25.9.08

Moses Bensabat Amzalak

Moses Bensabat Amzalak
O líder judeu que foi condecorado pelos nazis

Presidiu à Comunidade Israelita de Lisboa durante mais de 50 anos e foi uma das mais proeminentes figuras nos meios académico e espiritual no segundo quartel do século XX. Uma investigação de António Louçã e Isabelle Paccaud, publicada em livro, defende que o dirigente judeu foi agraciado pelo III Reich em 1935 e que manteve "ligações perigosas" com a Alemanha de Hitler.
Em Setembro de 2005, o historiador brasileiro e investigador no Museu do Holocausto em Jerusalém, Avraham Milgram, lançou uma pergunta que se tornou fundamental para os historiadores António Louçã e Isabelle Paccaud: "Onde estão as provas?", questionou ele, em declarações à Pública (edição de 25/09/2005).
Avraham Milgram foi uma das vozes que se juntaram ao coro de indignação nascido no âmbito de suspeitas suscitadas por Louçã no livro Conspiradores e Traficantes - Portugal no tráfico de armas e de divisas nos anos do nazismo (1933-1945). No centro da polémica estava Moses Bensabat Amzalak (1892-1978), português, presidente da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) durante mais de meio século (1927-1978), personalidade ilustre nos meios académico, político e espiritual.
Cientista, economista, professor, escritor e investigador, Amzalak possuía um vasto e impressionante currículo: recebeu doutoramentos honoris causa em diversas universidades nacionais e estrangeiras, foi reitor da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), presidiu à Associação Comercial de Lisboa, foi membro de várias associações académicas de renome, integrou conselhos de administração de importantes empresas privadas, foi agraciado com a comenda da Legião de Honra francesa e com a Ordem do Império Britânico. E era amigo de Salazar, segundo a historiadora Irene Pimentel.
Através de uma troca de correspondência entre Isaac Weissman, refugiado e representante oficioso do Relief Committee for Jewish War Victims (RELICO) em Lisboa, e o Congresso Mundial Judaico (WJC, na sigla em inglês), de 1943, Louçã descobriu que Amzalak tivera "ligações perigosas" com o regime nacional-socialista de Hitler: recebera a Ordem de Mérito de Primeira Classe da Cruz Vermelha Alemã em 1935 e, enquanto co-proprietário do jornal O Século, aprovara no mesmo ano a publicação de uma separata de dez páginas dedicada à "nova Alemanha".
As reacções da CIL e de alguns historiadores a esta "revelação" não se fizeram esperar. No artigo já citado da Pública, antigos dirigentes da comunidade israelita consideraram as suspeitas como "inverosímeis" e "caluniosas" e anunciaram logo um pedido de investigação ao WJC. Até hoje o resultado dessa investigação não foi tornado público. Mas o silêncio que entretanto descera sobre o assunto foi quebrado no final do ano passado, quando surgiu nas livrarias, com a chancela da Fim de Século, O Segredo da Rua d"O Século - Ligações perigosas de um dirigente judeu com a Alemanha nazi (1935-1939), resultado de uma investigação conjunta feita em Inglaterra, Israel, Suíça, Alemanha, EUA e Portugal (apesar dos pedidos de Isabelle Paccaud, não lhe foi permitido o acesso aos arquivos da CIL).

Provas documentais
Neste livro são contados todos os passos que levaram à condecoração de Amzalak pelo Governo nazi (as provas documentais estão em anexo), faz-se uma análise sistemática das edições de O Século entre 1934 e 1939, dá-se a conhecer a política de Amzalak em relação aos refugiados judeus (1933-1945) e é ainda abordada a história dos judeus perante a vaga fascista europeia.
Para entender o contexto em que Moses Amzalak é condecorado não se pode escamotear a sua influência na linha editorial de O Século. Que entre 1926 e 1939 sofreu diversas viragens, diz Louçã ao P2: foi, desde cedo, pró-salazarista (empenhou-se pessoalmente em promover a nova figura da política nacional) e "simpatizava" com o fascismo italiano e com o clerical-fascismo austríaco; em 1935, porém, todos os fascismos se tornaram desinteressantes menos o alemão, que foi tomado pelo diário como o grande modelo, e a Itália só voltou a ter relevo quando se reconciliou com a Alemanha; finalmente, em 39, ano em que Amzalak vendeu a sua quota, eram notórias as reservas à política alemã, cuja glorificação deixou praticamente de existir quando aconteceu o Pacto Germano-Soviético, em finais de Agosto.

Basta atentar nos documentos da embaixada britânica em Lisboa para apurar que foi Amzalak, e não João Pereira da Rosa e Carlos Oliveira, co-proprietários do jornal, o primeiro responsável pela linha editorial. "É a ele que se referem todos os documentos e quando se trata de condecorar alguém é sempre ele o escolhido", afirma o historiador. Para o chefe da Legação Alemã em Lisboa, Oswald von Hoyningen-Huene, a orientação germanófila do periódico era "obra" do dirigente da CIL. Por isso, foi Huene quem propôs ao Governo alemão a condecoração de Amzalak. Fê-lo através de uma carta dirigida ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) alemão, datada de 19 de Fevereiro de 1935, precisamente um dia depois da publicação, n"O Século, da separata de propaganda nazi - na primeira página surgem imagens da cruz suástica, uma fotografia de Hitler e outra de Huene, e um editorial assinado por este último. Como se vê através da leitura da carta (em fac-símile nos anexos do livro), não foi apenas a separata que influiu na proposta de Huene. A segunda razão que é referida pelo diplomata prende-se com a criação, em Janeiro de 35, do Gabinete de Documentação Económica e Financeira Alemã, uma iniciativa de Amzalak, que dirigia o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), e de João Azevedo Neves, reitor da UTL. Na lista de 11 portugueses distinguidos pelo Governo alemão em 1935, apenas Amzalak e Azevedo Neves receberam a mais importante condecoração.
Na missiva ao MNE, Huene explicou os motivos da sua proposta, notando que Amzalak e Neves haviam promovido uma "acção meritória nas relações germano-portuguesas". Tendo conhecimento da retórica violenta (e de alguns boicotes a lojas) que já era propagada na Alemanha contra os judeus, o chefe da Legação alemã fez questão de referir, a título "confidencial", que Amzalak era judeu. Mas, logo a seguir, fundamentou a sua iniciativa: "Como ele é director do Instituto [ISCEF] em que se encontra a Sala de Estudos [Gabinete de Documentação Económica e Financeira Alemã], como tem uma influência determinante nesta instituição e como desempenha um papel político muito importante na qualidade de proprietário do diário O Século, eu consideraria muito inconveniente ignorá-lo, desde que não haja objecções de princípio." E acrescentou que com a carta seguia um artigo do judeu sobre o plebiscito do Sarre. "Não só tornou possível a criação da Sala de Leitura, mas também interveio a nosso favor no jornal dele", escreveu.

A este respeito, António Louçã diz que, sendo a condecoração o resultado de um "relacionamento exploratório" entre a Legação alemã e Amzalak, a distinção, atribuída pelo Governo nacional-socialista através da Cruz Vermelha Alemã (organização que vetava a entrada a judeus), foi um "instrumento de estímulo" para que o líder judaico prosseguisse na defesa das políticas alemães. "A condecoração situa-se cronologicamente no período de quatro anos [1935-39] em que podem ser documentadas as relações de Amzalak com a Legação. Não foi um prémio por esses quatro anos, mas um começo", explica o historiador.

