infantas de Portugal, in «Gil Vicente», vol. XVI, n.º 10/11/12, p. 222, Outubro/Novembro/Dezembro de 1940.)

16.4.07

A verdade sobre Aristides de Sousa Mendes

"Embaixador desmistifica «lenda» Sousa Mendes

Terceiro classificado por votação dos telespectadores no concurso promovido pela RTP «Os Grandes Portugueses», a figura de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no período da II Grande Guerra, continua envolta em muitos mistérios e alguma polémica.
Para uns, Sousa Mendes é recordado como um «homem bom e justo» que, em Junho de 1940, contrariando as ordens do Governo de Lisboa, emitiu vistos e passaportes e, nalguns casos, chegou mesmo a atribuir falsamente a identidade portuguesa a milhares de foragidos, sobretudo judeus, que pretendiam a todo o custo alcançar os lugares tidos por seguros. Como Portugal, que Salazar conseguiu manter neutral no conflito.
Para outros, o cônsul está longe de justificar o papel de «herói» que muitos lhe atribuem e, aqui e ali, tentam repor a verdade àquilo a que chamam «falsificação da História» e, através de factos, muitos deles documentados, desmistificam a «lenda» Sousa Mendes. Bastará uma pesquisa atenta no arquivo do MNE ao processo do antigo cônsul — apesar de muitas peças do seu dossier terem misteriosamente desaparecido, sem que até hoje ninguém tenha procurado investigar quem foi o autor (ou autores) do desvio — para que algumas pessoas «verdades» deixem de o ser.
Ao contrário do seu irmão gémeo César, que também fez carreira na diplomacia tendo alcançado o posto de Ministro Plenipotenciário de 2.ª classe, Aristides arrastou-se entre postos consulares de pequeno relevo, foi acumulando processos e mais processos disciplinares desde o longínquo ano de 1917, na I República, até 1940, tendo acabado por passar à disponibilidade e aguardar aposentação, mas continuando a auferir a totalidade do vencimento correspondente à sua categoria (1.595$30). O que desde logo «mata» a tese dos que teimam em acusar Salazar de ter «perseguido» o cônsul e de o ter «obrigado» a «morrer na miséria». Pelo contrário, o então Presidente do Conselho mostrou-se benevolente com Aristides em muitas alturas, nomeadamente quando, contrariando o parecer do Conselho Disciplinar do MNE que, na sequência de mais um processo disciplinar, propôs a pena de descida de categoria do cônsul, apenas determinou a sua inactividade por um ano, com vencimento de categoria reduzido, mas recebendo a totalidade do salário correspondente ao exercício.
Outra verdade que tem sido ocultada pelos defensores de Aristides Sousa Mendes: o cônsul condicionava a emissão de vistos e passaportes ao pagamento de verbas e à obrigatoriedade de contribuição para um estranho «fundo de caridade» por si próprio instituído e gerido, situação que viria a ser denunciada junto do MNE quer pelos serviços da embaixada britânica quer por muitos dos que beneficiaram das «facilidades» de Mendes.
Também esclarecedora para a verdade sobre Sousa Mendes é a carta que o Embaixador Carlos Fernandes(*) dirigiu, em Maio de 2004, a Maria Barroso Soares, presidente da entretanto criada «Fundação Aristides de Sousa Mendes», quando esta pretendeu promover uma homenagem nacional, custeada com dinheiros públicos, ao antigo cônsul.
O DIABO teve acesso à referida missiva, bem como a algumas «notas soltas» que o embaixador lhe juntou, que aqui publicamos na íntegra.

