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13.6.10

Memória de António Manuel Couto Viana por Manuel Poppe


"Memória de António Manuel Couto Viana

A morte de um poeta admirável passou quase despercebida. Certo que algumas vozes a assinalaram, discretamente. A verdade é não andar ele nas bocas do mundo – no palratório da feira das vaidades: há muito o tinham arquivado. O canibalismo, em versão silêncio, afastara-o da ribalta. Essa prática cuja justificação é a ânsia de monopolizar as atenções vinha reforçada por um argumento mesquinho: a ideologia de Couto Viana ligava-o ao antigo regime. Mas qual “ideologia”? Qual é a ideologia de um poeta? Em Veneza, Aldo Zari mostrou-me a casa onde, homiziado, habitou e morreu Ezra Pound, mudo voluntário, em carne viva. Conhecendo os motivos do isolamento - aproximação à Itália fascista - e conhecendo a grandeza da sua obra, indignei-me. A ideologia dos poetas está na poesia. É ela, são os versos, os escritos, que no-la dão. Sei lá eu das escolhas políticas de Homero, de Ésquilo! Melhor, sei – li-lhes as obras. Tal qual sei do “conservadorismo” de Dostoievski, do “miguelismo” de Tomaz de Figueiredo e tal qual sei da força revolucionária -da força que nos revolveu dentro - de ambos. O homizio e dor de Pound escandalizaram-me – e a verdade é que me aproximaram dele: fui lê-lo e relê-lo, entusiasmado. E o mesmo acontece agora: reabro e aprecio os livros de Couto Viana – um grande poeta, talvez o maior da sua geração, como sublinhava David Mourão-Ferreira, outro esquecido. Consciência dos ossos do ofício de viver, domínio da forma, até ela se apagar, coincidente com o fundo. “Vai buscar a pátria/ onde ela estiver”, escreveu Couto Viana. Não o esqueceu a pátria – esqueceram-no os ignorantes voluntários e involuntários."

Manuel Poppe
In Jornal de Notícias, p. 51. 13.06.2010

16.1.10

E querem comemorar a carcaça? por Eurico de Barros

"No meio do intenso cheiro a podre exalado por este país em acelerado fim de regime e com a identidade em saldos, foi anunciada a programação das comemorações do centenário dessa velha caquética, atontada e promíscua, com joanetes e reumático, tuberculosa das instituições e sofrendo de corrupção em jacto contínuo, chamada República. Nasceu já torta e à força, encharcada no sangue derramado por magnicidas, e nunca mais se endireitou.
Vão ser torrados 10 milhões de euros dos já muito sangrados contribuintes para celebrar tal carcaça, numa programação festivo-"pedagógica" a tresandar a propaganda, a bourrage de crâne e à promoção dessas divertidas abstracções que são a "ética republicana" e a "cultura republicana", e que tem um núcleo centrado nesse exemplaríssimo e iluminado período do século XX português que foi a I República. Regime de "terrorismo de Estado" (Vasco Pulido Valente dixit, não eu), uma "oligarquia das bestas", segundo Fernando Pessoa, entre outros mimos que dedicou às suas figuras mais gradas, nomeadamente Afonso Costa ("É homem para mandar assassinar", escreveu - ver Da República (1910-1935)).
A sem-vergonha vai ao ponto de o postal editado para representar o "Eixo República nas Escolas" (leia-se: a parte do programa das comemorações que visa impingir a tralha dos "valores republicanos" às incautas criancinhas em idade escolar) ter a fotografia duma menina de totós a ir para a escola, com os livros e um Magalhães (decerto uma invenção do Afonso Costa...) às costas.
É de fazer um sujeito bandear-se para a monarquia sem pestanejar."

Eurico de Barros
In Diário de Notícias, 09.01.2010.