O pedido da "miniatura"
A atribuição da Ordem de Mérito de Primeira Classe da Cruz Vermelha Alemã a Amzalak aconteceu em Julho de 1935, dois meses antes da aprovação das leis de Nuremberga. Será porventura descabido pensar que o presidente da CIL desconhecia a proclamação das leis anti-semitas. Por isso, afigura-se mais espantoso o facto de Amzalak ter pedido ao seu amigo Huene uma "miniatura" da condecoração em 1937, quando a repressão contra os judeus tomava proporções inauditas. Huene voltou então a escrever ao MNE, a 8 de Fevereiro, dando-lhe conta da pretensão de Amzalak. Três meses depois, o reputado português recebeu a "miniatura", acompanhada por uma carta de Huene, escrita em francês. Nela pode ler-se: "Permita-me que aqui lhe envie essa miniatura, pedindo-lhe que queira aceitá-la em lembrança da nossa colaboração."
Em O Segredo da Rua d"O Século, Louçã e Paccaud publicaram uma fotografia, datada de 14 de Maio de 1937, em que Amzalak discursa numa conferência à qual presidiu Huene. Os historiadores supõem (é quase impossível observar isso a olho nu) que o dirigente judeu tenha usado na lapela a miniatura da condecoração que recebera dois anos antes.
Não lhes tendo sido permitido o acesso aos arquivos da CIL, Louçã e Paccaud desconhecem as reacções da comunidade israelita à condecoração do seu líder pelo III Reich e à separata d"O Século. Apesar de o diário não ter publicado uma linha sobre a condecoração, o tributo do regime nazi foi tornado público logo em 1935 pelo jornal Pariser Tageblat, dirigido por alemães antinazis que viviam em França.
A denúncia foi feita num artigo de página inteira, no qual Amzalak é acusado de ter pactuado com a publicação de propaganda nazi e anti-semita no seu jornal, apesar de ser judeu e presidente da CIL.
O feroz artigo do Pariser Tageblat parece não ter surtido qualquer efeito junto do Congresso Mundial Judaico (WJC). O silêncio desta organização manteve-se ao longo de mais de 15 anos. Só em 1951 a organização se pronunciou sobre o caso numa acta que confirma que o Congresso acreditou nas denúncias feitas por Isaac Weissman em 1943. "A acta prova também que o WJC nunca quis tornar públicas essas acusações", nota Louçã, "e que existiu de facto um diferendo grave que quase levou ao congelamento das relações com a CIL".
O documento de 1951 serviu, porém, para restabelecer a ligação entre o WJC e a CIL e, segundo Louçã, isto mesmo poderá ser justificado dentro do contexto das reabilitações operadas no pós-guerra devido à Guerra Fria. "Este foi um dos aspectos mais intrigantes da investigação. A imunidade de que Amzalak gozou talvez se possa explicar pelo clima maccartista do pós-guerra. Entre 1935 e 39, O Século é pró-alemão, apoia a ocupação da Renânia e o plebiscito do Sarre e permite-se mesmo a dar lições à política social do corporativismo português, invocando o modelo alemão", explica Louçã.
Moses Bensabat Amzalak terá sido o único dirigente judeu a receber uma condecoração da Alemanha nazi (a historiografia não refere outro caso semelhante). "Amzalak é ainda visto como um herói e isso permite passar uma esponja por tudo o que está para trás. O que defendemos é que o que está para trás nunca pode ser esquecido", frisa Louçã ao P2.
Na introdução ao livro de Louçã e Paccaud lê-se que a investigação histórica tem, por vezes, algo em comum com as revoluções: "Uma e outras derrubam monumentos."


Maria José Oliveira
In Público, 14 de Março de 2008, págs. 16/17.

23.9.08

Escravidão humana: o próximo passo

Livro: Livro da Ordem de Cavalaria de Ramon Llull


Editado pela Assírio&Alvim em 1992 e em 2002 este texto de Ramón Llull de 75 páginas.
Constituído por sete capítulos, «para demonstrar que os cavaleiros têm honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender. A primeira parte é do princípio da cavalaria. A segunda é do ofício de cavalaria. A terceira é do exame que deve ser feito ao escudeiro quando quer entrar na ordem de cavalaria. A quarta é da maneira como deve ser feito cavaleiro. A quinta é do que significam as armas do cavaleiro. A sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro. A sétima é a da honra que deve ser feita ao cavaleiro.»

20.9.08

Rui Ramos sobre o general Coca-Cola.

«O factor principal da política portuguesa em 1958 era a disputa pelo poder no topo do Estado Novo. À frente do Governo desde 1932, Salazar mantivera o regime mais ou menos indefinido, de modo a servir de albergue às várias forças políticas que tinham, na década de 1920, combatido o domínio da esquerda republicana.»
«Em 1951, a sucessão do Presidente Carmona provocou fracturas entre os chamados "monárquicos" e os chamados "liberais" (designações, aliás, bastante discutíveis). Craveiro Lopes, o novo Presidente da República, ficou de mal com os "monárquicos". No Verão de 1957, correu que decidira substituir Salazar por Marcello Caetano, ministro da Presidência desde 1955 e considerado um "liberal". (...) Santos Costa, o ministro da Defesa e visto como um "monárquico", passou a opor-se à reeleição de Craveiro, prevista para 1958. Craveiro, pelo seu lado, começou a receber militares revoltados com o ministro da Defesa. O ambiente no interior do regime ficou carregado. Em Abril de 1958, Santos Costa ameaçou Salazar: "Ou isto muda ou tudo se perderá." Pressionado por todos, Salazar hesitou ou fingiu hesitar até ao último instante, mas acabou por afastar Craveiro Lopes.
Foi neste contexto que apareceu a candidatura de Delgado. O general não contou com a força da oposição, mas com a dos salazaristas descontentes pelo afastamento de Craveiro. Fez saber, aliás, saber ao Presidente que, se este quisesse apresentar-se à reeleição contra a vontade de Salazar, ele o apoiaria. Caetano, por sua vez, tentou aproveitar a candidatura de Delgado para convencer Salazar a reeleição de Craveiro, o que levou Salazar, num primeiro momento, a desvalorizar o perigo: podia lá alguém como Delgado, que "lhe fora sempre dedicado" e com que ele simpatizava tanto, vir a causar problemas!»
Delgado foi até ao fim, até ao dia das eleições mas tendo a secreta esperança que o Presidente Craveiro Lopes demitisse o Presidente do Conselho e nomeasse um novo governo, mas anuncia que a sua candidatura é independente, apesar do apoio de todo o reviralho, incluindo o do Partido Comunista que acabou por retirar a candidatura de Arlindo Vicente em prol do general.
Derrotado por Salazar, que viria a demitir Santos Costa e Marcello Caetano e a escolher o almirante Américo Thomaz para a presidência da república. Ora, esta estratégia de Salazar fez com que os apoiantes de Delgado o abandonassem à sua sorte, e Salazar demitiu-o das suas funções e levado ao exílio em 1959.
«Quase toda a gente ressentiu a liderança que o general se quis atribuir, achando-o "autoritário" e até "desequilibrado". Tinha sido a impotência que levara os velhos republicanos e comunistas a juntar-se-lhe. Sabiam que os menosprezava (aos republicanos chamava os "barbas". Ao verem-no tão fraco como eles, começou a custar-lhes aturar o feitio independente e irrequieto do antigo "rapaz da Ditadura", sempre pronto para arriscar tudo em mais um golpe.
Tinha havido um equívoco desde o princípio. Nas suas memórias, Santos Costa, que se dava com o famoso escritor oposicionista Aquilino Ribeiro, conta que lhe perguntou, ainda durante a campanha eleitoral, se a oposição queria mesmo Delgado como Presidente. Aquilino foi sincero: "Mas é evidente que não, meu caro amigo. Nós precisamos, acima de tudo, é de alguém que nos abra a porta. O resto se verá depois."


Nota: Não se trata das memórias mas da «Correspondência de e para» da autoria de Santos Costa.

19.9.08

Público: Judeus, um povo inventado?



«Sim, diz o historiador Shlomo Sand num livro que há meses é um best-seller em Israel. Não há um povo judeu como “nação-raça”, apenas uma religião judaica, que sobreviveu pela conversão. O exílio, em 70 d.C. é um “mito”, cristão e sionista. E os palestinianos de hoje serão os “genuínos descendentes” dos antigos habitantes do reino de David. “É uma obra radical”, reconhece o autor ao P2. “Fascinante”, concordam admiradores e críticos.
Shlomo Sand, historiador na Universidade de Telavive, é "um homem muito corajoso". É ele quem se vangloria ao P2, depois de ter publicado um livro (em hebraico e em francês) e um artigo (no Monde Diplomatique) onde conclui, após oito anos de estudos, que "o povo judeu é uma invenção".
Não, escreve Sand, no século XIII a.C. Moisés "nunca poderia ter conduzido os hebreus para fora do Egipto até à Terra Prometida, porque esta era território egípcio". Não, "não há qualquer vestígio de uma revolta de escravos contra o império faraónico ou uma súbita conquista de Canã por estrangeiros". Não, a população do reino de Judá (posterior Judeia) "não fugiu para o exílio no século VI a.C. - só a elite intelectual foi forçada a instalar-se na Babilónia." Não, não houve um segundo êxodo, em 70 d.C., "porque os romanos nunca deportaram populações" - mesmo que quisessem, não tinham logística para expulsões em massa.
"À excepção de alguns prisioneiros feitos escravos, os habitantes da Judeia continuaram a viver nas suas terras, mesmo após a destruição do Segundo Templo. Uns converteram-se ao cristianismo, no século IV, e a maioria abraçou o islão durante a conquista árabe, no século VII." Os primeiros sionistas, enfatiza Sand, até à grande revolta árabe de 1936-39 na Palestina, sabiam que não tinha havido exílio".
Para fazer valer a sua argumentação, Sand cita David Ben-Gurion, o primeiro chefe do Governo de Israel, e Yitzhak Ben-Zvi, o segundo Presidente, asseverando que um e outro "disseram em várias ocasiões, em 1929, que a maioria dos camponeses da Palestina não tem origem nos conquistadores árabes, mas são genuínos descendentes dos habitantes da antiga Judeia".
"É incrível, mas não há nenhum livro, um único, que prove o exílio de 70 d.C., porque ele nunca aconteceu", empolga-se Sand, que pertence ao grupo dos "novos historiadores", como Benny Morris, Avi Shlaim ou Tom Segev. O grande exílio é um mito "originalmente cristão". A ideia era mostrar um castigo divino por os judeus não terem aceitado Jesus como Messias. No século XIX, tornou-se na "base da ideologia sionista, para legitimar a conquista da Palestina".