«Lisboa, 5/5/04

Senhora Dra. Maria Barroso Soares

Um antigo embaixador de Israel em Portugal, que foi «instrumental» na mistificação de Aristides de Sousa Mendes, publicou há dois dias no Diário de Notícias, a propósito do aniversário daquele antigo cônsul, um artigo de elogio a Sousa Mendes, reincidindo em duas mentiras que foram fundamentais para aquela mistificação:
a) que foi expulso da carreira diplomática;
b) que morreu na miséria (depreendendo-se que por ter sido expulso da carreira diplomática e sem vencimento).
Ora, tanto quanto eu pude averiguar, primeiro Sousa Mendes nunca foi da carreira diplomática, pertencendo sempre à carreira consular, que era diferente, e, em princípio, mais rendosa; depois, nunca dela foi expulso: como conclusão de um 5.º processo disciplinar, foi colocado na inactividade por um ano, com metade do vencimento de categorias e, depois desse tempo, aguardando aposentação com o vencimento da sua categoria (1.595$30 por mês) até morrer, sem nunca ter sido aposentado, situação mais favorável do que a aposentação.
Portanto, se morreu na miséria, ou pelo menos com grandes dificuldades financeiras, isso deve-se a outros factores que não à não recepção do seu vencimento mensal em Lisboa. Demais, A. Sousa Mendes viveu sempre com grandes dificuldades financeiras.
É óbvio que, quem tenha 14 filhos da mulher, uma amante e uma filha da amante não sairá nunca de grandes dificuldades financeiras, salvo se tiver outros rendimentos significativos, além do vencimento de cônsul.
Vi pelo artigo acima referido que a Sr.ª Dr.ª Maria Barroso é presidente da Fundação A. S. Mendes, e só por isso lhe escrevo esta carta e lhe remeto os elementos de informação anexos.
Eu escrevi sobre Sousa Mendes, de forma simpática, num livro publicado há dois anos (Recordando o caso Delgado e outros casos, Universitária Editora, Lisboa, 2002) de págs. 27 a 30, porque o conheci e tive ocasião de ajudar dois dos seus filhos, um em Lisboa e outro depois em Nova Iorque quando lá era cônsul.
Nada me move contra A. Sousa Mendes, antes o contrário, mas não posso pactuar com a mentira descarada e generalizada. Salazar é atacável por várias razões, mas não por ter «perseguido» A. Sousa Mendes, que, aliás teve problemas disciplinares em todos os regimes de 1917 a 1940.
Quando fui director dos Serviços Jurídicos e de Tratados do MNE, tive de estudar o último processo disciplinar de A. Sousa Mendes, de cuja pasta retiraram já muitas peças.
Por outro lado, o meu amigo Prof. Doutor Joaquim Pinto, sem eu saber, fez um estudo bastante completo sobre A. Sousa Mendes, e com notável imparcialidade.
Eu não pretendo vir a público atacar ou defender A. Sousa Mendes, e, por isso, nem penso rectificar o artigo do embaixador de Israel, mas em abono da verdade, e para seu conhecimento, entendo ser meu dever remeter-lhe uma cópia do estudo e notas em anexo, de que poderá fazer o uso que entender.
Com respeitosos cumprimentos,
Carlos Fernandes»"

In «O Diabo», n.º 1579, 03.04.2007, pág. 6

(*) Embaixador Carlos Augusto Fernandes, licenciado em Direito, com distinção, pela Faculdade de Direito de Lisboa. Entrou no MNE em Abril de 1948 como adido da Legação. Foi cônsul de Portugal em Nova Iorque e Encarregado de Negócios no Paquistão, Montevideu (Uruguai) e Venezuela. Foi conselheiro da Legação Portuguesa na NATO (Paris), Director Económico do MNE. Director dos Serviços Jurídicos e Tratados do MNE e Embaixador de Portugal no México, Holanda e Turquia.


Algumas Notas sobre Aristides de Sousa Mendes


Aristides de Sousa Mendes

Algumas Notas


Num memorandum da Embaixada Britânica, datado de 20/6/40, diz-se:
«O cônsul de Portugal em Bordéus protela para fora das horas de expediente todos os pedidos de vistos, e cobra por eles taxas extraordinárias. Pelo menos, num caso foi ainda o interessado convidado a contribuir para um fundo português de caridade antes de ser-lhe concedido visto».

Processo

Despacho de Salazar preparado pelo Secretário Geral:
«Atendendo a que às infracções cometidas, não tendo em consideração a reincidência, cabe a pena do n.º 8 do artigo 6.º do Regulamento Disciplinar:
Atendendo a que do relatório consta “e o Conselho reconhece a incapacidade profissional do arguido para dirigir consulados, especialmente os da sua categoria”;
Condena o cônsul de 1.ª classe, Aristides de Sousa Mendes, na pena de um ano de inactividade com direito a metade do vencimento de categoria, devendo em seguida ser aposentado.