Os berberes judeus

Se os judeus não foram expulsos e não houve vinte séculos de errância, "o grande impulso para a judaização", no Norte de África, na Europa de Leste ou no Médio Oriente, "foi um processo de conversões", garante Sand. Entre a revolta dos macabeus, em 167 a.C., até à rebelião de Simon bar Kokhba, em 132 d.C., o judaísmo foi "a religião de mais activo proselitismo" - e foram estas "conversões maciças que, sob influência do helenismo, prepararam o terreno para a subsequente disseminação do cristianismo".
Sem as conversões no mundo pagão, avança Sand, "talvez a religião judaica se tivesse tornado completamente marginal, e poderia até nem ter sobrevivido". Mas enquanto o proselitismo durou, mesmo com um abrandamento depois da vitória do cristianismo, no século IV, "os hasmoneanos judeo-helénicos converteram à força os idumeanos [antigos edomitas] do sul da Judeia e os itureanos da Galileia, e incorporaram-nos no povo de Israel". No Curdistão já emergira, no século I d.C., o reino judeu de Adiabene. E, no Iémen, no século V d.C., apareceu "um vigoroso reino judeu em Himyar, cujos descendentes preservaram a sua fé durante a conquista islâmica até aos nossos dias."
Para fundamentar as suas conclusões, Sand cita "obras romanas, gregas e judaicas", incluindo os escritos de Flávio Josefo, Horácio, Séneca, Juvenal e Tácito. "O ponto de partida para a desconstrução dos mitos da historiografia da história dos judeus" foi, porém, a "nova arqueologia", embora ele nos assegure ter "ido mais longe".
Uma das histórias de conversões que Sand relata no seu livro Matai ve'ech humtza há'am hayehudi?, em hebraico, ou Comment le peuple juif fut inventé: De la Bible au sionisme, em francês (em breve haverá também uma versão inglesa) é a da rainha Dahia al-Kahina. Uma orgulhosa judia, ela foi líder de guerreiros berberes nas montanhas de Aurès (actual Argélia) que repeliram o exército muçulmano invasor do Norte de África, no século VII d.C.
"Perguntei a mim próprio como é que vastas comunidades judaicas apareceram em Espanha", contou Sand ao diário israelita Ha'aretz. "Reparei então que Tariq ibn Ziyad, o supremo comandante dos muçulmanos que conquistou Espanha, era berbere e que a maior parte dos seus soldados eram berberes. O reino judeu berbere de Dahia al-Kahina só tinha sido derrotado 15 anos antes. E a verdade é que há numerosas fontes cristãs a dizer que muitos dos conquistadores de Espanha eram judeus convertidos. As raízes profundas da comunidade judaica de Espanha estão nos soldados berberes que se converteram ao judaísmo."

Khazaria e os yiddish

O que Sand descreve como "a mais significativa conversão em massa" terá ocorrido no século VIII, no reino de Khazaria, situado entre os mares Negro e Cáspio, nas estepes ao longo do rio Volga. "A expansão do judaísmo do Cáucaso até à moderna Ucrânia criou uma multiplicidade de comunidades, muitas das quais se mudaram para a Europa de Leste depois das invasões mongóis", afirma o historiador.
No século VIII d.C., os khazares adoptaram a religião judaica e o hebraico como língua escrita. A partir do século X, este reino enfraqueceu e, no século XIII, foi derrotado pelos invasores mongóis. Sand não duvida que os khazares convertidos, em conjunto com os judeus das terras eslavas e do que é hoje a actual Alemanha, "constituíram a origem das comunidades judaicas na Europa de Leste (...), a base da cultura yiddish".
A influência dos khazares é um ponto de discórdia, que levou outro historiador, Israel Bartal, da Universidade Hebraica, em Jerusalém, a criticar Sand por "inventar uma invenção", embora tenha reconhecido que o livro do colega é "um estudo fascinante" (Há'aretz).
Até por volta de 1960, referiu Sand, "as origens complexas do povo judeu foram mais ou menos, relutantemente, reconhecidas pela historiografia sionista, mas depois foram marginalizadas e acabaram por ser apagadas da memória pública de Israel". Restou apenas o mito da "descendência directa do mítico reino de David", e os judeus passaram a reclamar ser "um grupo étnico específico, que regressou a Jerusalém, a sua capital, depois de 2000 anos de exílio".
Bartal nega que "um inteiro capítulo da história judaica tenha sido silenciado por razões políticas", e foi buscar a sua velha Enciclopédia Mikhal, obra de referência sionista, para relembrar a Sand a passagem sobre os khazares, "nação de origem turca".
Diz a enciclopédia, segundo Bartal: "É irrelevante se a conversão ao judaísmo abrangeu um largo estrato da nação khazar; importante é que este acontecimento foi entendido como um fenómeno de grande significado na história judaica, um fenómeno que desde então desapareceu totalmente: o judaísmo como religião missionária. (...) A questão do impacto a longo prazo desse capítulo da história judaica nos judeus da Europa de Leste - quer através do desenvolvimento do seu carácter étnico ou de outro modo - é um tema que necessita de maior investigação. Em todo o caso, embora não conheçamos a extensão da sua influência, é evidente hoje que esta conversão teve um impacto."
Sand, na conversa com o P2, contrapõe: "Quando Bartal fala dos khazares não realça que eles se converteram ao judaísmo, destaca apenas que, antes de eles se tornarem judeus, muitos judeus já tinham chegado à região provenientes da Palestina. Conseguem ver a diferença?" Bartal, acrescenta Sand, "pertence à velha corporação de historiadores, aqueles que, na Universidade Hebraica, nos anos 1930, decidiram dividir a História Judaica e a História Universal em dois departamentos distintos. Quando alguém, como eu, chega e diz que não acredita na História do Povo de Israel, é natural que eles se sintam chocados."
Apesar de tudo, Sand confessa que esperava de Bartal uma recensão mais implacável. "Das minhas 500 referências, ele menciona três erros e, destes três, só tem razão em um e meio, o que me deixa muito honrado. Também não terá gostado que o livro seja um best-seller há 19 semanas, porque isso mostra que a sociedade israelita se tornou mais plural."

Da Bíblia ao sionismo

Bartal não critica apenas a alusão de Sand aos khazares, mas também a asserção de que "'académicos reputados do passado' ocultaram a verdade no que diz respeito à origem impura dos judeus". O seu contra-argumento é o de que "nenhum historiador do movimento nacional judeu alguma vez acreditou que as origens dos judeus são étnica e biologicamente 'puras'."
E continua: "Jamais um historiador judeu 'nacionalista' tentou ocultar o facto de que as conversões ao judaísmo tiveram um grande impacto na história judaica na Antiguidade e nos primórdios da Idade Média. Embora exista na cultura popular israelita, o mito do exílio da pátria judaica (Palestina) é negligenciado nas mais sérias discussões históricas judaicas. Importantes grupos do movimento nacional judeu exprimiram reservas sobre este mito ou negaram-no completamente."
O que é que Sand tenta provar com este estudo, questionou Bartal. "Que a pátria dos judeus não é a Palestina, que a maioria dos judeus descende de diferentes nações convertidas ao judaísmo e que foram os sionistas a desenvolver, no século XIX, uma ideologia etno-biológica e a inventar o chamado "povo judeu"?
Sim, responde Sand: "Os judeus existiram como religião mas não como uma nação-raça. Foi no século XIX que intelectuais de origem judaica na Alemanha, influenciados pelo nacionalismo germânico, levaram a cabo a tarefa de criar um moderno povo judeu, herdeiro de um reino, errante durante 2000 anos e de regresso à pátria".
"Os primeiros historiadores judeus, como Isaak Markus Jost (1793-1860) e Leopold Zunz, olhavam para o Velho Testamento como uma obra teológica, que reflectia as crenças das comunidades judaicas após a destruição do Primeiro Templo", recorda Sand no Monde Diplomatique. "Só na segunda metade do século XIX é que Heinrich Graetz (1817-1891) e outros desenvolveram uma visão 'nacional' da Bíblia e transformaram a viagem de Abraão para Canã, a fuga do Egipto e o reino unido de David e Salomão num autêntico passado nacional. Pela constante repetição, os historiadores sionistas transformaram, subsequentemente, essas 'verdades' bíblicas na base da educação nacional".

Confrontar a historiografia

Ao contrário de Bartal, e ainda que tenha lamentado a profusão de "histórias pessoais, discussões teóricas e observações sarcásticas", o historiador Tom Segev recomendou a leitura da obra de Sand, qualificando-a como "um dos livros mais fascinantes e desafiantes publicados aqui [em Israel] desde há muito tempo".
"Os capítulos históricos estão muito bem escritos e citam numerosos factos e pontos de vista que surpreenderão muitos israelitas quando os lerem pela primeira vez", adianta Segev, num artigo no Há'aretz, que Sand, entusiasmado, nos leu ao telefone. Compreende-se a satisfação de ser compreendido, depois de ter sido insultado. "Houve quem me chamasse nazi e cão, e cheguei a temer ser alvo de agressões por parte de grupos de extrema-direita que violentamente têm interrompido as minhas palestras".
"Eu sou um especialista em História Contemporânea [sobretudo da França onde completou os seus estudos universitários], mas chegou um momento em que senti que era estúpido viver em Telavive e não estudar a história dos judeus, porque o movimento sionista faz parte da história moderna da Europa", disse Sand ao P2.
"Sabia que ia ser contestado, ao enveredar por outra área. Por isso, fiquei impressionado por o meu livro estar a ser vendido aos milhares. A minha posição é muito radical. O êxito talvez se explique porque as pessoas têm medo que a História não esteja com elas."
"Eu não quis destruir o Estado de Israel", vinca este homem que nasceu em Linz, na Áustria, em 1946, e passou os dois primeiros anos da sua vida num campo de refugiados judeus na Alemanha, "Era meu dever confrontar a mitológica historiografia da história dos judeus. O que eu pretendo é dar outra legitimidade ao Estado de Israel. A velha legitimação não se deve manter, porque não é verdadeira. Nunca regressámos a uma Terra Prometida."
Estado de todos
O livro tem um objectivo político, reconhece Sand: "o de transformar Israel num Estado israelita democrático e não num Estado judaico, porque um terço da população não é judia. Por que é que um rabi em Nova Iorque pode dizer que Israel lhe pertence mais do que um colega árabe israelita da minha universidade?"
Sand avisa: "É preciso mudar a consciência etnocêntrica da sociedade israelita. Não há futuro para um Estado judaico, porque deixa de fora 20 por cento de árabes e 5 por cento de imigrantes que não são considerados judeus. Na Galileia, 65 por cento dos habitantes são árabes. Se amanhã se revoltarem, e disserem que querem criar um Estado como o Kosovo, porque o Estado judaico os exclui, têm todo o direito de o fazer. Imaginam Portugal a proclamar-se um Estado dos cristãos?"
"Se em 10-15 anos, não se tornar num Estado de todos os seus cidadãos, Israel deixará de existir", vaticina Sand, ressalvando que é "pessimista mas não fatalista". A diferença? "Acredito que o futuro não é bom, mas não tenho a certeza. Se a civilização durou o século XX sem uma guerra nuclear, não tenho o direito de ser fatalista."
Antes de o telefonema acabar, mais uma clarificação: "Não sou anti-sionista, mas pós-sionista. A definição de uma pessoa como anti-sionista sugere que é contra a existência do Estado de Israel. Eu aceito o Estado de Israel. Digo que hoje há um povo israelita judeu. O problema é que o sionismo não quer reconhecer a nação israelita e apenas a nação judaica. O nacionalismo árabe também não reconhecia a identidade israelita."
De momento, declara Sand, "sou a favor da solução de dois estados - não um judaico e um árabe, mas um israelita e um palestiniano. Depois, espero que seja criada uma confederação de dois estados. Não defendo um estado binacional porque isso seria pedir aos judeus que se tornassem numa minoria no seu próprio país. É inaceitável."
E é assim que, quase quatro décadas depois de Golda Meir, ex-primeira-ministra israelita, ter dito ao Sunday Times (15 Junho 1969) que "não existe isso a que chamam de povo palestiniano", Shlomo Sand, outro israelita, vem dizer-nos que "o povo judeu é uma invenção". E para ilustrar o que daí resultou, o seu livro abre com uma citação de Karl Wolfgang Deutsch: "Uma nação é um grupo de pessoas unidas por um erro comum quanto à sua origem e uma hostilidade colectiva em relação aos seus vizinhos."»


In jornal Público, caderno P2, pág5/7, 13 de Setembro de 2008.


Na sequência deste texto, um membro da Comunidade Israelita de Lisboa fez publicar esta Carta ao Director do Público que fez com que o responsável viesse a pedir "desculpa por tê-lo induzido em erro."
O respeitinho é muito bonito caso contrário passa-se de jornalista para arrumador de carros. Sem tirar nem pôr!