Lisboa, 30 de Outubro de 1940
a) Salazar


Imputadas Faltas (Desde Novembro de 1939 a fins de Junho de 1940):
a) desobediência
b) falsificação de escrita
c) abandono do lugar
d) concessão (imputação do Embaixador Britânico, de 20/6/40)
e) vistos a austríacos, espanhóis, luxemburgueses e polacos.
Atribuiu falsamente a nacionalidade portuguesa ao casal Miny, em 30/5/40.

Em 18 e 19/6/40 vai a Bayone impondo ao cônsul ali a concessão de «vistos», quer de trânsito quer de residência, indepentemente de consulta.
Como o cônsul Faria Machado objectasse, afirmou-lhe, falsamente, que recebera instruções nesse sentido e que fora a Bayone expressamente para lhas comunicar.

***

Já assim procedera em Novembro de 1939, quando ainda não havia êxodo de França, o qual só começou em Maio/Junho de 1940.

***

Não propôs à Secretaria de Estado mudanças das instruções com que depois disse não concordar, nem mudança de posto.

***
Justificou a falsificação da identidade dos Miny com humanitarismo.

***

Era já o 4.º processo disciplinar de Aristides (1935, por declarações públicas; de novo em 1935, por irregularidades na contabilidade consular; em 1938, ausentou-se do seu posto na Bélgica e veio a Portugal sem autorização quer da Legação em Bruxelas quer de Lisboa; e ainda outro que foi instruído pelo Dr. Francisco António Correia.

***

De 1937 a 1939, consta uma extensa lista de repreensões e censuras. Já em 1917 fora repreendido por se ausentar de Zanzibar.

***
O Conselho Disciplinar do MNE propôs a pena de regresso à categoria anterior (cônsul de 2.ª classe), prevista no n.º 9 do artigo 6.º do Regulamento Disciplinar dos F. Civis.
O S. Geral (Teixeira de Sampaio) entendeu diferente. Salazar, dentro dos seus poderes, despachou a proposta do S. Geral (muito mais benigna).
Isto fez que Sousa Mendes morresse aguardando aposentação, recebendo, depois do ano de inactividade, o seu vencimento por inteiro, como se verifica da declaração que apresentou à Ordem dos Advogados em 25 de Abril de 1946 (1.595.$30) num requerimento que então lhe dirigiu.

In «O Diabo», n.º 1579, 03.04.2007, pág. 7


13.4.07

Um livro a ler: Cruzada contra o Graal de Otto Rahn


Está nas bancas uma nova edição de uma das duas obras de Otto Rahn anteriormente dadas à estampa pela Hugin Editores.
Desta vez, com a chancela da Via Occidentalis aí está a
Cruzada contra o Graal, com 344 páginas e pelo preço de 25,20€.
Uma boa e obrigatória compra para a Feira do Livro.

O Regresso de um Grande Senhor, por Eng. Francisco Ferro


Do meu bom Amigo, Sr. Eng. Francisco Ferro recebi mais um texto que tenho o prazer e a honra de publicar.

O REGRESSO DE UM GRANDE SENHOR

“A ninguém melhor se pode aplicar a máxima de Goethe:
sem pressa e sem pausa, como as estrelas”.
Eugénio Montes