18.9.08

J Street: Há um novo lobby judeu na América e não tem medo de criticar Israel

«Em Washington não há nenhuma J Street (as ruas horizontais vão directamente do I ao K), mas é aqui que as palavras de Barack Obama durante a visita que hoje inicia a Israel serão ouvidas, provavelmente, com mais atenção. J Street é o nome de um novo lobby judeu nos Estados Unidos que alguns analistas prevêem irá "mudar o mapa político americano e do Médio Oriente".
Reparem no que diz ao P2, por telefone, Daniel Levy, um dos cem membros do conselho consultivo de J Street. "Hoje em dia, é muito difícil dizer 'Eu apoio Israel, ponto final'. Porque a pergunta a seguir é. 'Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas? Israel que quer reter os Montes Golã e não acha importante dialogar com a Síria ou Israel que quer tratados de paz com os vizinhos sendo que isso implica devolver territórios?"
"Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel", frisa Levy, asseverando que J Street não terá medo de enfrentar um primeiro-ministro israelita que não comungue as posições do grupo - sondagens apontam como favorito em próximas legislativas o "falcão" Benjamin Netanyahu. E até podem acusá-lo de ser "anti-semita" ou "self-hating Jew" (judeu que se odeia a si próprio) - expressões frequentemente usadas para silenciar os críticos das acções de Israel. "Os israelitas, por estreita ou larga margem, podem eleger um líder que se opõe ao processo de paz, mas não seremos apoiantes de opositores de paz.".
"Haverá pessoas que irão intimar-nos: 'Vocês têm de apoiar o governo israelita!'", reconhece Levy. "Mas eu responderei que isso não se aplica a nenhum outro país. Eu posso ser pró-Venezuela e não apoiar a política de Hugo Chávez. Posso ser um grande admirador da República Checa mas posso não achar uma boa ideia instalar ali um sistema americano de defesa antimíssil. Todos nós, na América, sobretudo os judeus, temos ligações emocionais a Israel, mas não podemos deixar de ser racionais, como se Israel vivesse noutro planeta. Será uma política destrutiva ajudar Israel avaliando-o segundo padrões diferentes. Israel precisa de fronteiras negociadas e reconhecidas. Às vezes abraçamos Israel quase até à morte. Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado."
Israel é o maior receptor de ajuda dos Estados Unidos (3000 milhões de dólares anuais). No entanto, como já havia notado Levy num artigo na American Prospect, não é submetido a qualquer pressão. Pelo contrário, "pode gozar uma ocupação de luxo - já gastou mais de dez mil milhões de dólares em colonatos desde 1967." Ora, este "vício de mau comportamento sem consequências conduz à tentação de uma escalada (...) e estrangula uma solução viável de dois Estados."
Alternativa ao AIPAC
As palavras são duras, mas Levy é um "peso-pesado". Cientista político de origem inglesa, é filho de Michael Levy, membro da Câmara dos Lordes, líder da comunidade judaica no Reino Unido e um dos maiores angariadores de fundos da campanha de Tony Blair. Foi conselheiro de três líderes israelitas - Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon. Participou nas negociações com os palestinianos em 1995 (Oslo B) e em 2001 (Taba). Foi um dos principais redactores da Iniciativa de Genebra (um ambicioso plano de paz) e agora é senior fellow da Century Foundation e da New American Foundation. O seu blogue, Prospects for Peace, é um dos mais lidos na Web.
Não o confundam com os anti-sionistas de extrema-esquerda Noam Chomsky ou Norman Finkelstein. Mas também não o incluam no grupo de neo-conservadores de Bernard Lewis. Assumidamente "liberal e progressista", coloca-se no "centro político". Embora não pertença ao "núcleo duro" de J Street, cujo director executivo é Jeremy Ben-Ami, antigo conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e neto dos fundadores de Telavive, Daniel Levy tem sido descrito como "o ideólogo" e Ben-Ami como o "chefe de operações" do novo lobby.
E este, apresentando-se como "braço político do movimento pró-Israel e pró-paz" nos EUA (as suas bases são organizações como American for Peace Now e Israel Policy Forum), quer ser "uma alternativa" ao velho establishment judaico, "infiltrado" pela direita israelita do Likud, pelos neocon e por cristãos evangélicos fundamentalistas. Ou como Levy os caracterizou, "uma combinação que tem sido um desastre para a política americana e para Israel."
É uma tarefa árdua, "redefinir o que é ser pró-Israel", já que o AIPAC tem 200 funcionários, 100 mil membros e um orçamento anual de 60 milhões de dólares, enquanto J Street tem quatro funcionários, 1,5 milhões de dólares e, por enquanto, apenas 40 mil "filiados". Nada que atemorize Daniel Levy. "Conseguir a adesão de 40 mil pessoas em apenas três meses é significativo", sublinha. Mais: do orçamento de 1,5 milhões, cerca de 1,1 milhões já foram angariados online.
A Internet é uma das ferramentas com que J Street tenciona fazer a diferença. "Estamos a usar os instrumentos modernos de organização política, como o MoveOn.org [um projecto virtual que inspirou também a campanha de Obama]. Queremos criar uma grande circunscrição online, que permita financiar candidatos favoráveis à paz, já que somos também um PAC [Political Action Committee]".
Uma morada na Internet
Entre os primeiros candidatos ao Congresso apoiados por J Street está um republicano, Charles Boustany, o que responde às dúvidas dos que se interrogavam sobre se o novo lobby só estaria ao lado de democratas. Há quem acredite que estes apoios vão abalar, ainda que modestamente, a influência do big brother AIPAC no Capitólio. Exemplo: Agora, sempre que alguém vir o seu financiamento reduzido por ter feito declarações que o AIPAC considera "anti-Israel", pode sempre telefonar para J Street a pedir o dinheiro que faltou, ainda que J Street seja mais um endereço URL do que um edifício.
O nome foi propositadamente escolhido para preencher um vazio, tem explicado Ben-Ami. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Esta frase, colocada num anúncio no New York Times, é uma implícita referência ao AIPAC com o qual muitos judeus americanos e israelitas já não se identificam. Entre os 100 membros do conselho consultivo de J Street há rabis, académicos, políticos, CEO e prémios Nobel. E entre os supporters (apoiantes) em Israel estão diplomatas, políticos, ex-generais e antigos operacionais dos serviços secretos. É o caso de Yossi Alpher, que foi responsável da Mossad e agora colabora no site israelo-palestiniano bitterlemons.
Inquirido pelo P2 sobre a sua adesão ao novo lobby, Alpher respondeu por e-mail: "Estou convicto de que Israel merece estar mais bem representado entre os judeus americanos no que diz respeito a questões do processo de paz. J Street, ao contrário do AIPAC, é muito mais representativo da opinião dos judeus americanos."
Isso não dissuadiu, porém, Barack Obama de discursar na conferência anual da AIPAC. O senador do Illinois, cujo nome do meio é Hussein, tinha de provar as suas credenciais "pró-Israel", até porque precisa do eleitorado judeu que está a ser cortejado pelos republicanos em swing states, como a Florida. Foi aplaudido de pé quando declarou que "Jerusalém permanecerá a capital de Israel e deve continuar indivisível".
Claro está que os árabes, encorajados por anteriores declarações de Obama em que admitiu "não concordar com todas as acções do Estado de Israel" e retratou o conflito israelo-palestiniano como "uma ferida aberta que infecta toda a política externa dos EUA" (The Atlantic), ficaram decepcionados. Dias depois, Obama deu uma entrevista à CNN, esclarecendo que o estatuto de Jerusalém " é uma questão a ser negociada pelas partes".
Levy achou importante esta clarificação. "Ele aceitou os 'Parâmetros Clinton', ou seja, que os bairros árabes em Jerusalém serão palestinianos e os bairros judeus serão israelitas. O que ele quis dizer é que não deve haver um arame farpado a dividir a cidade como em 1967 [antes da Guerra dos Seis Dias], e até admitiu que a frase que usou [na convenção do AIPAC] não foi bem escolhida. Também disse que Israel precisa, para sua segurança, de uma solução de dois Estados. E esta é uma posição encorajadora."
Além disso, mais do que a referência à Jerusalém, o que foi importante, para Levy, no discurso de Obama ao AIPAC foi a promessa de que resolver o conflito israelo-palestiniano será uma prioridade. O apoio que exprimiu às negociações entre Israel e a Síria. E a afirmação de que, na abordagem ao Irão, privilegiará a diplomacia e não uma nova guerra.
O Irão e o reverendo Hagee
Quanto ao generalizado sentimento israelita de que o Irão constitui uma ameaça existencial e tem de ser contido, a análise de Levy é esta: "Acho que, em Israel, há uns genuinamente preocupados e outros que criam um pânico desnecessário, por causa das coisas nojentas que o Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad diz e também das ambições do Irão de ser uma potência regional. Há uma mobilização em Israel para a necessidade de bombardear o Irão. Os israelitas olham para o passado e dizem: 'Bombardeámos o reactor no Iraque, bombardeámos algo na Síria e por isso OK, podemos bombardear os vizinhos, porque resulta. O problema é que o debate público não está a considerar que a situação no Irão é muito diferente e muito perigosa se houver uma guerra."
Levy compara o ambiente em Israel com o que existe em muitas sociedades em conflito. "Os israelitas são frequentemente tentados a pensar: 'Não há solução, vamos bombardeá-los', o que até é compreensível, mas não é uma boa política. Uma maioria de israelitas apoiou a guerra no Líbano há dois anos, mas agora admitem que foi um fucking mistake, mas na altura achavam que era uma grande ideia. A maioria dos israelitas apoia ataques militares na Faixa de Gaza mas também apoia o cessar-fogo com o Hamas. Há muitas dissonâncias nas sociedades em conflito. Eu creio que os israelitas ficariam muito felizes se houvesse uma solução diplomática para o Irão."
Levy está, por isso, entusiasmado com a campanha de J Street contra uma guerra no Irão: "Uma carta a todos os candidatos ao Congresso obteve mais de 30 mil assinaturas online numa semana". Outro sucesso que o novo lobby reclama é uma petição que forçou o candidato republicano, John McCain, a renegar o apoio do reverendo John Hagee, pastor da congregação Christians United for Israel (CUI), aliada do AIPAC.
Na ânsia de apressar o "segundo regresso do Messias", Hagee fez recentemente um sermão que causou uma onda de repulsa: "Deus disse a Jeremias: 'Enviarei muitos pescadores e depois enviarei muitos caçadores'. Os pescadores são os sionistas, homens como Theodor Herzl. (...) E os caçadores? Hitler foi um caçador. Como é que isso [o Holocausto] aconteceu? Porque Deus permitiu que acontecesse. Por que aconteceu? Porque Deus disse: 'A minha máxima prioridade é fazer retornar o povo judeu à Terra de Israel."»
In Público, 22.07.2008, pp. 4/5/6.

15.9.08

Livro: Dicionário Imperfeito de Agustina Bessa Luís

A Guimarães Editores editou este interessante Dicionário Imperfeito que é antologia de pensamentos de Agustina Bessa Luís sobre a mais variada temática e que dá o início à publicação de toda a obra desta autora portuense.
Aristocracia
“Se é realmente o que promete o seu nome, ou seja o domínio dos melhores, ela é a expressão mais adequada da desigualdade real entre os homens, porque conduz à assimilação dos conteúdos da sabedoria e da justiça, que são valores interiores próprios da ordem aristocrática no sentido puro, e que nunca podem ter os como expressão exterior a ostentação dum pedante.” (p. 20)
Democracia
“Hoje, fala-se imensamente de democracia. Eu acho que não deve haver dez pessoas que saibam o que é democracia, nem acredito que sejam capazes de a viver. Acho que teríamos que começar por aí. No fundo é um estado de civilização muito apurado. Mas, nessa definição, cabem todas as tropelias e todas as insânias e todas as mediocridades.”
Aquilo que podemos chamar desgraça dos dirigentes é a sua desconexão com a massa popular. A democracia acaba em fachada sonsa de uma pequena festa oligárquica; os partidos, produzidos por uma composição de afinidades e sentimentos de grupo restrito, decidem sem a intervenção do povo nas circunstâncias geralmente limitadas a campanhas irreais; campanhas de conteúdo aparentemente cívico e tutelar, como sejam alianças, intervenções e processos persecutórios, internos ou externos, destinados a coroar um valor superlativo do governante. A descolonização foi um desses processos, a entrada na CEE é outro, e assim por diante.
Tudo o que o homem da rua e o burguês resignado podem fazer é conceder a sua confiança ao candidato que – sabe-o muito bem e não isento de azedume – não escolheu. O que explica em parte a renovação dos mandatos, que tão monotamente se sucediam em tempos não distantes, foi sobretudo essa moderação das populações que têm como forma de se terem por inteiradas a familiaridade com o candidato. Aquele que primeiramente parecia mal calhado, e a quem não pouparam a praxe da prova do caloiro que foi sempre, nas comunidades democráticas, como nas estudantis e religiosas, o exercício de competência, acaba por ganhar um direito – o que corresponde à escolha. Por isso é sempre difícil fazer aceitar um candidato novo; o candidato já conhecido tem uma vantagem inegável sobre qualquer outro. O seu carisma pessoal, que transborda para além das suas vicissitudes e limitações, enche o horizonte do eleitor. (…) Nós sabemos que o nosso papel como eleitores é precário.” (pp. 73/74)

Marcelismo
“Uma prolongada fase de incerteza acaba por gerar um desenlace violento, em contradição com os princípios essenciais do próprio pensamento. A revolução de 25 de Abril, na sua história mais radical, resultou dessa saturação da incerteza que o regime de Marcello Caetano personificou. Não tanto pela sua habilidade inoportuna duma linha de continuidade, como pelo aproveitamento duma linha de continuidade incapaz de representar o mundo social da jovem geração.” (p. 177)
Revolução de Abril
Portugal e o Futuro significou para mim a primeira lancetada no corpo social que ia ser desgarrado entre conselhos de especialistas da subversão que calçavam luvas, e legitimistas da insurreição que calçavam botas. Quanto a revolução, ainda estamos em 15 de Abril de 1974: um proletariado que ameaça, uma burguesia que conspira, ou vice-versa.
Está em suspenso o carácter verdadeiro desta Revolução. Ela é reivindicada por grupos e autenticada por pressões exteriores, convertida a ideias civis e militares, transformada em guerra moral e em reabilitação da salvação pública. Mas, na realidade, o que aconteceu? Observadores minuciosos, cuja frieza não é suspeita nem de baixa mentalidade, nem da grosseria de impor a sua razão, nem de hipocondria romântica, não se cansam de reflectir sobre a Revolução de Abril. Um fenómeno com bases pré-políticas, ou um acontecimento isolado, vivido por efeito duma extrema paixão e logo absorvido pelo mundano espírito demagógico e as adorações da civilização; tal como a chamada Gloriosa Revolução Inglesa, esquecido pelo soberano menor que é o povo?
Contudo, o delicado problema, que desde o início perturbou até aqueles que com infalível precisão agiram no 25 de Abril, continua por resolver: o que significa a Revolução Portuguesa? Dizer que foi uma opção que alterou o curso da nossa História, não explica nada.
Os dois principais aspectos positivos: a euforia, que no povo tem historicamente o papel dum sensibilizante quanto a toda a espécie de apetites inumanos que a civilização lhe incute; e a medida da tragédia, que foi criando nas pessoas a ideia de que qualquer poder não sobrevive em comum com quaisquer ilusões.
Os negativos são os equívocos e o amadorismo. Quando se trata de observar a realidade, tudo tem a mesma importância – a realidade oculta, a aparente, o seu processo e a sua origem. É a vida duma nação que está em causa, e não só a sua representação em homens ou em ideias.” (pp.254/255)

14.9.08

Leitura semanal

A Cidade do Sossego
A experiência construtiva do Nacionalismo
Fascismo
Nacionalismo
Civilização

A Voz Portalegrense
Carl Schmitt
Carl Schmitt
Ensino da História em Portugal I
Ensino da História em Portugal II
Ensino da História em Portugal III
Ensino da História em Portugal IV
Ensino da História em Portugal V

Caceteiro
O último combate do Augusto de Castilho

Demokratia
Sobre as eleições em Angola
O preço das "Amplas Liberdades" (5)

Dragoscópio
Democracia

Gladius
Recordar um dos marcos da libertação europeia contra o invasor muçulmano

Jantar das Quartas
A História contada nas escolas
O fim da nossa história?
O fim do nosso povo?

Manlius
Katyn para sempre recordar
7 de Setembro - Dever de Memória
O "nosso chinês" de Tianamen
Omar e o traidor traído
Os crimes dos "bons"

Mas o rei vai nu
A primeira remessa dos novos equipamentos para o Exército

O Sexo dos Anjos
"Prender menos foi uma opção política"
711 Anos do Tratado de Alcanizes

Pena e Espada
Hacienda de la Fuente
Nota sobre O Senhor dos Anéis
Guerra mediática

Reverentia
A loucura e a falta de senso...

O Pasquim da Reacção
Abril é holocausto

Último Reduto
Grandes feitos da tugolândia moderna e arejada
Bloquismo histórico

Um homem das Cidades
Sionismo e Anti-Semitismo: uma estranha aliança através da história
Truman e Bush, de bestas a bestiais? - por João Pereira Coutinho do Expresso
O valor da (des)informação no Expresso
O ciclo do petróleo por Jon Stewart
Konzentrationslager Palestina - Arbeit Macht Frei

Inconformista

Pt No Media

Pt NovoPress

Revisionismo em Linha

Sinais dos tempos

Jovem leiloa virgindade na Internet para pagar estudos

12.9.08

Livro: Contra-subversão em África de John P. Cann

Reeditado pela Prefácio Editora em 2005 após uma primeira edição em 1998, ao longo das 226 páginas, «Este livro é a história das Campanhas na perspectiva dos militares portugueses. Aborda o conflito através de uma análise militar temática do esforço de contra-subversão desde as revoltas em Angola, a 4 de Fevereiro e 15 de Março de 1961, até ao golpe militar de 25 de Abril de 1974, em Lisboa. Descreve o modo como Portugal definiu e analisou o problema, como desenvolveu as suas próprias política e doutrina militares, e como as aplicou ao ambiente colonial africano. Tem ainda como objectivo demonstrar como a estratégia nacional portuguesa de economizar e preservar os seus fracos recursos se traduziu em acções nos níveis de campanha e táctico e como esta estratégia foi eficaz ao permitir que Portugal dirigisse uma constante e longa campanha em três colónias distantes. Ao seguir estratégias de campanha simultaneamente abrangentes e restritas, Portugal tentou quebrar a organização dos movimentos nacionalistas através da acção de agentes e opor-se à acção armada por meio de força militar e de pressão diplomática apropriadas. Simultaneamente, procurou proteger as populações do contacto com os revoltosos e conseguir a sua lealdade, elevando os seus padrões de vida e atendendo às suas queixas. Estes elementos, a sua combinação específica e o modo como foram executados, reflectem aquilo que se pode classificar como “o modo português de fazer a guerra”.» (pp. 11/12)
***
«Compreenderam-se os seus (Salazar) piores receios quando Daniel Semenovich Solod, o “brilhante organizador e perito em tácticas de infiltração e subversão” foi enviado para a República da Guiné em 1960. O embaixador Solod criara uma impressionante reputação ao incrementar a influência soviética no Médio Oriente e no Norte de África, e começava agora a trabalhar nas colónias portuguesas, alimentando a perene subcorrente de dissidência nacionalista.» (p.43)
«Os ataques de 4 de Fevereiro em Luanda foram desencadeados por homens ligados à UPA, apoiados na sombra pelo Cónego Manuel das Neves, vigário-geral da Arquidiocese. Tomaram parte no assalto simpatizantes da UPA, do MPLA ou apenas nacionalistas. Todavia, o MPLA reivindicou a acção, em Conacri.» (p. 44)
«Todavia, o Exército Português resolveu estes problemas e em 1970 tinha ganho o controlo dos conflitos nos três teatros sublevados. Podia então afirmar que tinha a força estruturada correcta, adequadamente treinada e conduzida, que aplicava com êxito conceitos adaptados à situação em África e que os conflitos estavam relativamente sob controlo. Estes não foram pequenos feitos. O objectivo de conseguir um conflito controlado, de baixa intensidade, tinha sido atingido, lado a lado com uma sustentabilidade por tempo aparentemente indeterminado.» (p. 103)