1. A RTP teve a peregrina ideia de realizar em Portugal o concurso “GRANDES PORTUGUESES”, destinado a apurar o maior português de sempre, à semelhança do que fora feito em Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos da América. O referido concurso, copiado de um formato da BBC, é um disparate completo: só se comparam grandezas da mesma espécie e é impossível estabelecer comparações entre o maior político e o maior pintor, entre o melhor poeta e o melhor futebolista, entre o maior chefe militar e um capitão de Abril, entre um português fiel ao nosso destino histórico e um boiardo local de um czar vermelho, mesmo que nascido neste torrão sagrado. Aberta a votação a todos, o resultado seria, como foi, imprevisível e, sobretudo, capaz de acender reacções descontroladas.
Em segundo lugar, a RTP escolheu para pivot do programa a D. Maria Elisa (que conheço muito bem) e cujo percurso político não pode ser considerado como aceitável, dada a sua falta de imparcialidade, de isenção e de distanciamento face aos acontecimentos que comenta. Por fim, os democratas só chamam “eleições livres” às que elegem um democrata: quando se elege Hitler, as eleições não valem ou são falseadas, como quando se elege Peron, ou Le Pen, ou outros mais. Neste contexto, o concurso só podia ser um desastre para quem o congeminou e por uma razão simples: apesar de 33 anos de estupidificação democrática, o povo português ainda conserva alguns valores e nem sempre se deixa enganar.
Só mais uma nota. A escolha dos “defensores” dos dez mais votados obedeceu a critérios surrealistas: quem é a D. Leonor Pinhão e que atributos possui para defender Afonso Henriques? Quem é a D. Ana Gomes para defender Vasco da Gama? Quem é a D. Odete, símbolo supremo do histerismo soviético e da insuperável falta de elegância no aspecto verbal, sem falar noutros menos importantes, para defender o Dr. Cunhal, servidor complacente durante décadas dos interesses de uma potências estrangeira? Quem é a D. Clara, protagonista do programa imbecil “O eixo do mal”, para assegurar a defesa inteligente de Fernando Pessoa? Quem é, e o que fez em estudos históricos, o senhor Gonçalo Cadilhe? Quem é aquele personagem que defendeu Camões? No rol desta lista “democrática” salvam-se Rosado Fernandes e Jaime Nogueira Pinto: esses, ao menos, sabiam do que estavam a falar, fossem quais fossem as suas evoluções ideológicas.
2. Tendo em conta o que disse antes, a RTP estava em maus lençóis: primeiro, tentou afastar Salazar do concurso e acabou por admiti-lo depois de pressões de vária ordem; em seguida, resolveu fazer uma segunda volta, porque Salazar tinha ganho a votação de modo expressivo; em desespero de causa, ao verificar que Salazar comandava as votações, encomendou uma sondagem para ver se conseguia evitar a vitória do “ditador” e preparou uma “Grande Gala” para celebrar o triunfo de um democrata (entenda-se um anti-salazarista), já que a vitória de Cunhal não lhe causava quaisquer engulhos. Não tinha sido Cunhal o maior adversário de Salazar? O que era necessário, o que era imperioso, reduzia-se a um simples facto: Salazar não podia ganhar.
3. Preparado cuidadosamente o cenário, confiante nos ardores democráticos do “povo soberano”, a RTP realizou a “Gala”. Foi um fiasco. A grande maioria dos “advogados”, em vez de defender o seu constituinte, apostou no insulto a Salazar. Milhares de chamadas chegaram à televisão e, algo perturbada, Maria Elisa dizia que tudo estava em aberto. Perdeu mesmo a cabeça quando perguntou a Jaime Nogueira Pinto se as fraquezas de Salazar tinham sido a censura e a polícia política; serenamente, J.N.P. respondeu: mas quem é que diz qual foi a maior fraqueza de Salazar: a senhora, ou eu? O rosto de Elisa toldou-se repentinamente, porque acabava de ser desmascarada e, implicitamente, condenada pela sua conduta ao longo do concurso. Edificante.
Por fim, chegaram os resultados. Salazar ganhara e esmagadoramente. O ambiente tornou-se uma espécie de velório: a vitória do mestre de Coimbra era a derrota do 25 de Abril, dos seus renegados, dos seus assaltantes e dos seus vigaristas: os que entregaram o Ultramar ao imperialismo soviético, os que roubaram bancos e casas e empresas, os que tornaram a Nação um espaço de acção para corruptos e incompetentes. Odete estava á beira de um badagaio (era o fascismo que voltava…) e até o Jaime teve de dizer que não se tratava de nenhuma tragédia.
4. Chegados aqui, ocorre pensar porque ganhou Salazar. Foi um voto de protesto, como afirmou Rosado Fernandes? Em parte, talvez: o país que temos, onde as crianças vão nascer a Badajoz ou na A14, onde se encerram escolas e urgências, onde se desertifica o interior, onde se permite que Bruxelas destrua a agricultura e as pescas, onde a obsessão do défice nos encaminha para um estado policial, não nos permite grandes alegrias nem elas virão com a Ota que temos que pagar. A vitória de Salazar foi, acima de tudo, a vitória de alguém que tinha uma política, um projecto para Portugal, o desígnio irrenunciável de nos manter livres e soberanos, de pé diante das adversidades, frente aos poderosos que nos queriam domesticar, tendo na alma um sentido de História e de passado que o obrigava a não ceder. Como se diz no blogue “Combustões”, “Salazar voltou para reocupar o seu lugar na memória colectiva”. E é reconfortante para mim, que estou na fase final da vida, saber que ele continua vivo e assim permanecerá enquanto houver portugueses.
Francisco Ferro
27 de Março de 2007
(véspera do aniversário da morte de Rodrigo Emílio)

6.4.07

Salazar: moda, fascínio ou desvio de atenções?


Salazar está na moda?
Será que estão fascinados com a personalidade de Salazar?
Será que serve para desviar as atenções de casos polémicos e escandalosos para o regime democrático como são os casos da Casa Pia, do Apito Dourado ou da
Universidade Independente?
Para mim, as três situações são autênticas. Por um lado, falar e escrever sobre Salazar dá dinheiro até mais não. Se assim não fosse, porque seria que revistas e jornais e editoras não param de falar, de escrever e de publicar sobre o ex-Presidente do Conselho?

O célebre "Quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!" continua em vigor. O leitor ávido procura Salazar que lhe é dado a contra-gosto, com (pouco) peso e (muita) medida, o quanto baste não vá dar-se algum fenómeno de multiplicação como foi o caso do concurso "Grandes Portugueses". Mas o problema é que quer Salazar quer o lucro obrigam a isso.
Mais uma prova disso mesmo, é o trabalho de Kathleen Gomes e de Adriano Miranda publicado hoje no Público.
Por outro lado, perante a classe pulhítica que nos (des)governa, todos buscam um foco, um farol que seja referência face ao caos que vivemos desde o século XIX e que só foi interrumpido pelo Miguelismo e pelo Estado Novo, os dois únicos fenómenos de uma visão e de um destino português para Portugal desde há duzentos anos.


5.4.07

Cortem-lhe a cabeça, diz Luciano Amaral

Transcrição de um artigo de opinião de Luciano Amaral, publicado no Diário de Notícias:

"Portugal tem mesmo coisas engraçadas. Um grupo de maduros sem mais nada para fazer põe-se a telefonar para a televisão do Estado e "elege" Salazar como o "maior português" de todos os tempos. Foi quanto bastou para as nossas almas pensantes se mortificarem em reflexões espantosas sobre um sinistro salazarismo latente ou renascente. Parece que não eram só os maduros dos telefones que não tinham mais nada para fazer. Dos múltiplos e vastos lençóis perpetrados sobraram dois excelentes artigos de Jorge Almeida Fernandes e Pedro Magalhães, ambos no jornal Público. Concentro-me no primeiro, por ter apreciado especialmente algumas considerações. Almeida Fernandes relembrou a atávica "dificuldade da esquerda em pensar o salazarismo", nunca ultrapassando o prisma da caricatura. Coisa que, como muito bem notou, "saiu-lhe cara". Recorda ele que, ao longo dos anos 60, Portugal conheceu as mais elevadas taxas de crescimento da sua História, viu os campos esvaziarem-se e o país urbanizar-se, viu nascer uma nova classe média, viu os costumes alterarem-se. E podia ter ido mais longe: também foi sob Salazar que Portugal entrou na "Europa", a Europa da Escandinávia, do Reino Unido, da Suíça e da Áustria, que se juntou na EFTA em 1960; também foi sob Salazar que o analfabetismo se reduziu drasticamente no País; também foi sob Salazar que começou a primeira expansão séria da Segurança Social (ainda com o nome de "Previdência"). Tudo coisas que podem ser feitas sem liberdade política. Dito de forma breve, foi sob o salazarismo que o País começou a "modernizar-se", no sentido que o termo adquiriu no século XX, algo que entretanto prosseguiu até hoje, agora incluindo também a tal liberdade política. Fernandes nota até como, por causa disto, a oposição se sentiu obrigada nos anos 60 a alterar o seu discurso: da crítica "antifascista" passou à crítica "anticapitalista", precisamente porque via o País aproximar-se dos índices do "centro" capitalista. Para Fernandes, estranho é o "antifascismo" serôdio que agora deu em aparecer. E está muito bem estranhado. Na verdade, não se percebe a que "fascismo" se opõe ele. Ou talvez perceba: também as crianças têm os seus amigos e inimigos imaginários. Parece a rainha de copas de Alice no País das Maravilhas, que via adversários por todo o lado e passava o tempo a mandar cortar-lhes a cabeça. Donde se conclui que o mais interessante não foi o resultado do concurso mas as reacções da intelligentsia nacional a ele. Esta intelligentsia mostrou que não percebeu, não quer perceber e provavelmente nunca perceberá o século XX português. De facto, o nosso século XX só poderá ser percebido se também o salazarismo for percebido de forma apropriada. O salazarismo é o momento pivot do século, que define o seu passado e o seu futuro imediatos. Prova disso é o facto de tanta gente precisar ainda hoje de definir o nosso regime relativamente a ele, nem que seja por oposição. O que, aliás, não é bom sinal. O regime deveria valer pelo que tem a oferecer de positivo e não por comparação com uma coisa que, pelos vistos, era tão notoriamente má. A concentração da reflexão (?) na violência política do salazarismo impede muita gente de perceber que ele teve mais adesões do que se julga. A maior parte dos que estavam com ele não era por medo da pancadaria e da censura, mas por gostarem da solução. Não falo de casos raros e minoritários, do estilo do comunista Carlos Rates, que se passou para o regime. Falo sobretudo do pessoal político da I República, gente que teria de ser considerada de "esquerda" e aderiu em grande número ao salazarismo. De facto, o salazarismo dividiu esse pessoal político entre um grupo que se lhe opôs e outro que se lhe juntou (talvez a maioria). Basta pensar em alguns colaboradores de Salazar, que incluíam maçons, carbonários e constituintes de 1911, como Albino dos Reis, Manuel Rodrigues, Bissaia Barreto ou Duarte Pacheco. Porque é que isto aconteceu não se percebe com as banalidades costumeiras sobre o assunto. Salazar não merece certamente ser considerado o "maior português", mas merece algo mais do que aquilo que apologistas e detractores andam por aí a dizer. Sobretudo, merece ser estudado e desmitificado. Se isso já tivesse sido feito, provavelmente nem sequer ganharia o famoso reality show histórico. Como em muitas outras coisas, parece que o cidadão comum percebe melhor o que se passa do que tantas cabeças atafulhadas de livros e teorias. Quando perguntados sobre quem achavam ser o maior português, em sondagens que cumpriam os necessários requisitos técnicos, nomeadamente sem o enviesamento da amostra que existiu no concurso da televisão, os portugueses votaram nos clássicos Afonso Henriques, Camões ou D. Henrique. Mostraram ser bem mais crescidinhos do que as luminárias que querem guiar o nosso caminho."

Magazine Grande Informação: Museu do Estado Novo

Já está nas bancas o n.º 16 da revista Magazine Grande Informação referente a Março/Abril de que há a salientar o trabalho intitulado "Museu do Estado Novo" e assinado por José Manuel Simões que preenche as págs. 70 a 79.
Do editorial, da autoria do seu director Otto Czernin, destaco o Post-Scriptum:
"Quero agradecer à Maria Elisa que com o seu elevado profissionalismo deu uma vitória tão folgada ao Professor António de Oliveira Salazar."
Uma revista a merecer atenção...

2.4.07

Leitura recomendável


...principalmente para os campeões dos direitos do homem, da pessoa humana, da liberdade e de tanta outra treta.
Eis um livro de 168 págs, pelo preço de 17 euros e que demonstra a tão apregoada "superioridade moral da democracia".
Éditions Akribeia - 45/3, route de Vourles, 69230 Saint-Genis-Laval

1.4.07

Alma Pátria acabou!

O Camisa Azul acabou hoje com o blogue Alma Pátria - Pátria Alma alegando problemas das vidas pessoal e profissional.
Sabe-se que o Camisa Azul aceitou trabalhar no Diário de Notícias, lado a lado e em estreita colaboração com Fernando Madaíl, como "consultor político" sobre a extrema-direita nazi-fascista.
Assim, há a lamentar o fim do Alma Pátria e - acima de tudo - o fim das asneirolas do Madaíl, que eram tão divertidas!