Fuzilamento do general alemão Anton Doestler

11.9.08

1946 - Enforcamento de alemães


Moçambique - 7 de Setembro por António Maria Zorro

«Foi a meio da tarde de domingo, 8 de Setembro de 1974, que os portugueses do que então era ainda Portugal Metropolitano se aperceberam da gravidade do que estava a passar-se em Lourenço Marques, onde, na véspera, um grupo de jovens tomara o Rádio Clube de Moçambique, transformando-o em “Voz de Moçambique Livre”: com adesão espontânea de milhares de pessoas sem distinção de milhares de pessoas sem distinção de raça ou de credo político ou religioso, com a participação de representantes de todos os partidos políticos ali criados após o “25 de Abril”, com a colaboração, até, de antigos chefes da guerrilha antiportuguesa, essa “Voz de Moçambique livre” erguia-se contra a miserável subserviência do governo de Lisboa face aos agentes do imperialismo marxista e, em especial, contra a entrega de Moçambique à Frelimo, acabada de firmar em Lusaka.
Mas nessa já quase outoniça tarde de Setembro, Costa Gomes e Vasco Gonçalves puseram a funcionar a mais espantosa de desinformação que até hoje se conhece neste desinformado país: sobre os ocupantes do Rádio Clube foram lançadas as mais sórdidas e mais falsas acusações que poderiam imaginar-se; todas as notícias vindas de Lourenço Marques foram cortadas ou manipuladas, toda a verdade foi distorcida até ficar irreconhecível; quando, ao cabo de 72 horas de resistência admirável, os ocupantes do Rádio Clube traídos por todos quantos lhes deveriam dar apoio, se viram forçados a desistir do seu patriótico intento, a opinião pública metropolitana mergulhou na total ignorância do que acontecera nesses três dias históricos e do que logo depois viria a acontecer – uma chacina monstruosa.
Decorridos mais de três anos essa ignorância é hoje quase tão densa como então, quebrada que foi apenas pela obra de Ricardo Saavedra “Aqui Moçambique Livre”, breve e empolgante inventário daqueles acontecimentos, que se editou em Joanesburgo mas que as amplas liberdades do PREC não permitiram se divulgasse devidamente. E acontece, deste modo, que de todos os terríveis casos da “descolonização exemplar” o do “7 de Setembro” é, sem dúvida, o menos conhecido.
Bastaria isso para conferir um extraordinário interesse ao livro de Clotilde Mesquitela agora vindo a lume. É o relato, de momento a momento, dessas inesquecíveis 72 horas que, no justo dizer de Tavares de Almeida, prefaciador da obra, “foram vividas na plenitude da esperança e da angústia, na euforia da vitória e no sombrio desespero da derrota – da derrota de Portugal vitoriado até ao assombro pelas vozes de pretos e brancos, defendido até à exaustão também por pretos e brancos”. E é um relato que não oferece contestação – tal como o diário de bordo de um navio naufragado, tal como a “caixa negra” de um avião despenhado – pois a sua Autora não precisou de se documentar para escrever: esteve lá, do princípio ao fim, ao lado do marido e dos filhos, correndo todos os riscos, assinalando todos os factos por simples força das circunstâncias, pensando em tudo menos em escrever um livro. Por isso mesmo, quando, já no exílio, se decidiu a escrevê-lo, chamando-lhe, significativamente “memórias da revolução”, o seu trabalho resultou pleno de espontaneidade e de autenticidade, alma a sangrar-lhe ainda como Portuguesa, Mulher e Mãe.
“Moçambique 7 de Setembro” é uma obra relevante na já vasta bibliografia escalpelizadora da tal “descolonização exemplar”, de que hoje fingem indignar-se alguns dos próprios culpados mais directos. É-o não só pelas páginas dedicadas aos acontecimentos decorridos dentro ou fora do Rádio Clube de Moçambique, mas igualmente por aquelas em que se historiam, com simples mas flagrantes anotações, os antecedentes de ordem pessoal ou factual que levaram ao trágico epílogo de todos nós conhecido.
Em boa verdade, não sei o que será mais arrepiante neste livro: se a descrição do terror que se abateu sobre Lourenço Marques depois das autoridades haverem entregue o microfone do Rádio Clube de Moçambique a um militante da Frelimo, se a revelação – corajosa e implacável – de todo um cortejo de abdicações vergonhosas, de traições imperdoáveis, de omissões pusilânimes – e mesmo de ingenuidades – e mesmo de ingenuidades incríveis. De qualquer modo, é um livro para ler atentamente, retendo, por igual, as imagens negativas e positivas que dele se contêm, da mais repulsiva delinquência ao mais abnegado heroísmo, pois de ambas as espécies é feita a verdade.
Não cabe, é claro, no âmbito desta crónica, procurar responder a perguntas que a leitura do livro de Gonçalo Mesquitela inevitavelmente nos propõe: tinha o heterogéneo movimento do “7 de Setembro” capacidade para deter Moçambique no caminho do abismo? Teria, caso lhe não faltassem os apoios prometidos, conseguido alterar o curso da História? Estas ou outras indagações nada têm a ver com a obra em causa, que é, sobretudo, um documento imprescindível para quem queira conhecer a verdade dos factos, mas um documento onde a frieza e a objectividade da análise não podem – não poderiam nunca – ignorar o espírito de gesta que animou aqueles “rebeldes” de uma “revolução sem armas”, os últimos que souberam honrar em Moçambique a bandeira da Pátria destruída.

António Maria Zorro»
In jornal A Rua, 1977, p. 19.

10.9.08

Algumas verdades sobre a traição em Angola

«Mas se algumas dúvidas ainda hoje subsistissem quanto às conclusões sobre os acontecimentos de Angola a que na altura cheguei, considerando os dois “jogadores” responsáveis pela violência naquela terra, basta relembrar Iko Carreira, ex-Alferes da Força Aérea Portuguesa e elementos de grande influência dentro do MPLA onde militou após a sua deserção, escreveu no seu livro de 1996, O Pensamento Estratégico de Agostinho Neto, afirmando na pág. 70: “Infelizmente, a luta de libertação do povo angolano era, quando Neto chegou a Leopoldville, um objecto da Guerra Fria. O MPLA e a FNLA tinham-se transformado, talvez mesmo sem o saber, em organizações cuja actividade era controlada por cada uma das outras grandes potências militares da época. Das quais também se tornaram dependentes do ponto de vista material, servindo a respectiva propaganda. A FNLA estava ligada aos norte-americanos, enquanto o MPLA estava ligado à União Soviética.”» (p. 182)

«Poucas semanas antes da eclosão dos acontecimentos que tiveram lugar no Norte de Angola, Holden encontra-se com Franz Fanon em Tunes e, segundo testemunho da esposa de Fanon, teria dito: “Esteja atento no dia 15 de Março, o dia em que vai ser debatida na ONU a moção apresentada pela Libéria; algumas coisas muito importantes irão acontecer em Angola.” Toda a operação tinha sido planeada com tempo e as diversas acções convenientemente programadas.
Apesar das opiniões, algumas contraditórias, que apareceram na imprensa de todo o mundo sobre as origens, evolução e consequências dos acontecimentos que então tiveram lugar, a realidade era só uma e duma crueldade inconcebível, podendo ser sintetizada nos seguintes pontos:
- Em poucos dias, com início em 15 de Março, milhares de pessoas são exterminadas, entre brancas e pretos, sem que se vislumbre uma conexão clara entre causas e efeito.
- A retaliação das populações, em especial dos colonos brancos, não se fez esperar, matando indiscriminadamente, num desespero total ou simples acto de vingança.
- O racismo surge na sua componente mais dramática, a do sangue, a da morte: és preto, és culpado dos assassínios; és branco, vais matar-me e eu tenho de defender-me!!
Era difícil descrever o clima de medo, verdadeiro pavor, autêntico inferno, que se vivia em Angola, desde Luanda, onde afluíam os colonos que tinham escapado ao genocídio, até à fronteira norte com Congo, abrangendo uma área superior à de Portugal continental. As forças da ordem eram por demais insuficientes, para devolver àquela gente, claramente aterrorizada, um mínimo de tranquilidade que lhes permitisse agir duma forma racional, impedindo o agravamento da situação. Reinava o pânico, o ódio, a sede de vingança.
O pronunciamento de Salazar estava correcto. “Para Angola rapidamente e em força.” Não tínhamos alternativa se pretendíamos restabelecer a ordem naquele território.» (pp. 184/185)

«Em 5 de Abril de 1962, a FNLA cria o GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio), afirmando dispor de um aparelho administrativo, judicial e militar que lhe permitia o controlo efectivo o território de Angola, o que não passava de pura utopia ou miragem e que tinha apenas fins propagandísticos. No seguinte, é fundada em Adis-Abeba a OUA (Organização de Unidade Africana), que quase de imediato, reconhece o GRAE em prejuízo do MPLA, ao qual não reconhece capacidades para levar a luta armada até ao interior de Angola. Neste seu início de vida, e até 1964, este governo teve no desempenho das funções de Ministro dos Estrangeiros o Dr. Jonas Malheiro Savimbi que desenvolveu uma intensa actividade diplomática não só em África mas igualmente na Europa, com o fim de recolher apoios tanto políticos como igualmente de material. O seu exército, ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola), dispunha do apoio político dos EUA, sendo o apoio material circunscrito a uma pequena ajuda financeira. As armas provinham essencialmente do Congo sob o patrocínio dos Estados Unidos, e de outros países africanos, em especial da Tunísia. O treino dos guerrilheiros, embora se verificasse em alguns Estados de África, era essencialmente concretizado no campo de Kinkusu, cerca de sessenta quilómetros a sul de Leopoldville, a cargo de especialistas chineses de Taiwan. Embora nos estivesse interdito, no âmbito da contra-subversão, toda e qualquer acção fora do território sob a administração nacional, a fim de evitar conflitos diplomáticos com os países limítrofes, em 1963 propus ao comandante da Região sobrevoar, com a discrição possível, em missão de reconhecimento fotográfico, o campo de treinos de Kinkusu. O Gen. Brilhante Paiva, começou por sorrir pois, conforme explicou, já tinha pensado no assunto. Deu a sua anuência mas a questão ficaria, por agora, só no âmbito da Força Aérea. A missão foi realizada, os elementos de informação colhidos através da fotografia vertical e explorados pelos serviços especializados. Não houve qualquer reacção diplomática a esta incursão e não deixei de pensar como seria fácil desferir um golpe mortal a todo o complexo com um bombardeamento maciço aos primeiros alvores. Julgo que seria uma forte machadada no já débil potencial de combate inimigo. Mas se sobrevoar era susceptível de ser sempre justificável com um erro de navegação, já este tipo de acção poderia trazer sérias complicações no campo internacional. A reforçar esta nossa convicção, sobrepunha-se, naturalmente, a política conduzida pelos órgãos do poder central, continuando a insistir na tecla do “problema policial de ordem interna”.
Paralelamente, o MPLA sentia enormes dificuldades em se projectar política e militarmente por:
- cisões nas cúpulas do movimento;
- exiguidade de apoios internos que se limitava ao treino de guerrilheiros nos países do bloco soviético;
- restrições e até proibição de todas as actividades no território do Congo imposta pelo respectivo governo;
- perseguição movida pela FNLA não só dentro do território de Angola como igualmente no Congo.» (p. 220/221)

«Holden Roberto, talvez mais preocupado com a sua projecção no campo internacional que com a guerra que conduzia desde 15 de Março de 1961 e onde parece nunca ter participado, assim como qualquer dos seus quadros superiores, começou a cair em desgraça, chegando mesmo a escrever por duas vezes ao presidente Kennedy. Vivendo à sombra dos louros conquistados com a mortandade e as atrocidades cometidas no início da subversão no Norte de Angola, passou a concentrar a sua atenção no campo diplomático pelos estados penalizadores para o seu movimento, especialmente entre os membros da NATO.» (p. 222)

«No entanto e apesar da guerra, muito se fez e bastará recordarmos que, para o ano de 1974, o orçamento de Angola era o terceiro de toda a África, apenas suplantado pelo do da África do Sul e da Rodésia de Ian Smith.» (p. 304)

In General Silva Cardoso,
Angola, Anatomia de uma tragédia, Oficina do Livro, 2000.

Traição em Angola pelo General Silva Cardoso

«Killoran, o Cônsul norte-americano, tinha-me deixado um alerta. Também por essa altura, exactamente a 14 de Abril, este diplomata fizera uma visita ao Zé Valente que registou na sua agenda da qual nunca se separava: “Manhã cedo – 0700 – sem se anunciar previamente na 2.ª RA, onde já me encontrava o Cônsul-Geral norte-americano em Luanda. Veio dizer-me que os norte-americanos tinham deixado cair Angola ao terem considerado inevitável a sua transferência para a zona de influência russa. Disse que Angola iria ser um país comunista. Ingenuamente disse-lhe que isso não iria acontecer, até por atavismo dos povos….» (p. 591)

«Pretender que da Metrópole enviassem meios para controlar todo o território de Angola onde apenas dispúnhamos de 20.000 homens altamente desmotivados, e em Lisboa se gritava: “Nem mais um soldado para África”, era uma completa alucinação. E foram estes homens que, ligados aos MPLA e dirigidos por Lisboa, pretenderam conduzir o processo de descolonização de Angola, boicotando, sabotando, travando, deturpando as poucas iniciativas que ainda era possível tomar para alterar o rumo dos acontecimentos e livrar o povo angolano. Julgaram-se importantes e pretendiam apanhar um comboio que lhes passou à frente, à espera de louros que nunca conseguiriam pelas chamadas virtudes militares que incluem todo um conjunto de capacidades que ninguém lhes reconhecia. Com o poder que lhes foi dado poderiam ter sido hoje figuras respeitadas; ao escolherem o oportunismo que conduz à traição, nem como poeira da História serão referidos!» (p. 660)

«E o fim do Império iria terminar com a cerimónia, envergonhadamente simples, do arrear da Bandeira Nacional na centenária fortaleza de S. Miguel, dando por finda a nossa presença naquelas paragens durante mais de 500 anos! Assistiram o Alto-Comissário almirante Leonel Cardoso, o comandante do COPLAD, Heitor Almendra, entretanto graduado em General para desempenhar as funções de Comandante-Chefe adjunto e o secretário-geral, Coronel Gonçalves Ribeiro.
De Lisboa, nem a Presidência, nem o Governo, nem Conselho da Revolução, nem Comissão Nacional de Descolonização, nem Mário Soares, nem Rosa Coutinho, nem Pezarat Correia, nem também outros estiveram presentes ou se fizeram representar. Tudo se limitou a um simples arrear da Bandeira Nacional! Os próceres fugiram todos, nem um só esteve presente. Afinal era esta a solução que a grande maioria dos seus promotores defendera e desejara. Que sentimentos os mantiveram afastados naquele momento tão grande para Angola e o seu Povo? Remorso, vergonha, medo, cobardia, sentimento de traição? Isto tudo e ainda mais. Na realidade o que se passou é que as grandes consciências descolonizadoras, quer sejam comunistas, socialistas ou mesmo cristãs de esquerda, nunca se preocuparam com os povos ultramarinos. As suas lamentações hipócritas não tinham outro objectivo senão dissimular o verdadeiro carácter de maquinação mundial cuja cobertura ideológica asseguravam. Uma vez obtido o sucesso de tal maquinação, logo passavam à prática de outros exercícios. O povo angolano?
A esse povo apenas haviam prometido a independência; a felicidade ou a tragédia não faziam partes do seu compromisso. Em 11 de Novembro de 1975 eles tinham realizado a obra da sua vida. A partir daí, podiam de consciência tranquila continuar a passear-se pelo mundo, afivelando na face o sorriso imbecil com que vêm mascarando-se o seu horroroso crime. (p. 683/684)

«Os anos passaram. Muitos outros hão-de ainda e a História, como se diz, fará o seu juízo. Durante aqueles anos, aguardei que os mentores da descolonização de Angola, libertos do fervor revolucionário e amadurecidos pela sensatez dos anos, viessem dizer a verdade nua e crua ao País, e assumissem as responsabilidades que lhes cabem na tragédia permanente em que Angola passou a viver. Isso não aconteceu e assim ficámos a conhecer melhor a estrutura mental desses personagens. Pelo contrário, manipulando despudoradamente a opinião pública, conseguiram cativá-la para as suas teses e atravessaram incólumes este quarto de século.
Naquilo que me diz respeito, afirmo que a descolonização, tal como se cumpriu, será considerada como o episódio mais catastrófico, mais desprezível e mais estúpido de toda a História de Portugal; naquilo que me diz respeito, e que é Angola, sei que é meu dever contribuir para a formulação do juízo da História.
Este livro será o meu contributo.» (pp. 689/690)

In General Silva Cardoso,
Angola, Anatomia de uma tragédia, Oficina do Livro, 2000.